11 25 S. Mateus – A radicalidade da mudança

11 09 templo ld Reflexão sobre a Purificação do Templo

POCAST

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(0:00) Alguma vez pensaram em como é que um homem desprezado pela própria comunidade (0:03) e visto como um traidor, se pode tornar numa das figuras mais influentes da história? (0:08) Bem, hoje vamos mergulhar na incrível transformação de Levi, o cobrador de impostos, (0:13) em São Mateus, o evangelista. (0:15) Ora bem, para percebermos bem esta jornada, vamos olhar para ela em quatro momentos-chave. (0:20) Primeiro, quem era este Levi antes de tudo? (0:24) Depois, vamos ver o momento exato em que a vida dele mudou para sempre.

(0:27) A seguir, como é que ele usou o seu passado para uma missão completamente nova. (0:32) E por fim, claro, o legado que ele deixou. (0:34) Então, vamos lá começar pelo início.

(0:37) Quem era este homem antes de o mundo o conhecer como Mateus, o apóstolo? (0:41) Aqui a resposta está na sua antiga vida. (0:43) E acreditem, é aqui que está a chave para percebermos a verdadeira dimensão desta transformação. (0:48) O ponto central aqui é a profissão dele.

(0:51) Ele era um publicano. (0:53) E atenção, isto não era só um trabalho, era uma identidade. (0:56) Para os outros judeus, os publicanos eram colaboradores do opcessor, o Império Romano.

(1:02) Eram vistos como traidores e pecadores públicos. (1:05) E, claro, muitas vezes acusados de serem corruptos e de exturquirem dinheiro. (1:09) Pois bem, antes de ser Mateus, o nome dele era Levi, e trabalhava na sua coletoria de (1:14) impostos, em plena cidade de Cafarnaum, que na altura era um centro de comércio super (1:19) importante na Galileia.

(1:21) E é aqui que a história se torna fascinante, porque temos aqui uma contradição enorme. (1:24) Por um lado, a sociedade olhava para ele e via um páreo, um marginalizado. (1:28) Mas, por outro, e aqui está a ironia, o seu trabalho exigia competências que pouca (1:32) gente tinha.

(1:33) Ele era culto, sabia ler e escrever e era super organizado. (1:37) Essas mesmas competências, que eram usadas para um trabalho tão odiado, iam ser absolutamente (1:42) cruciais para o seu futuro. (1:44) E agora chegamos ao ponto de viragem, o momento decisivo, uma decisão tomada num instante (1:49) que mudou absolutamente tudo na vida de Levi.

(1:52) Imaginem só a cena. (1:53) Levi está no seu posto, a trabalhar, rodeado de dinheiro, de registos, e de repente Jesus (1:59) passa por ele e diz apenas duas palavras. (2:02) Segue-me.

(2:03) Não foi bem um convite, foi quase uma ordem, não é? (2:06) Simples, direta, mas com um peso, uau, um peso que ia mudar o rumo da história. (2:12) E a resposta dele é o que torna esta história tão poderosa, é que ele não hesitou, não (2:16) fez uma única pergunta. (2:17) Simplesmente levantou-se, deixou tudo para trás, o dinheiro, a segurança, o poder que (2:22) conhecia e seguiu-o.

(2:23) Uma entrega total, imediata. (2:26) E qual foi a primeira coisa que ele fez para celebrar? (2:28) Deu uma festa. (2:29) Mas atenção, não foi uma festa qualquer, foi, de certa forma, um ato de desafio.

(2:35) Ele juntou a sua vida antiga com a nova, convidando Jesus para jantar com os seus colegas, outros (2:40) cobradores de impostos e todos aqueles que a elite religiosa chamava de pecadores. (2:44) Imaginem só o escândalo que isto não foi para a sociedade da época. (2:48) E quando o criticaram por andar com aquela gente, a resposta de Jesus tornou-se uma das (2:53) frases que melhor definem a sua missão.

(2:55) Ele não estava ali para os que já se achavam perfeitos, mas sim para aqueles que a sociedade (2:59) tinha posto de lado. (3:01) E é aqui que a história fica ainda mais interessante, porque vemos que nada se perdeu. (3:05) Aquelas competências, a organização, a escrita, que antes serviam ao Império Romano, (3:10) bem, foram completamente redirecionadas.

(3:13) O homem que antes registava dívidas passou a registar a história que iria mudar o mundo. (3:18) Ora, Mateus, como escritor, tinha um propósito muito, muito claro. (3:22) Ele estava a escrever para um público específico, os judeus que se tinham convertido.

(3:26) E o objetivo? (3:27) Era só um, provar-lhes que Jesus era, sem sombra de dúvida, o Messias que eles esperavam (3:32) há tanto tempo. (3:34) Para fazer isto, ele usa uma estratégia de escrita brilhante. (3:37) Primeiro, ele faz uma coisa incrível, vai buscar as profecias antigas e vai ligando os (3:42) pontos, um a um, à vida de Jesus, quase como um tetive.

(3:46) Depois, apresenta Jesus como um novo Moisés, o que para o seu público fazia todo o sentido. (3:52) E finalmente, uma coisa muito subtil, ele usa a expressão Reino dos Céus, uma linguagem (3:57) que ressoaria profundamente com qualquer judeu da altura. (4:01) E tudo isto leva-nos a uma pergunta curiosa que muita gente faz quando vê arte sacra.

(4:06) Porquê que o símbolo de Mateus é quase sempre um homem, às vezes com asas, como um anjo? (4:12) A resposta, curiosamente, está mesmo no início do seu Evangelho. (4:16) É que ele começa logo com a genealogia humana de Jesus, ligando as suas raízes a toda a (4:21) história do povo judeu. (4:23) Este foco na humanidade de Cristo é daí que vem o seu símbolo.

(4:27) Ok, vamos então para o capítulo final da sua vida e perceber como é que o seu legado (4:32) perdura até hoje. (4:33) A tradição conta que a missão dele não ficou pela Judeia. (4:36) Aquele chamado, Segm, levou-o a viajar pelo mundo conhecido, a pregarem sítios tão longínquos (4:42) como a Etiópia e a Pérsia.

(4:44) E a sua jornada terminou da forma mais radical, dando-o a própria vida pela fé que tinha (4:48) virado o seu mundo do avesso. (4:50) E olhem, esta tabela resume na perfeição esta transformação incrível. (4:55) De Levi ao cobrador de impostos, a Mateus, o evangelista.

(4:58) Uma jornada de transformação total que a Igreja, aliás, celebra todos os anos a 21 de Setembro. (5:04) E terminamos com esta reflexão. (5:07) A história de Mateus mostra-nos que uma única decisão, um sim, dito num só instante, pode (5:12) não só redefinir uma vida inteira, mas ter ecos por toda a história.

(5:17) Isto faz-nos pensar, não é? (5:18) Qual é, afinal, o verdadeiro poder de um único momento de mudança?

Podcast

A Incrível Transformação de Levi Mateus Apóstolo

24/11/2025, 22:28

(0:00) Olá e bem-vindos. (0:01) Hoje vamos mergulhar numa das transformações mais improváveis e radicais que se possa imaginar. (0:09) Sem dúvida.

(0:10) Pensemos nisso. (0:11) Um homem cuja profissão o torna, bem, um traidor aos olhos do seu próprio povo. (0:17) Um pária.

(0:18) Exatamente. (0:20) E de repente ele torna-se a voz que vai definir a história desse mesmo povo para as gerações (0:26) futuras. (0:27) É uma reviravolta incrível.

(0:28) E há uma reviravolta que está mesmo no coração do Novo Testamento. (0:32) Estamos a falar, claro, de São Mateus. (0:35) Claro.

(0:35) Para percebemos o impacto do Evangelho dele, que é a porta de entrada para toda a narrativa (0:40) cristã, temos mesmo de perceber o homem. (0:43) Quem era ele? (0:44) O que que levou a uma mudança tão drástica? (0:48) Exatamente. (0:49) E essa é a nossa missão hoje.

(0:51) Vamos analisar essa jornada em três grandes momentos. (0:54) Primeiro, quem era Levi, o cobrador de impostos? (0:57) Certo. (0:57) O que que isso significava na prática, em Cafarnaum, no século I? (1:01) Depois, o momento da viragem, o encontro com Jesus.

(1:05) E por fim, o legado. (1:07) Como é que este homem se tornou o arquiteto de um texto tão influente? (1:12) Pois. (1:13) E as fontes que temos, tanto o texto dele como os outros Evangelhos, permitem-nos traçar (1:17) este perfil.

(1:18) E vamos analisar não só os factos, mas a psicologia por trás deles. (1:22) A tensão de ser culto, mas desprezado? (1:25) Exatamente. (1:26) Essa tensão.

(1:26) E a audácia da sua resposta a Jesus. (1:29) E depois, a genialidade com que ele usou as suas competências antigas para uma missão (1:34) completamente nova. (1:35) Certo.

(1:36) Então vamos ao ponto de partida. (1:38) Antes de ser o apóstolo Mateus, ele era Levi, filho de Alfeu. (1:41) E a sua profissão? (1:43) Publicano.

(1:44) Cobrador de impostos. (1:45) Hoje, se calhar, um funcionário das finanças não nos causa grande emoção. (1:49) Mas naquela altura, este rótulo era carregado de ódio.

(1:53) Por que que esta profissão era tão explosiva? (1:55) Era explosiva porque tocava em todos os pontos sensíveis da sociedade judaica sobre a ocupação (2:02) romana. (2:03) Política, religião, identidade. (2:05) Tudo ao mesmo tempo? (2:06) Tudo.

(2:07) Os publicanos não eram apenas funcionários. (2:09) Eram agentes locais a trabalhar para a potência opressora, para Roma. (2:13) Eles recolhiam os impostos que financiavam o exército que os subjugavam.

(2:17) Portanto, eram vistos como colaboradores. (2:19) Traidores. (2:19) No nível mais básico, sim.

(2:21) Traidores da sua própria nação. (2:22) E a isso juntava-se a corrupção, certo? (2:24) A imagem que temos é que não se limitavam a cobrar o imposto devido. (2:28) Havia uma margem para a extorsão.

(2:30) E era sistémica. (2:31) O sistema romano quase que incentivava isso. (2:34) Um publicano como Levi comprava o direito de cobrar impostos numa área.

(2:37) Ah, então ele pagava à Roma primeiro. (2:40) Ivato! (2:40) E tudo o que ele conseguisse cobrar acima desse valor era o seu lucro. (2:45) Isto criava um conflito de interesses gigante.

(2:48) Para o povo, ele não era só um traidor. (2:51) Era um ladrão legalizado. (2:53) O que me impressiona aqui é a dualidade desta figura.

(2:56) Por um lado, é um par e é completo. (2:59) Os fariseus consideravam-nos impuros. (3:01) Sim, não se sentavam à mesa com eles.

(3:03) De todo. (3:04) Mas, por outro lado, para fazer este trabalho, Levi não podia ser um ignorante. (3:09) É um ponto fundamental para o entendermos.

(3:11) Levi era necessariamente um homem com um alto nível de literacia. (3:16) Tinha de dominar o aramaico, a língua local, e quase de certeza o grego, a língua da administração. (3:22) Tinha de ser organizado, metódico.

(3:24) Exatamente. (3:25) Talvez até implacável. (3:27) Portanto, temos aqui um homem que tem as ferramentas da elite, mas que é completamente excluídos (3:32) a vida social e religiosa do seu povo.

(3:34) É uma posição de grande poder e, ao mesmo tempo, de uma profunda solidão. (3:38) Uma espécie de exílio dentro da sua própria casa. (3:42) Tem dinheiro, competências, mas não tem comunidade.

(3:46) É fácil imaginar um vazio a crescer numa pessoa assim. (3:49) Pois. (3:50) E é neste cenário que acontece o momento seguinte.

(3:53) Um dos mais dramáticos de toda a narrativa. (3:57) Jesus passa pela alfândega, o seu posto de cobrança, vê Levi sentado e diz apenas duas (4:01) palavras. (4:03) Segue-me.

(4:03) E a reação é o que desafia a lógica. (4:06) Levi levanta-se, deixa tudo e segue-o. (4:10) Fim da cena.

(4:12) Parece uma decisão incrivelmente impulsiva. (4:16) Parece, sim. (4:16) Há alguma interpretação que surgira que Mateus já conhecia Jesus? (4:20) Ou que estava num ponto de rotura que tornasse isto menos abrupto? (4:24) Essa é a grande questão.

(4:25) As narrativas são muito económicas nos detalhes, o que nos força a interpretar. (4:30) Uma leitura puramente miraculosa, diria que foi o poder divino do chamamento. (4:34) Certo.

(4:35) Outra, mais psicológica. (4:36) Diria que o que falámos antes, o vazio, a insatisfação, o peso de ser um páreo rico, (4:41) o preparou para este momento. (4:43) Ele já estava à espera de algo.

(4:45) Talvez. (4:46) Talvez já tivesse ouvido falar deste rabi, o convite de Jesus não era para mais riqueza (4:50) ou poder, mas para algo que ele não tinha. (4:53) Pertença, propósito, redenção.

(4:56) A resposta imediata pode ter sido o resultado de um longo processo de descontentamento silencioso. (5:01) Faz todo o sentido. (5:03) A semente já lá estava.

(5:05) E o que acontece a seguir é quase tão revelador. (5:08) Mateus não se esconde. (5:09) Pelo contrário, dá um grande banquete.

(5:12) E não é um banquete qualquer. (5:13) Ele não está a tentar integrar-se num novo grupo, deixando o antigo para trás. (5:17) Ele faz o oposto.

(5:18) Ele leva Jesus para o mundo dele. (5:20) Exatamente. (5:21) Os convidados são os amigos e colegas dele, outros cobradores de impostos e pecadores, (5:26) a escória da sociedade, segunda elite religiosa.

(5:29) Espera um pouco. (5:30) Então, o primeiro ato dele é basicamente forçar um encontro entre o seu novo mestre (5:36) e o seu antigo círculo de páreas. (5:39) Isso é de uma audácia tremenda.

(5:40) É um ato socialmente explosivo. (5:43) Imagine a cena. (5:45) Os fariseus, ao olhar de fora, a ver este mestre assentar-se, a comer e beber com traidores.

(5:51) Comer juntos era um ato de aceitação profunda naquela cultura. (5:55) Era. (5:55) Para eles era um escândalo absoluto, a prova de que Jesus não podia ser um homem de Deus.

(6:00) E a crítica deles é imediata. (6:02) Por que o vosso mestre come com essa gente? (6:04) E é aqui que temos uma daquelas frases que ecoam através dos séculos e que o próprio (6:09) Mateus faz questão de registrar no seu evangelho. (6:12) Sim.

(6:13) Jesus responde, não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. (6:19) Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores. (6:22) É uma frase que já ouvimos mil vezes, mas no contexto daquele banquete, na casa daquele (6:28) homem, ganha uma força quase física.

(6:32) Jesus usa o banquete de Mateus como uma parábola viva. (6:36) Ele está a demonstrar a sua mensagem. (6:38) Exatamente.

(6:39) Ele não está apenas a dizer, está a fazer. (6:42) O chamamento de Mateus não é a exceção à regra, é a própria regra. (6:47) E o facto de Mateus registrar isto no seu próprio evangelho é fascinante.

(6:51) É como se ele dissesse, esta é a minha história, eu sou o doente que o médico vai curar. (6:57) E é por isso que a minha perspetiva é importante. (7:00) Sim.

(7:01) Essa frase de Jesus no banquete, registrada pelo próprio Mateus, é quase a tese do seu (7:06) evangelho. (7:07) A história de vida dele torna-se o ponto de partida para a grande história que ele precisava (7:12) de contar. (7:12) É precisamente isso.

(7:14) E aqui entramos no legado monumental dele. (7:17) O que me impressiona no evangelho de Mateus é que parece quase um documento legal. (7:22) Ele está a construir um caso, ponto por ponto, como provas do Antigo Testamento.

(7:26) É uma abordagem muito metódica. (7:29) Quase como a de alguém habituado a lidar com registros e contas. (7:32) É uma ótima observação.

(7:34) Ele está a usar as suas competências de organização, não para a burocracia romana, (7:39) mas para a teologia. (7:40) Então qual era o caso que ele estava a tentar provar? (7:44) E para quem? (7:45) O público-alvo principal eram os judeus que acreditavam em Jesus. (7:49) A grande questão para essa comunidade era, como é que este Jesus de Nazaré se encaixa (7:53) em tudo o que aprendemos? (7:55) Ele é um Messias prometido ou não? (7:57) E o objetivo de Mateus é responder a essa pergunta com um sim retumbante.

(8:01) E prová-lo de forma irrefutável. (8:03) Usando as próprias escrituras hebraicas como a sua principal testemunha. (8:07) E a sua técnica mais visível é essa repetição quase rítmica da fórmula.

(8:12) Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor falou pelo profeta. (8:16) É uma estratégia retórica poderosíssima para o público dele. (8:19) Ele está a dizer, vejam, nada disto é acidental.

(8:23) Cada passo da vida de Jesus foi pré-anunciado. (8:26) Mas é mais do que isso, não é? (8:27) E sim. (8:28) Ao fazer estas ligações, Mateus está, na verdade, a fazer uma jogada de marketing genial.

(8:32) Ele está a usar a linguagem da velha marca, o judaísmo, para validar um produto novo. (8:38) Ele não está a romper com o passado, está a afirmar que a sua história é a conclusão (8:42) lógica desse passado. (8:44) De ele não se fica pelas citações diretas.

(8:46) As fontes falam da ideia de Jesus como o novo Moisés. (8:50) Como é que ele constrói essa imagem? (8:51) Ele fala-o através de paralismos estruturais que um leitor judeu reconheceria logo. (8:56) Moisés, a figura central, subiu ao monte Sinai para receber a lei.

(9:00) Mateus mostra Jesus a subir a um monte para dar a nova lei, o sermão da montanha. (9:06) Exatamente. (9:07) Que não anula a antiga, mas a aprofunda.

(9:11) Moisés libertou o povo do Egito. (9:13) Mateus relata a fuga para o Egito e o regresso, apresentando Jesus como alguém que recapitula (9:19) e supera a história de Israel. (9:21) E aos cinco discursos de Jesus.

(9:23) Que muitos estudiosos veem como um eco deliberado dos cinco livros de Moisés, a Torá. (9:29) É uma obra de arquitetura literária, sem dúvida. (9:32) E há pequenos detalhes que reforçam esta ideia? (9:35) O exemplo do Reino dos Céus é perfeito? (9:37) Sim, é um detalhe subtil, mas muito revelador.

(9:41) Enquanto os outros evangelistas falam do Reino de Deus, Mateus usa consistentemente Reino (9:46) dos Céus. (9:47) Que era uma forma de evitar pronunciar o nome sagrado de Deus. (9:51) Exato.

(9:52) Era um circunlóquio comum no judaísmo. (9:54) Ao fazer isto, Mateus está a sinalizar ao seu público, eu sou um de vós, eu entendo (10:00) e respeito as nossas tradições. (10:02) É um piscar de ouro cultural que cria confiança.

(10:06) E essa identidade cultural também explica o símbolo que a tradição artística lhe (10:10) deu o homem ou, por vezes, o anjo. (10:13) Qual é a lógica? (10:14) A lógica está na primeira página do Evangelho dele. (10:17) Ele começa com a genealogia de Jesus, filho de Dravid, filho de Abrão.

(10:22) Para um público não judeu, isto podia ser aborrecido. (10:25) Uma lista de nomes. (10:26) Mas para o público dele era a prova documental.

(10:29) Era o passo número um, absolutamente essencial para legitimar a sua pretensão messiânica. (10:35) O símbolo do homem destaca este foco na sua ancestralidade humana e na sua inserção (10:40) na história de Israel. (10:41) A história, claro, não acaba com a escrita do Evangelho.

(10:45) A tradição diz-nos que a sua missão continuou. (10:47) Para onde é que ele levou esta mensagem? (10:49) As tradições mais antigas dizem que, depois de pregar na Judeia, Mateus viajou bastante. (10:55) Os relatos variam, mas mencionam-se frequentemente a Etiópia, a Pérsia, Terras Aleste.

(11:01) O homem que antes estava confinado a uma pequena banca de impostos tornou-se um mensageiro (11:05) global. (11:06) E a sua vida terminou como a sua nova vida começou, com um ato de entrega total. (11:12) A tradição é unânime em dizer que ele morreu como mártir.

(11:15) Sim, o consenso é que ele selou o seu testemunho com a vida. (11:18) Os pormenores variam, uns dizem que foi morto a espada, outros com uma lança, enquanto (11:23) celebrava a missa, mas a essência é a mesma. (11:26) O homem que um dia deixou tudo para trás, com base em duas palavras.

(11:30) Acabou por dar tudo, incluindo a própria vida, por essa mesma causa. (11:34) A transformação dele foi absoluta, da primeira à última consequência. (11:38) É uma jornada impressionante.

(11:40) Badei o pariaculto, a Mateus o apóstolo, o evangelista meticuloso e finalmente o mártir. (11:48) A vida dele é, se calhar, o melhor comentário ao seu próprio evangelho. (11:52) Sem dúvida.

(11:54) A existência dele personifica a mensagem central de que a redenção não é para os (11:59) que já se julgam perfeitos, mas para os que reconhecem a sua necessidade de mudança. (12:04) E ilusou aquela mente lógica e organizada. (12:08) Antes, ao serviço de um império opressor, para estruturar o argumento mais importante (12:13) da sua vida, provar ao seu próprio povo que o Messias que eles esperavam tinha chegado (12:19) e que tinha vindo precisamente para pessoas como ele.

(12:22) Ele não só construiu uma ponte entre o Antigo e o Novo Testamento, a sua própria vida foi (12:26) essa ponte. (12:27) O que nos deixa com uma reflexão final. (12:30) A história de Mateus levanta uma questão fascinante sobre a natureza da mudança.

(12:34) A sua resposta imediata a Jesus foi um ato de fé pura, repentina ou foi o culminar de (12:40) uma profunda e silenciosa insatisfação com a vida que levava? (12:45) Por outras palavras, o que é mais poderoso, a força do convite que ele recebeu ou o peso (12:50) do vazio que ele deixou para trás na sua banca de impostos? (12:54) A resposta talvez nos diga muito sobre as nossas próprias transformações.

 

 

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