(0:00) Bem, chegámos àquela altura do ano litúrgico (0:03) em que se celebra uma figura, no mínimo, paradoxal. (0:06) Cristo Rei. (0:08) Vamos pensar nisto por um momento.
(0:10) Como é que um rei pode ser definido não por um trono de ouro, (0:13) mas por uma cruz de madeira? (0:15) É uma contradição, não é? (0:17) Vamos tentar mergulhar neste mistério. (0:19) Ora, este slide mostra bem o problema. (0:22) De um lado, temos tudo o que nós associamos a um rei do mundo, certo? (0:25) Um trono de ouro, poder que domina, exércitos.
(0:27) E do outro, bem, é o completo oposto. (0:30) Cristo Rei. (0:31) Um trono de madeira, fraqueza, sofrimento, (0:34) um amor que não se impõe, mas que se entrega.
(0:36) A grande questão é mesmo essa. (0:38) Como é que estas duas realidades tão diferentes (0:40) podem ser chamadas de realeza? (0:43) E a resposta, ou pelo menos a chave para a resposta, (0:45) está precisamente nisto. (0:46) A soberania de Cristo, para a fé cristã, (0:48) não se revela num palácio faustoso, (0:50) mas no sítio mais improvável e vulnerável de todos, a cruz.
(0:54) É um trono completamente inesperado, (0:57) onde o poder não é força, mas sim entrega total. (1:00) Ok, mas esta ideia de um rei, assim, tão diferente, (1:04) de onde é que ela vem? (1:05) Para isso, temos de recuar um pouco, (1:08) ir às raízes bíblicas (1:09) e olhar para uma figura absolutamente central, (1:12) o rei David. (1:13) É David que vai criar este modelo do rei pastor.
(1:16) Reparem, o papel dele não era o de um conquistador (1:19) que esmaga os inimigos. (1:20) Não. A sua missão era outra.
(1:23) Era ser como um pastor para o seu povo. (1:24) Era unir, guiar, cuidar. (1:27) A sua grande tarefa era, de facto, pastorear Israel.
(1:30) E esta ideia vai ser crucial para tudo o que vem a seguir. (1:34) E olhem para esta citação. (1:36) É fascinante.
(1:37) O povo diz a David, (1:39) nós somos dos teus ossos e da tua carne. (1:42) Isto é muito mais do que um juramento de lealdade, não acham? (1:45) É quase uma declaração de família. (1:47) É um laço de sangue, (1:49) um reconhecimento de que ele é um deles.
(1:52) E isto? (1:53) Isto já aponta para a forma como Cristo se vai ligar à humanidade, (1:56) tornando-se, de facto, um de nós. (1:58) Então, passamos de um rei pastor de um povo (2:01) para algo muito, muito maior. (2:04) A realeza de Cristo não fica confinada a um país ou a uma fronteira.
(2:08) Não. Ela ganha uma dimensão cósmica, universal. (2:11) Uma realeza que abrange, bem, tudo o que existe.
(2:15) A carta aos Colossenses é, uau, de uma escala impressionante a este respeito. (2:19) Cristo é apresentado como o centro de tudo, literalmente. (2:23) Ele é a imagem de Deus invisível, o primogénito de toda a criatura.
(2:27) É nele que tudo subsiste. (2:29) Isto significa que o seu reino não é só o que vemos, (2:32) mas também o que não vemos. (2:33) Ele é a cola que une todo o universo.
(2:36) E esta realeza cósmica tem um objetivo muito claro. (2:40) A redenção. (2:42) A ideia que, através de Cristo, as pessoas são, e cito, (2:46) libertas do poder das trevas (2:47) e transferidas para o reino do seu filho.
(2:51) É quase como mudar de país, (2:52) de um reino de escuridão para um reino de luz. (2:55) Uma libertação. (2:57) E é isto que nos leva, inevitavelmente, ao momento-chave, (3:00) ao clímax de toda esta história, a crucificação.
(3:03) É ali, no Calvário, que todas estas peças do puzzle, (3:06) o rei pastor, o rei criador, o salvador, se juntam. (3:10) É ali que o paradoxo explode em todo o seu significado. (3:13) A ironia da cena é cortante.
(3:16) Os líderes, os soldados, todos gozam com ele. (3:20) Dizem-lhe que salvou os outros, agora salve-se a si mesmo, (3:22) se é mesmo o Messias. (3:24) Estão a exigir que ele prove que é rei da única maneira que eles entendem, (3:27) com uma demonstração de poder, salvando-se a si próprio.
(3:30) Mas a questão é que é precisamente por ele não o fazer (3:33) que a sua realeza se manifesta. (3:35) Então, no meio de todo aquele caos, daquele gozo, daquela dor, (3:39) quando parece que ninguém está a perceber nada do que se passa, (3:41) há alguém que vê, (3:43) alguém que consegue ver para além das aparências. (3:46) Quem é que reconhece este rei no seu momento de maior fraqueza? (3:49) A resposta vem do sítio mais improvável de todos, (3:52) um dos ladrões que está a ser crucificado ao lado dele.
(3:55) Imaginem a cena. (3:56) Este homem, no meio da sua própria agonia, (3:59) olha para o lado e vê um rei. (4:02) É um acto de fé absolutamente extraordinário.
(4:04) Ele vê um rei a ser executado e mesmo assim pede. (4:07) Jesus, lembra-te de mim quando chegares ao teu reino. (4:11) E a resposta de Jesus é aqui que tudo faz sentido.
(4:14) O seu primeiro ato como rei, ali na cruz, (4:17) não é um decreto para se salvar a si mesmo. (4:19) É uma promessa para salvar outra pessoa. (4:22) Ele diz, hoje mesmo estarás comigo no paraíso.
(4:25) O seu poder real não é o poder de dominar, (4:28) mas o poder de perdoar e de abrir as portas do seu reino. (4:31) Muito bem, depois de vermos tudo isto, (4:33) a pergunta lógica é, e então, (4:35) o que é que isto significa para a vida todos os dias? (4:38) Como é que se vive num reino com um rei destes? (4:40) Ok, então podemos resumir tudo em três grandes ideias, (4:43) três faces deste rei. (4:45) Primeiro, o rei pastor, aquele que une e guia, como o David.
(4:49) Depois, o rei criador, (4:51) aquele que é o centro do universo e que sustenta tudo. (4:53) E por fim, o rei misericordioso, (4:55) aquele que no seu momento mais fraco abre as portas do paraíso. (4:59) Isto, por sua vez, (5:01) leva-nos a três formas muito práticas de viver neste reino.
(5:04) Se o rei serve, então os súbditos também devem servir, (5:07) em vez de dominar. (5:09) Se a realeza do rei brilha no sofrimento, (5:11) então é preciso ter fé, mesmo nesses momentos difíceis. (5:15) E se ele é um rei pastor, que une, (5:17) então a missão é promover a unidade, (5:19) lutar contra as divisões.
(5:21) E, para terminar, fica uma pergunta para pensarmos. (5:23) Se o maior poder de um rei não está num trono de ouro, (5:26) mas sim numa cruz de madeira, (5:28) de que maneira é que isso pode ou deve mudar a nossa própria ideia (5:32) do que é a força, o poder e a influência?
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