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10 21  Terça Lc 12, 35-38 «Felizes os servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas.

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada felizes serão se assim os encontrar».

Palavra da salvação..

REFLEXÃO .

O Evangelho de Lucas convida-nos a uma vigilância ativa, comparando a vida cristã à atitude dos hebreus na noite do êxito: de pé, com o cajado na mão, prontos para partir quando o Senhor chamar. Esta imagem rompe com a nossa tendência natural para o comodismo espiritual. Na vida prática, “ter os rins cingidos” significa desprender-nos dos pesos desnecessários – o excesso de preocupações materiais, os apegos que nos paralisam, a procrastinação no bem. “Manter as lâmpadas acesas” exige um abastecimento constante de óleo através da oração, dos sacramentos e da caridade.

O maior desafio moderno à vigilância é a distração. Vivemos numa era de estímulos constantes que nos adormecem para o essencial: as notificações do telemóvel abafam o sussurro de Deus; o acumular de posses materiais tolda a saudade do Céu; o activismo vazio substitui a espera consciente. A parábola revela que a vigilância não é passiva – é uma preparação activa que transforma até as noites mais escuras (as “meias-noites” das crises e sofrimentos) em oportunidades de graça.

A recompensa da vigilância é profundamente comovente: o Senhor “passando diante deles, os servirá”. Deus não só recompensa como Se inverte nos papéis – o Mestre serve os discípulos. Isto reflecte a lógica do Reino, onde a fidelidade na espera é transformada em intimidade eterna. Na prática, isto significa:
1. **Revisão diária das prioridades** – Começar o dia perguntando: “Estou mais preparado para encontrar Cristo hoje?”
2. **Conversão do ordinário** – Transformar tarefas rotineiras em actos de amor vigilante
3. **Discernimento comunitário** – Ajudarmo-nos uns aos outros a manter as lâmpadas da fé acesas

A vigilância cristã não é ansiosa, mas cheia de esperança – é a atitude de quem sabe que a Noite Pascal já começou e aguarda a aurora definitiva.

**Oração**.

Senhor Jesus, que na vigília da Páscoa nos chamais à liberdade,
cingi nossa alma com o cinto da vossa verdade
e mantende acesa em nós a lâmpada da esperança.
Quando a noite do mundo nos quiser adormecer,
despertai nosso coração com a vossa vinda silenciosa.
Fazei de nossa vida não um adiar, mas um constante “estar prontos”,
até que, finda a vigília, nos sirvais à mesa do Reino eterno.
Amém.

10 20 Segunda  Lc 12, 13-21 «O que preparaste, para quem será?»

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo». Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?». Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». E disse-lhes esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’ Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

Palavra da salvação.

Reflexão .

O Evangelho de Lucas 12,13-21 apresenta-nos uma das advertências mais contundentes de Jesus sobre o perigo de colocarmos a nossa segurança nos bens materiais. O pedido do homem – “Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo” – revela um coração já corrompido pela cobiça, mais preocupado com a parte da herança do que com o próprio irmão. Jesus, recusando-se a ser um mero árbitro de disputas materiais, vai à raiz do problema: a avareza.

A parábola do homem rico é um retrato atemporal da ilusão humana. O homem não é condenado por ser trabalhador ou bem-sucedido, mas pela sua profunda miopia espiritual. O seu erro reside em três atitudes: o diálogo é apenas “consigo mesmo”, excluindo Deus e o próximo; ele repete obsessivamente “os meus celeiros, a minha colheita, os meus bens”, num egocentrismo possessivo; e o seu projeto de vida se reduz a “descansar, comer, beber e regalar-se”, uma visão redutiva e hedonista da existência.

A voz de Deus soa como um alerta solene: “Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?”. A verdadeira insensatez é construir a vida sobre o que é perecível, ignorando a realidade da morte e do juízo. A pergunta final ecoa através dos séculos, desafiando toda a nossa lógica de acumulação.

Para o cristão de hoje, imerso numa sociedade de consumo que glorifica o ter sobre o ser, este texto é um antídoto urgente. Aplica-se a toda a tentação de medir o sucesso pela conta bancária, de adiar a caridade para um “futuro mais folgado”, ou de buscar nos bens um refúgio para a ansiedade. Ser “rico para Deus”, como Jesus propõe, é investir em realidades eternas: a prática da justiça, a misericórdia, o amor fraterno e a partilha. Significa usar os bens como instrumentos para o bem, e não como fins em si mesmos. A vida é um dom que vale mais do que todas as coisas; vivê-la como se o ter fosse a sua essência é o maior dos enganos.

**Oração**

Senhor Jesus, libertai o meu coração do engano das riquezas.
Ensinai-me a sabedoria de partilhar hoje,
e não a insensatez de acumular para um amanhã incerto.
Que os bens que possuo não me possuam a mim,
e que eu seja rico em gestos de amor e obras de misericórdia,
acumulando, assim, um tesouro eterno no Céu.
Amém.