Comentários gerais à Palavra da XXI semana do tempo comum

 

TERÇA-FEIRA

PRIMEIRA LEITURA (anos pares) 2Ts 2,l-3a.l4 17
Guardai firmemente as tradições que vos ensinámos
Ler a P«la\ ra
Este trecho une duas passagens que se completam, ao apresen tar a advertência do autor sagrado aos irmãos, para que vigiem contra todas as tentativas enganosas, promovidas por quem não e animado pela verdadeira fé. Convida os a permanecerem firmes naquilo que receberam como dom e que não pode ser manipu lado por novidades que são fruto de fantasias ou de interesses pessoais. A raiz desta perseverança é dada pela convicção de que Deus, em primeiro lugar, e fiel às Suas promessas e ampara aque¬les que escolheu para Seus discípulos.
Compreender a Palavra
Julgar iminente a vinda do Senhor tinha criado na comunida de cristã de Tessalónica anseios e expectativas enormes, expres¬sões mais de agitação interior do que de acolhimento das revela¬ções de Deus. O facto de andarem confusos e perturbados, sem motivos validos, é fruto da falta de equilíbrio espiritual, que os impede de saberem ser fiéis às tradições aprendidas e de espera rem o momento estabelecido. A expectativa pode cansar e irritar, mas não deve fazer perder a paz de consciência, própria daquele que se abandona à vontade de Deus.
A solidez das tradições recebidas sustenta esta fidelidade paciente que continua a crer nas promessas do Senhor, mesmo
quando não se vislumbra a realização plena. As disposições in¬teriores de confiança e de esperança tornam o fiel primícias de salvação, as quais são dom só de Deus, contra qualquer pretensão de saber já, desde agora, como correrão as coisas.
SALMO RESPONSORIAL SL 95,10-13
A proclamação cósmica do salmista coloca na boca da Cria¬ção o louvor do Senhor, reconhecido como presença que vai ao encontro de todas as Suas criaturas, para que não vacilem e não permaneçam na injustiça. O juízo de Deus exprime a eficácia da Sua vinda, para que nada se perca.
EVANGELHO MT 23,23-26
Deveis praticar estas coisas sem omitir as outras.
Ler a Palavra
Continua a censura de Jesus aos escribas e aos fariseus, que perderam de vista as coisas essenciais, para se apegarem a ritos que dão a impressão de pôr em ordem a consciência, mas na realidade são práticas que não assentam na justiça e na miseri¬córdia de Deus. Conforme o estilo típico das antíteses de Ma¬teus (cf. MT 5), também aqui Jesus desmascara os ritos farisaicos, fazendo-os empalidecer perante as exigências muito mais interio¬res e profundas da própria Lei, cujo ámago é a justiça, sobretudo na consciência.
Compreender a Palavra
Mais dois «ai de vós!» muito severos dirigidos aos escribas e aos fariseus, com a acusação bem pesada de serem «guias cegos» (v. 24). O exemplo aduzido por Jesus sobre os vários tipos de ta¬xas a pagar ao culto permite compreender a distância entre aquilo que Deus pede aos Seus fiéis – justiça, misericórdia, fidelidade – e a nossa pretensão de calcular a fé com as ofertas que fazemos. As ofertas não estão erradas em si mesmas, mas é o espírito com o qual se oferecem que torna a acção agradável ou desagradável a Deus. A acusação de cegueira é muito mais grave para quem nao só deve guiar-se a si mesmo, mas é ponto de referência tambem para os outros.
O caminho privilegiado para não errar e, por conseguinte, para aprender a ver bem as coisas é o de cuidar de si mesmo com uma atenção constante. Purificar a própria intenção, cuidar da formação da própria consciência para que esteja sempre límpida e serena, sem ambições de posse e de desregramentos, e o primei¬ro e o principal modo de sermos guias dos outros.
DA PALAVRA PARA A VIDA
«Limpa primeiro o copo por dentro, e assim o lado de fora também ficará limpo.» (Mr 23,26) Mesmo na censura, Jesus oferece um ensinamento: considerar com muita atenção não apenas os Mandamentos a observar, mas também a ordem com que se respeitam. A norma respeitante à limpeza dos co pos (metáfora do espirito humano capaz de acolher a água refrescante do Espírito) prevé que se lave tudo, mas Jesus impõe que em primeiro lugar se limpe o interior e depois o exterior. Parece haver uma prioridade dada à interioridade, àquele lugar onde a água e os alimentos devem caber. A in-terioridade, ou o coração segundo a tradição bíblica, é a sede dos pensamentos, dos projectos, dos desejos, das paixões, das decisões do homem; é aquele espaço interior onde se encon¬tra um pouco de tudo e donde, conforme a opção livre do homem, pode sair o bem ou o mal. É o lugar onde somos chamados com maior esforço a vigiar, para compreendermos de que é que somos habitados e a sermos capazes de decidir o que devemos tirar de nós. A limpeza do interior então não coincide com a eliminação das paixões que notamos que são negativas, mas com a capacidade de as integrar, para que não se tornem violência que sai de nós, sem que verdadeiramente o queiramos (Evangelho).
Também o Apóstolo Paulo se encontrou perante a acusação de cultivar duplos fins no seu ministério (primeira leitura,
anos ímpares), mas declara que procurou sempre no seu cora¬ção «agradar a Deus» (lTs 2,4), ou seja, viver a justiça na rela¬ção com Ele e cultivar sem parar a misericórdia para com os irmãos. É a procura da própria autenticidade diante de Deus que torna a pessoa luminosa e capaz de levar calor a todas as coisas. A primeira caridade a cultivar é a da verdade para connosco, não tanto para nos comprazermos de nós mesmos, mas para sermos justos diante de Deus fiel e para O agradar a Ele, que é luz e calor e Se torna próximo de todos os que são humildes de coração, sustentando-os com a Sua graça.
Oração
Pai Santo,
que ressuscitastes o vosso Filho
e nEle quisestes finalmente vencer a morte,
ajudai-nos a viver no tempo
a Sua mesma vida no Espírito,
e a ver todas as coisas
na luz radiosa da Sua ressurreição.
208 I I i CCIONÂKIO COMENTADO
QUARTA-FEIRA
PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares) lTs 2,9-13
Foi a trabalhar noite e dia que vos pregámos o Evangelho de Deus.
Ler a Palavra
Continua a autodefesa do Apóstolo Paulo na Carta endereça da aos cristãos de Tessalónica. Depois de ter explicado o que não fez (cf. lTs 2,1-8), o Apóstolo coloca em evidência o bem realiza do com o seu comportamento, coerente com a Palavra pregada. O Evangelho anunciado foi tornado credível também graças aos seus embaixadores. Mas a comunidade, acolhendo a pregação de Paulo, acolheu antes de mais Deus e a sua Palavra, e depois os Seus ministros.
Compreender a Palavra
A relação entre Palavra de Deus e mensageiro, que Paulo trata nesta passagem, insere-se na grande tradição dos profetas que, através do anúncio e da denúncia, ontem como hoje, geram espa¬ço nos corações, para o acolhimento ou para a rejeição do Senhor. A vida irrepreensível dos ministros do Senhor e a coerência entre o que anunciam e como se comportam é o argumento mais sim¬ples, mas também mais forte, para sustentar a verdade do Evan¬gelho, diante das acusações de interesses pessoais ou de rectidão duvidosa. De facto, o Evangelho não é só um conjunto de ideias, mas é também um método e um estilo de vida, tornado visível antes de mais por quem o anuncia.
A imagem do «pai que exorta os seus filhos» (cf. v. 11) a pro¬curar o que é verdadeiro e justo, é porventura a mais correcta, hu¬manamente falando, para exprimir os cuidados do Apóstolo para com os fiéis, chamados a assumir, por sua vez, comportamentos irrepreensíveis para que a sua fé não seja vã. Existe uma relação estreita entre aquilo que se diz crer e aquilo que se faz, tendo em conta aquilo em que se crê. O que é indispensável é a atitude de confiança na iniciativa de Deus, tornada possível pela pregação.
SALMO RESPONSORIAL SL 138,7-12
A meditação do salmo permite comentar o versículo 10 da primeira leitura. Quem, como o Apóstolo Paulo, trabalha na cla¬reza das intenções nada tem a temer, porque pode dizer que vive iluminado pela presença do Senhor, que ilumina todas as trevas e aquece os corações.
PRIMEIRA LEITURA (anos pares) 2Ts 3,6 10.16-18
Quem não quer trabalhar, também não deve comer.
Ler a Palavra
A conclusão da Carta expõe as últimas recomendações acerca do estilo de vida que os fiéis devem levar no meio do mundo: esforçarem-se com o próprio trabalho, procurarem não ser de peso para ninguém, imitarem os Apóstolos no serviço infatigável pelo Evangelho de Deus. A aceitação do Evangelho não admite passividade de espécie alguma, antes impele o discípulo, que se torna apóstolo, a considerar-se sempre devedor perante o dom recebido e nao destinatário de presumíveis direitos ou privilégios.
Compreender a Palavra
Paulo, escrevendo aos Tessalonicenses para lhes fortalecer a fé, preocupa-se também em adverti-los sobre o modo como con servar o dom recebido, sabendo bem que o entusiasmo inicial da resposta ao Evangelho não é suficiente para perseverar na fé e no agir conforme a caridade. O convívio com pessoas sem princípios firmes, pode influenciar negativamente quem vive uma regra de vida que o leva a desempenhar os deveres das responsabilidades assumidas (cf. v. 6). Por isso, Paulo, bom conhecedor do espírito humano, convida os fiéis a permanecerem concentrados nos seus trabalhos, não se deixando distrair por um estilo de vida aparen-temente melhor, mas na realidade estéril e parasitário em relação aos outros.
Quem assume a lógica do serviço, vivida em primeiro lugar por Jesus e depois prosseguida pelo exemplo dos Apóstolos, não mede as vantagens pessoais que pode tirar das circunstâncias, mas permanece num estado contínuo de disponibilidade aos ir¬mãos, fazendo, antes de mais, bem o seu trabalho e cumprindo o melhor que pode com as suas responsabilidades.
SALMO RESPONSORIAL SL 127,1-2.4-5
O salmo descreve o temor do Senhor enquanto fundamento do trabalho que todo o crente é chamado a cumprir. À imitação do próprio Criador, o temente a Deus gozará do trabalho que lhe foi concedido realizar, considerando uma bênção poder gozar do fruto das suas fadigas.
EVANGELHO MT 23,27-32
Sois os filhos daqueles que mataram os profetas.
Ler a Palavra
A sucessão dos «ai de vós!», proferidos por Jesus em MT 23, atinge o ápice no texto de hoje: o Mestre não se limita àquilo que os fariseus dizem ou fazem, mas descreve os como hipócritas, gente falsa que faz ver as coisas ao contrário daquilo que são. Apresentam-se como monumentos para admirar, mas isso é ape¬nas uma aparência que não tem substância alguma no seu inte¬rior (w. 27-28). Aos profetas que dizem a verdade e os desmasca ram, eles infligem-lhes não só a morte como ainda o silêncio, que torna impossível qualquer réplica (w. 29-32).
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anos impares), mas declara que procurou sempre no seu cora¬ção «agradar a Deus» (lTs 2,4), ou seja, viver a justiça na rela¬ção com Ele e cultivar sem parar a misericórdia para com os irmãos. É a procura da própria autenticidade diante de Deus que torna a pessoa luminosa e capaz de levar calor a todas as coisas. A primeira caridade a cultivar é a da verdade para connosco, não tanto para nos comprazermos de nós mesmos, mas para sermos justos diante de Deus fiel e para O agradar a Ele, que é luz e calor e Se torna próximo de todos os que são humildes de coração, sustentando-os com a Sua graça.
Oração
Pai Santo,
que ressuscitastes o vosso Filho
e nEle quisestes finalmente vencer a morte,
ajudai-nos a viver no tempo
a Sua mesma vida no Espírito,
e a ver todas as coisas
na luz radiosa da Sua ressurreição.
QUARTA-FEIRA
PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares) lTs 2,9-13
Foi a trabalhar noite e dia que vos pregámos o Evangelho de Deus.
Ler a Palavra
Continua a autodefesa do Apóstolo Paulo na Carta endereça¬da aos cristãos de Tessalónica. Depois de ter explicado o que não fez (cf. lTs 2,1-8), o Apóstolo coloca em evidência o bem realiza¬do com o seu comportamento, coerente com a Palavra pregada. O Evangelho anunciado foi tornado credível também graças aos seus embaixadores. Mas a comunidade, acolhendo a pregação de Paulo, acolheu antes de mais Deus e a sua Palavra, e depois os Seus ministros.
Compreender a Palavra
A relação entre Palavra de Deus e mensageiro, que Paulo trata nesta passagem, insere-se na grande tradição dos profetas que, através do anúncio e da denúncia, ontem como hoje, geram espa¬ço nos corações, para o acolhimento ou para a rejeição do Senhor. A vida irrepreensível dos ministros do Senhor e a coerência entre o que anunciam e como se comportam é o argumento mais sim¬ples, mas também mais forte, para sustentar a verdade do Evan¬gelho, diante das acusações de interesses pessoais ou de rectidão duvidosa. De facto, o Evangelho não é só um conjunto de ideias, mas é também um método e um estilo de vida, tornado visível antes de mais por quem o anuncia.
A imagem do «pai que exorta os seus filhos» (cf. v. 11) a pro¬curar o que é verdadeiro e justo, é porventura a mais correcta, hu¬manamente falando, para exprimir os cuidados do Apóstolo para com os fiéis, chamados a assumir, por sua vez, comportamentos irrepreensíveis para que a sua fe não seja vã. Existe uma relação estreita entre aquilo que se diz crer e aquilo que se faz, tendo em conta aquilo em que se crê. O que é indispensável é a atitude de confiança na iniciativa de Deus, tornada possível pela pregação.
SALMORESPONSORIAL SL138,7-12
A meditação do salmo permite comentar o versículo 10 da primeira leitura. Quem, como o Apóstolo Paulo, trabalha na cla¬reza das intenções nada tem a temer, porque pode dizer que vive iluminado pela presença do Senhor, que ilumina todas as trevas e aquece os corações.
PRIMEIRA LEITURA (anos pares) 2Ts 3,6-10.16-18
Quem não quer trabalhar, também não deve comer.
Ler a Palavra
A conclusão da Carta expõe as últimas recomendações acerca do estilo de vida que os fiéis devem levar no meio do mundo: esforçarem se com o próprio trabalho, procurarem não ser de peso para ninguém, imitarem os Apóstolos no serviço infatigável pelo Evangelho de Deus. A aceitação do Evangelho não admite passividade de espécie alguma, antes impele o discípulo, que se torna apóstolo, a considerar-se sempre devedor perante o dom recebido e não destinatário de presumíveis direitos ou privilégios.
Compreender a Palavra
Paulo, escrevendo aos Tessalonicenses para lhes fortalecer a fé, preocupa-se também em adverti-los sobre o modo como con¬servar o doin recebido, sabendo bem que o entusiasmo inicial da resposta ao Evangelho não é suficiente para perseverar na fé e no agir conforme a caridade. O convívio com pessoas sem princípios firmes, pode influenciar negativamente quem vive uma regra de vida que o leva a desempenhar os deveres das responsabilidades assumidas (cf. v. 6). Por isso, Paulo, bom conhecedor do espírito humano, convida os fiéis a permanecerem concentrados nos seus
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trabalhos, não se deixando distrair por um estilo de vida aparen¬temente melhor, mas na realidade estéril e parasitário em relação aos outros.
Quem assume a lógica do serviço, vivida em primeiro lugar por Jesus e depois prosseguida pelo exemplo dos Apóstolos, não mede as vantagens pessoais que pode tirar das circunstâncias, mas permanece num estado contínuo de disponibilidade aos ir¬mãos, fazendo, antes de mais, bem o seu trabalho e cumprindo o melhor que pode com as suas responsabilidades
SALMO RESPONSORIAL SL 127,1-2.4-5
O salmo descreve o temor do Senhor enquanto fundamento do trabalho que todo o crente é chamado a cumprir. À imitação do próprio Criador, o temente a Deus gozará do trabalho que lhe foi concedido realizar, considerando uma bênção poder gozar do fruto das suas fadigas.
EVANGELHO MT 23,27-32
Sois os filhos daqueles que mataram os profetas
Ler a Palavra
A sucessão dos «ai de vós!», proferidos por Jesus em MT 23, atinge o ápice no texto de hoje: o Mestre não se limita àquilo que os fariseus dizem ou fazem, mas descreve os como hipócritas, gente falsa que faz ver as coisas ao contrário daquilo que são. Apresentam-se como monumentos para admirar, mas isso é ape¬nas uma aparência que não tem substância alguma no seu inte¬rior (w 27-28). Aos profetas que dizem a verdade e os desmasca¬ram, eles infligem-lhes não só a morte como ainda o silêncio, que torna impossível qualquer réplica (w. 29-32).
Compreender a Palavra
Os dois últimos «ai de vós!», que Jesus lança contra os escribas e os fariseus, são ligados entre si pela palavra «sepulcro».
No primeiro caso (w. 27-28), o sepulcro é utilizado como me¬táfora para definir a hipocrisia dos escribas e dos fariseus, que declaram uma coisa, mas vivem outra. Uma coisa é o que alguém mostra de si, e outra é o que tem dentro, realidade que pode ser vista só por quem, como Jesus, cultiva um olhar puro e verda¬deiro. O Mestre acusa os Seus interlocutores de quererem fazer crer que são bons, mas na realidade de não serem guiados por um espírito bondoso e compassivo para com a Humanidade. Pelo contrário, quanto mais aumenta o desprezo pelos outros, tanto mais se mostram gentis.
No segundo caso (w. 29-32) o sepulcro é associado à obra por excelência que os escribas e os fariseus são capazes de construir. São hábeis em levantar grandes monumentos para as pessoas que encontram incómodas, por exemplo, para os profetas que sempre denunciaram as falsidades e iniquidades como atitudes que afas¬tam de Deus.
DA PALAVRA PARA A VIDA
O tema do sepulcro é muito significativo para a vida cristã, embora frequentemente seja deixado fora da reflexão. Jesus no Evangelho (MT 23,27-32) indica o como símbolo dos Seus adversários, monumentos de conhecimento e de sabedoria humana que se devem contemplar, mas interiormente frágeis e fracos, pois estão cheios de morte. No mesmo texto, cons¬truir monumentos aos mortos é obra típica de quem quer como que reparar o mal cometido ou, pior ainda, silenciar com falsas honras quantos são eliminados como elementos de perturbação. Já esta consideração do Senhor Jesus mere¬ce uma atenção e uma reflexão atenta, porque indica nesses sepulcros a essência do agir malfazejo do homem: por mais belas que sejam as obras humanas realizadas sem Deus, no
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fim de contas estão cheias de morte e, em última análise, va-zias. Depois, a tentativa de cobrir as obras más com pedras preciosas exprime a perversidade das próprias acções, que continuam a não ser reconhecidas como erradas.
O lugar do sepulcro vazio é, todavia, também o lugar onde Jesus foi colocado, em coerência com a longa tradição dos profetas assassinados por terem dito a verdade sobre Deus e sobre o homem. O sepulcro de Jesus, porém, dura bem pou¬co, logo fica vazio e se torna sinal de uma vida nova, de uma ressurreição iniciada que deixa espaço à iniciativa poderosa de Deus. O Senhor Jesus, depois de ter nascido numa man¬jedoura morreu numa Cruz, e foi acabar onde sepultamos os restos do nosso corpo e as obras más da nossa existência. Mas desse lugar Deus quis declarar, ressuscitando-O dos mortos, que não há espaço onde a vida não possa entrar e levar luz e calor. Isso significa que toda a situação humana é recuperável aos olhos de Deus.
O exemplo que vem do Apóstolo (primeira leitura, anos pares – anos impares) exorta o cristão a trabalhar com as próprias mãos (cf. lTs 2,9; 2Ts 3,10), a fim de que as suas fadigas se tornem portadoras de vida para todos, sem procurar vanta¬gens em prejuízo dos outros.
Compreender a importância de ser portador de vida, mesmo aonde tudo parece ser mortífero, alimenta a esperança cristã de poder continuar a tornar eficaz aquela ressurreição que es¬cancara todos os sepulcros de hipocrisia e de iniquidade.
Oração
Ó Deus,
que na ressurreição do vosso Filho
abristes à Humanidade a passagem da morte para a vida, concedei-nos experimentar no nosso dia-a-dia o poder da Sua ressurreição.
QUINTA-FEIRA
PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares) lTs 3,7-13
O Senhor vos faça crescer e abundar na caridade uns para com os outros e para com todos.
Ler a Palavra
«Angústias» e «tribulações» (cf. v. 7) revelam o espírito de Paulo, preocupado com a fé dos fiéis, que deve sempre fortalecer- -se no Senhor, pois ainda não está completa. O Apóstolo exprime o desejo de visitar de novo a comunidade de Tessalónica para que esta não desanime, mas ao mesmo tempo exorta-a a não esquecer a herança do amor fraterno de Cristo, como memória viva da Sua presença. O exercício do amor impedi-los-á de vacilar e de perder a fé na vinda do Senhor.
Compreender a Palavra
As provações de um Apóstolo são muitas, mas não impedem as consolações e a alegria de continuar a ver Deus em acção atra¬vés do crescimento contínuo dos seus filhos. A consolação é com-parada por Paulo quase à ressurreição – «sentimo-nos reviver» (v. 8) – e a alegria sentida, leva o Apóstolo a desejar visitar em breve os Tessalonicenses, para completar o que falta à sua fé. Mantermo nos firmes no Senhor (cf. v. 13) não significa agarrar¬mo-nos desesperadamente a uma âncora em lugar de outra, mas continuar a cultivar aquela sementinha de fé que foi semeada nos nossos corações com a oração e com o amor mútuo.
A finalidade desta luta contínua é a espera do Senhor com to¬dos os Seus santos, no final dos tempos, antecipada pelo desejo do Apóstolo de voltar a ver o rosto dos seus irmãos, embora estando impedido (w. 10-11). A vida cristã é caracterizada pela fidelidade de Deus à Sua promessa: agora muito temos para saborear, mas a plenitude do gozo é um dom do Pai e deve ainda acontecer. 
SALMO RESPONSORLAL
SL 89,3-4.12-13.14.17
A sabedoria de Israel ensina a ter em conta os limites huma¬nos, representados por aquele pó mencionado em GN 2 o qual, com o passar do tempo, demonstra a caducidade de tudo o que não está enraizado no Deus eterno. Só a graça do Senhor concede o dom da vida e, portanto, só ela deve ser pedida e aguardada com insistência.
PRIMEIRA LEITURA (anos pares) ICOR 1J-9
Por Ele fostes enriquecidos em tudo.
Ler a Palavra
O começo da Primeira Carta aos Coríntios segue o esquema típico da forma epistolar com a apresentação dos remetentes e dos destinatários, a saudação e depois a acção de graças a Deus, pelos dons que concedeu à comunidade dos fiéis. A solenidade da introdução familiariza o ouvinte com a riqueza dos temas e dos assuntos que serão tratados em seguida. No versículo 5, Paulo declara a riqueza espiritual dos Coríntios, aos quais não falta ne nhum dos dons da fé, mas ao mesmo tempo exorta-os a perma necerem firmes em Deus, que ele define como «fiel» (v. 9).
Compreender a Palavra
Na saudação inicial à comunidade de Corinto, o Apóstolo chama a atenção para o contexto de uma Igreja maior, composta por todos aqueles que invocam o Nome do Senhor, porque são chamados a ser santos (v. 2). O relevo sobre a universalidade da fé constitui uma das argumentações mais fortes de Paulo perante as divisões internas na comunidade, devido aos diversos personalis- mos que provocavam rivalidades e divisões.
Depois, quase com ironia, no versículo 5, o Apóstolo louva os Coríntios, porque não lhes falta nenhum dom, sendo já peri¬tos na «palavra» e no «conhecimento». Mas há um crescimento
a fazer na linha da «irrepreensibilidade» (v. 8) da «comunhão» (v. 9), dons que vêm directamente de Deus e que Ele está sempre disposto a conceder a quem permanece fiel na procura sincera da santidade.
O adjectivo «fiel», atribuído a Deus, é a nota dominante da teologia desta Carta, já que no centro da fidelidade estão a ca¬ridade e a misericórdia utilizadas pelo Senhor para connosco (cf. ICOR 13).
SALMO RESPONSORLAL Sl 144,2-7
Narrar as obras maravilhosas de Deus é o dever de cada ge¬ração, chamada a recordar o passado, mas também a manter os olhos abertos sobre a obra que Deus vai realizando com bondade e justiça, para que Ele continue a ser proclamado grande e digno de louvor para sempre.
EVANGELHO MT 24,42-51
Estai preparados.
Ler a Palavra
A leitura semicontínua do Evangelho de Mateus omite a sec¬ção dedicada a Jerusalém e ao fim dos tempos (cf. MT 23,37-41) e transporta-nos para a última parte do capitulo 24.
O texto de hoje é dedicado ao tema da vigilância na expec¬tativa do regresso do Senhor, comparada à vinda de um ladrão ou do senhor da casa. As duas imagens descrevem a surpresa e a liberdade quer do ladrão, quer do senhor da casa de chegarem quando julgarem mais oportuno. Jesus sublinha também a atitu¬de daquele que espera, deixando-se encontrar preparado e não se deixando perder no ócio e na violência.
Compreender a Palavra
O tema da vigilância caracteriza os últimos discursos públicos de Jesus e antecipa a reflexão sobre o Juízo universal, no qual o
216 I I CCIONÁRIOCOMl N1ADO
Senhor pedirá contas a cada um pelas obras realizadas, não só pelas palavras pronunciadas.
As duas imagens que pretendem fazer-nos entrar na atitude da expectativa dizem ambas respeito à casa: arrombada por um lado, na primeira; e mal administrada pelo servo, que recebeu a confiança do senhor, na segunda. A vigilância cabe portanto a quem, embora não sabendo bem o que vai acontecer fora de casa, é chamado a ser guarda atento do ambiente onde vive.
Se a casa não é vigiada, alguém se preocupara em roubá-la ou em arrombá-la; se não for bem administrada, torna-se um antro de vícios e já não um lugar onde todos podem viver no respeito mútuo. Quando o fiel perde este mesmo sentido de cuidado pela sua própria vida, lugar que deve ser habitado pela paz, terá muito que chorar pelas suas imperdoáveis distracções.
DA PALAVRA PARA A VIDA
Em todas as celebrações eucarísticas, como conclusão da narração da instituição, proclamamos o «mistério da fé» es-perando a vinda do Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado. Embora confessando-O realmente presente na Eucaristia, esperamo-fO com energia, para que Ele venha reunir-nos com todos os Seus santos.
Estarmos vigilantes e acordados não é uma atitude opcional para o cristão, o qual, ao invés, é chamado a rezar, a traba¬lhar, a fazer o bem, mantendo viva a tensão para o Senhor que vem. Se todavia esperar alguém na nossa experiência, em geral provoca sempre agitação e frustração, a vigilância cristã é estável e frutuosa. O cristão sabe que a sua identidade de filho amado não depende só de si próprio, mas está em rela¬ção directa com a actuação de Deus que age sempre em nosso favor.
Procurar e viver a fidelidade aos compromissos recebidos no Baptismo ou na escolha de vida empreendida ao serviço do Evangelho, é o modo mais autêntico de confessar com a vida tudo o que dizemos com palavras, em cada Missa. A fi-
WIMMANAIK) II MFOlOMUM ‘ 217
delidade, depois, não é uma simples execução de tarefas para demonstrar a nós próprios que somos capazes de fazer uma coisa, mas é o cuidado contínuo do sentimento de assombro para com o Senhor presente e actuante na nossa vida. Fide¬lidade não é imutabilidade, nem preocupação obsessiva de colocar tudo no seu lugar, mas pesquisa contínua e dinâmica de permanecer diante de Deus (cf. lTs 3,13, primeira leitura, anos pares), para que Ele, que é fiel, possa tornar-nos estáveis e sólidos no Seu amor manifestado em Jesus (cf. ICor 1,6, primeira leitura, anos ímpares).
Então, vigiar, como nos sugere o Evangelho (cf. Mt 24,42), poderia ser traduzido por esforço interior de nos mantermos sempre na presença de Deus, a fim de que os nossos pensa¬mentos, afectos, intenções e obras possam ser purificados por Aquele que é o Santo por excelência, e que é capaz de tornar os Seus filhos fiéis ao bem recebido, em condições de traba-lhar e de amar na espera d’Aquele que é o único que merece ser esperado.
Oração
O Vosso auxílio, ó Pai,
nos torne perseverantes no bem,
esperando a Cristo vosso Filho:
quando Ele vier e bater à porta,
que nos encontre vigilantes na oração,
praticando a caridade fraterna e exultantes na fé. 
SEXTA-FEIRA PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares)
lTs 4,1-8
A vontade de Deus é que vos santifiqueis.
Ler a Palavra
Entre as directrizes de ordem prática que Paulo dá à comu¬nidade de Tessalónica, algumas há que dizem respeito ao corpo, provavelmente em antítese fortíssima com os cultos pagãos idó¬latras, que viam o corpo como algo que se devia usar e não como uma realidade relacional. A súplica amargurada é dirigida aos cristãos, para que vivam a sua corporeidade como lugar de aco¬lhimento da iniciativa de Deus através do Espírito Santo, para a santificação de todo o homem. Isto é do agrado de Deus.
Compreender a Palavra
O critério de «agradar a Deus» (v. 1) é uma característica da vida de fé, tal como a descreve a Primeira Carta aos Tessaloni- censes. Se a experiência humana em geral é complacência para com alguém em determinado aspecto, a vida cristã coloca como objectivo agradar a Deus em tudo, sem excluir nenhuma fibra do nosso ser, para vivermos aquela santificação que é ainda uma dádiva do Senhor.
A orientação integral da pessoa para a acção do Espírito Santo abrange o corpo, realidade mais que possuída pelo homem e que caracteriza a identidade da pessoa, a qual, através do corpo, vive e se relaciona com o mundo, com os outros e com Deus. Quando o corpo é visto como um objecto ou quando o próximo é apreciado por partes, mais do que amado na sua integridade pessoal, então surgem as paixões desordenadas que tentam possuir aquilo que é feito para ser dom gratuito na comunhão recíproca. É impu¬ro tudo aquilo que é subtraído à acção santificadora do Espírito Santo.
SALMO RESPONSORIAL
SL 96,1-2.5-6.10-12
A santidade é um dom que Deus Se compraz em doar a quem concedeu espaço no seu espírito e no seu corpo à acção do Es¬pírito, o qual permite reconhecer a grandeza e a alteridade do Senhor. A própria Criação, convocada para louvar o seu Criador, reconhece a santidade de Deus que resplandece no coração dos justos.
PRIMEIRA LEITURA (anos pares) ICOR 1,17-25
Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, mas sabedoria de Deus para aqueles que são chamados.
Ler a Palavra
Paulo une estreitamente o conteúdo do seu anúncio ao estilo do evangelizador, que tem como tarefa principal fazer conhecer a Cruz de Cristo, conteúdo imprescindível de toda a missão apos-tólica. A Cruz determina o estilo modesto e humilde do anúncio, que não é feito procurando sabedorias humanas ou efeitos espe¬ciais particulares. A citação profética de Is 29,14 fundamenta o discurso do Apóstolo, que defende a sua actividade realizada em conformidade com o estilo humilde do Evangelho.
Compreender a Palavra
Este texto é uma síntese admirável do pensamento do Apósto¬lo Paulo, que quando hebreu foi escolhido por Deus para se tor¬nar evangelizador dos gentios. Embora tenha sido antes um de-fensor acérrimo do Judaísmo e, posteriormente, do Cristianismo aberto a todos (depois do encontro do caminho de Damasco), mantém se humilde perante o plano de Deus que se manifestou na Cruz de Cristo, incapaz quase de o poder classificar entre as muitas ideias do tempo.
A citação de Is 29,14 confirma o modo de agir de Deus, que não procede segundo competências adquiridas pela sabedoria dos homens, mas quer surpreender a inteligência humana com aquilo
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que parece estulto. A pobreza do instrumento da pregação e o escândalo do seu conteúdo – Cristo Crucificado – não concede espaço a sofismas elaborados ou a tentativas de sistemas lógicos vigentes. Também a inteligência humana, com as suas não pou cas conquistas, deve permanecer humilde e aberta perante aquilo que Deus faz, pois é Ele que dá significado a todas as coisas e lhes indica a lógica correcta.
SALMO RESPONSORIAL SL 32,1-2.4-5.10 11
À maneira de comentário à primeira leitura, o Salmo 32 subli nha a rectidão da Palavra de Deus que não cai no vazio porque e expressão da justiça e do amor do Senhor. Os Seus projectos, porém, permanecem desconhecidos, sobretudo para aqueles que arquitectam a sua vida ou a do próximo com estilos e entendi¬mentos diversos.
EVANGELHO MT 25,1-13
Aí vem o Esposo: ide ao seu encontro.
Ler a Palavra
A primeira das três parábolas, que em MT 25 descrevem a es¬pera cristã do regresso do Senhor, é caracterizada pelo ambiente de núpcias de dez virgens que esperam o esposo. Mas a espera deve ser vigilante e prudente. Assim as comunidades cristãs não devem permitir-se distracções ou superficialidades, mas são cha madas a alimentar a fé com o azeite da esperança e da paciência, que jamais podem abrandar em quem espera a sabedoria verda deira e fecunda.
Compreender a Palavra
O tema geral da vigilância é explicado mediante a antítese insensatez/prudência, personificada nestas virgens que espe¬ram todas o esposo, mas nem todas estão preparadas do mesmo modo. Prudência, portanto, é saber esperar, saber ter paciência
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sem apressar o momento do encontro, fazendo tudo para que, quando chegar, nos encontre preparados. O código dessa paciên¬cia é o azeite, que permitirá manter acesa a chama da lâmpada. A insensatez, pelo contrário, é aquela espécie de superficialidade de vida que não sabe avaliar com suficiente ponderação a realida¬de das coisas e pressupõe poder resolver tudo de qualquer manei¬ra. O convite da parábola é o de trabalharmos sempre e de qual-quer maneira, sem pensar que tudo está adquirido, mesmo aquela fé que o homem bem preparado pode sempre receber como dom daquele Deus que jamais se cansa de usar misericórdia.
DA PALAVRA PARA A VIDA
Das leituras propostas para este dia podemos escolher alguns temas para reflexão pessoal.
Em primeiro lugar, do Evangelho deduz-se que a espera do esposo requer condições de preparação em graus diversos e, tudo o que se julga possuir, não deve ser julgado adquirido. Poder-se-ia dizer que saber que se é convidado para as bodas com o esposo não é condição suficiente para poder casar, tal como assumir comportamentos corteses e correctos não é ga¬rantia de credibilidade do próprio amor ao esposo. Tanto o conhecer como o comportamento moral não ajudam por si só a compreender a natureza esponsal e afectiva da vida cris¬tã. O esposo pede para ser amado com todas as forças, com todo o coração, com toda a alma e, precisamente por isso, as lâmpadas da fé devem ser mantidas acesas, porquanto elas são a disposição interior que nos permite permanecer sempre abertos ao mistério, mesmo quando o conhecimento e a ética parecem já funcionar bem. Existe um nível mais profundo, afectivo e contemplativo para cultivar e guardar, para que o espírito humano se mantenha sempre disponível à interven¬ção de Deus.
Um segundo tema, extraído da primeira leitura, anos ímpares, está unido ao Evangelho através da realidade do corpo, que é chamado a participar da santidade divina. Se a santidade consiste em sermos permeáveis à acção do Espírito, que nos
torna familiares à vida de Deus, eis que o corpo, que é a nossa capacidade de relação com os outros, é o objecto privilegiado dessa acção e não deve subtrair-se como se a fé fosse só um problema de ideias ou de bons sentimentos. A sabedoria de Deus então (primeira leitura, anos pares) diz respeito àquilo que aos nossos olhos é débil e frágil. Mas Deus escolhe as coi¬sas pequenas e débeis para poder valorizá-las, revesti-las da Sua misericórdia, e transformá-las com a força do Seu amor.
A força da Cruz continua a manifestar-se nos sinais débeis e frágeis dos santos sacramentos, sobretudo no da Eucaris¬tia, revelando mais uma vez que tudo o que foi criado é ama¬do por Deus e é por Ele assumido para lhe manifestar a Sua glória.
Oração
Senhor Deus,
a Vossa sabedoria vai em busca
de todos os que escutam a Vossa voz;
tornai-nos dignos de participar no Vosso banquete
e fazei que acrescentemos o azeite das nossas lâmpadas,
para que não se apaguem na espera,
mas quando Vós vierdes
estejamos prontos a ir ao Vosso encontro
para entrarmos Convosco na festa nupcial.
SÁBADO
PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares) lTs 4,9-11
Vós mesmos aprendestes de Deus a amar Vos uns aos outros.
Ler a Palavra
A série de exortações que Paulo dirige aos fiéis tem como núcleo teológico o mandamento do amor fraterno, que não cor¬responde a uma doutrina, mas a um exercício quotidiano que se deve viver, sempre e em toda a parte. O convite não é tanto para se fazer o bem, mas para se viver o melhor que se puder o exem¬plo do Senhor, que torna os discípulos dignos de estima diante d’Ele.
O Apóstolo sublinha, antes de mais, o clima de auxílio que deve existir entre os crentes, para que adquiram credibilidade pe¬rante os de fora.
Compreender a Palavra
O amor fraterno é seguramente o código paradigmático da vida cristã, herança do próprio Cristo na Última Ceia. Mas o Apóstolo Paulo descreve-lhes duas características essenciais: aprende-se de Deus a amar os irmãos; e, o amor não tem fim.
O amor fraterno é representação visível e concreta do amor que o Pai celeste demonstrou ter para com a Humanidade, enviando- nos o seu Filho, como nosso irmão e Redentor. Por isso, o amor de Deus, tal como o fraterno, é gratuito, oblativo, total, íntegro, puro, sem arrependimentos.
A segunda característica exprime a dinâmica da vida cristã que, embora peça fortaleza e estabilidade interior, nem por isso é menos viva. Pelo contrário, mesmo em virtude de um movimen¬to de crescimento, fruto de exercício contínuo, o amor progride segundo o ensinamento recebido. O amor, porém, é sempre con-
ereto, está no sinal da Cruz, por isso somos exortados a trabalhar com as próprias mãos, considerando como primeiro modo de amar o de não sermos de peso para ninguém (cf. w. 11-12).
SALMO RESPONSORLAL SL 97,1.7-9
Os prodígios cantados pelo salmista aludem provavelmente aos acontecimentos do Êxodo, onde Deus manifestou o Seu po¬der. Eles são hoje renovados mediante o exercício do amor fra¬terno, que é a salvação com a qual Cristo renova todas as coisas e permite ao crente entoar um cântico novo.
PRIMEIRA LEITURA (anos pares) ICOR 1,26-31
Deus escolheu o que é fraco aos olhos do mundo.
Ler a Palavra
Depois de ter sublinhado, na introdução da Carta, a riqueza espiritual dos Coríntios, Paulo declara agora a gratuidade abso¬luta dos dons de Deus, desqualificando qualquer pretensão de mérito da parte dos fiéis. Sublinha três vezes e com insistência (w. 27,28) a actuação livre de Deus em escolher aquilo que a Ele mais apraz e que pode parecer menos lógico aos olhos humanos.
A citação de JR 9,22 fecha qualquer possibilidade de mérito humano, fora da livre iniciativa de Deus.
Compreender a Palavra
Diante das pretensões de privilégio cultural ou social mos¬tradas por alguns Coríntios, Paulo funda a sua argumentação no plano de Deus, atribuindo a Ele a soberana liberdade de escolher quem acha mais oportuno. O horizonte de referência é vocacio¬nal: ser crente não é conquista pessoal ou prémio de uma ascese particular, antes é um dom de Deus, livre e gratuito. Ele chama em primeiro lugar as pessoas livres e gratuitas, precisamente aquelas que não têm a presunção de competências ou direitos, e são definidas como «fracas, vis e desprezíveis, que nada valem» (cf. w. 27-28).
Portanto, se existe algum mérito ou dom particular é por ini¬ciativa do próprio Deus, que tornou o seu Filho Jesus Cristo, por um lado, sede da «sabedoria» e da «justiça» (que são atributos de Deus), e por outro, «santidade» e «redenção» (que são os efeitos da Sua obra sobre a Humanidade). Como para os hebreus de en¬tão, o motivo do mérito para o cristão só pode estar no Senhor, que olhou para a humildade dos Seus filhos.
SALMO RESPONSORIAL SL 32,12-13.18-21
O salmo especifica a finalidade para a qual Deus escolhe agir, com um estilo livre e pouco calculado: para encher de bens os Seus fiéis, isto é, quem espera na Sua graça e não confia nas pró¬prias forças, quem espera o Seu auxílio e sabe que, seja qual for o modo como Deus age, é sempre fonte de alegria e de felicidade.
EVANGELHO MT 25,14-30
Foste fiel em coisas pequenas:
vem tomar parte na alegria do teu Senhor.
Ler a Palavra
O sentido da narração evangélica de hoje é a nível paradig¬mático e está claramente enunciado pela frase do versículo 29, na qual se declara a intenção da parábola: no Reino de Deus não existe a justiça distributiva, mas cada um é chamado a retribuir, segundo as suas capacidades, tudo o que recebeu como dádiva. A confiança do Senhor não pode ser atraiçoada pelo medo de uma imagem Sua que não corresponde à realidade. Quem dá quer que a sua dádiva seja dádiva para todos e não seja escondida pelo engano acerca de Deus.
Compreender a Palavra
Parece que para falar do Reino de Deus, a parábola louva mais a ousadia teimosa do que a preguiça inerme. Antes de mais, note- se que o Reino de Deus não é somente obra de Deus, mas é tam-bém tarefa do homem, que recebeu parte dessa administração e da qual é responsável. O Reino não cresce sozinho: é necessário que cada um continue a ter prosperidade em sua casa. Qualquer atitude remissiva, de renúncia ou medrosa não é aceitável, an¬tes obtém como resultado ver-se privado daquilo que recebeu (cf. v. 28). O coração da colaboração do homem no projecto de Deus é a confiança riEle, que teve a coragem de confiar os Seus bens aos servos, mas também a confiança na própria capacidade de serem servos, antes de serem chamados «servos bons e fiéis» (cf. w. 21,23), não porque se incomode alguém, mas porque não se da hipóteses aos seus medos e fantasias por detrás de imagens distorcidas de Deus.
DA PALAVRA PARA A VIDA
A parábola evangélica dos talentos, inserida no último gran¬de discurso sobre os «últimos acontecimentos» do Evangelho de Mateus, assume uma importância particular ao procurar compreender a fundo e a acolher com disponibilidade o ensi¬namento de Jesus. A narração não diz só que cada um possui os seus talentos na medida das suas capacidades, nem afir¬ma somente que Deus pedirá contas quer dos talentos quer dos frutos dos talentos. Somos, pelo contrário, levados pelo Evangelho a interrogarmo-nos sobre qual é a atitude interior mais autêntica para viver os dons de Deus. Perante o dom da vida ou o dom da fé, que nos foram dados gratuitamente, são diversas as disposições interiores possíveis: a indiferença, de quem finge que não tem um dom, mas um peso a suportar; a superficialidade, que desperdiça até as coisas mais preciosas, pensando que há outras mais importantes; a reflexão estéril daquele que pensa sempre em coisas mais profundas, sem sa¬borear nunca as que lhe são concedidas. A atitude mais autên-
tica, porém, é a de Jesus de Nazaré, que recebe o dom da vida com sentido de gratidão e sabe colocá lo à disposição com igual gratuidade.
As dimensões receptivo-passiva e depois propositivo-activa da vida nascem da relação filial e fiducial que Jesus vive com o seu Pai. Não há imagens divinas ofuscadas na Sua mente, não há temor de ser desfrutado ou usado por Deus, mas a certeza no afecto de ser amado sempre e de qualquer modo. Esta pu¬reza da fé do Filho, que nasce do amor, é por sua vez o funda¬mento do amor fraterno (primeira leitura, anos ímpares), que é precisamente a tradução visível e concreta de tudo o que se vive na relação com o Pai. O amor fraterno torna se por isso, na vida da comunhão cristã, um talento que se deve guardar e exercer, pois foi confiado nas nossas mãos. O amor de uns para com os outros, gratuito e desinteressado, é a visibilidade da nossa fé, porque depende estreitamente não so daquilo que dizemos acreditar, mas daquilo em que sentimos acreditar verdadeiramente. Por isso, tudo o que ameaça o afecto frater¬no e o clima de comunhão dentro de uma comunidade cristã deve ser enfrentado com grande coragem, interrogando-nos sempre e sem parar acerca do que é o verdadeiro rosto de Deus, no qual dizemos acreditar.
O medo de Deus e a desconfiança em nós mesmos não dão bons frutos, levarão à esterilidade da vida. A confiança e o amor, ao invés, permitirão, dia após dia, reviver em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus, que nos amou e Se en¬tregou por nós.
Oração
Ó Pai, que entregais nas mãos do homem todos os bens da Criação e da graça, fazei que a nossa boa vontade multiplique os frutos da vossa Providência; tornai-nos sempre laboriosos e vigilantes na expectativa da Vossa vinda,
com a esperança de nos sentirmos chamar servos bons e fiéis, e assim entrarmos na alegria do vosso Reino.
XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano A
PRIMEIRA LEITURA JR 20,7 9
A Palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião de insultos.
Ler a Palavra
Os capítulos 11-20 do Livro de Jeremias contêm as «cinco confissões» (cf. 11,18 12,6; 15,10,21; 17,14-18; 18,18 23; 20,7-18): precisamente desta última é que foi extraído o texto que a liturgia hoje nos propõe. A narração é a continuação dos acontecimentos da saída do cárcere do profeta, preso devido a um oráculo ende¬reçado contra o reino de Judá (cf. JR 19,14-20,6).
Compreender a Palavra
Oferecer a vida como sacrifício espiritual (cf. segunda leitu¬ra) é o que Deus deseja de cada um de nós. Jeremias está cho¬cado com a experiência da prisão, quereria fugir à missão que Deus lhe confiara, mas não consegue. No texto, aparentemen¬te semelhante a uma oração, sobressai a sequência «sedução- -dominação-violência» (w. 7-8), com a qual Deus atrai a Si o profeta, tornando-o capaz de pregar aquilo que ele não desejaria e suportar o escárnio dos adversários. O Senhor é mais forte do que ele e do que a sua rebelião (cf. JR 20,14-18), por isso Jeremias deverá obedecer-Lhe.
O profeta, provado até ao extremo, mas definitivamente ven¬cido por Deus, é símbolo de todo o cristão chamado a reconhecer em si mesmo o sinal da vocação ao amor e ao testemunho. Quem
XXII DOMINGO 1)0 TEMPO COMUM I 229
se deixa seduzir pelo Senhor, porque descobre que é objecto do Seu amor, encontra em si mesmo a força e não se furta à ofer¬ta contínua de todas as provas que lhe vêm do seu testemunho. Olhemos para Jeremias, mas sobretudo para Cristo que cumpre a figura d’Ele: Ele é o verdadeiro servo, que sofre e oferece a vida em sacrifício. A Sua obediência nos conforte e coloque entusias¬mo no nosso testemunho.
SALMO RESPONSORIAL SL 62,2-6.8-9
Expressão de um orante ou de uma comunidade, o salmo can¬ta como não devemos desencorajar perante a aridez espiritual se confiarmos no Senhor, implorando-O incessantemente e conce-dendo espaços à oração. Então faremos a experiência do poder divino e vivê-lo-emos como uma «força» que nos «ampara» (v. 9).
SEGUNDA LEITURA RM 12,1-2
Oferecei-vos como vítima viva.
Ler a Palavra
Tendo em vista um verdadeiro «culto espiritual» (v. 1) que se há-de viver como força a opor ao espírito do «mundo», Paulo aconselha uma renovação total do pensamento (cf. RM 12,2-16) e da acção (12,17). O motivo por que exorta os cristãos a um novo modo de relação com o Senhor deve certamente ser visto na von¬tade de ultrapassar práticas religiosas somente exteriores, como as do Judaísmo que se viam no seu tempo.
Compreender a Palavra
O Apóstolo coloca no centro da questão a qualidade de uma relação com Deus que se esforce por «discernir» e cumprir a «Sua vontade» (v. 2), uma atitude de procura que deve permanecer du¬rante toda a vida. Esta é a atitude que ele define por «culto espi¬ritual» (v. 1), ou seja, não ligado a lugares ou a regras, mas sim unicamente preocupado com a autêntica adoração de Deus.
Não é uma novidade admitir que a prática do culto exterior não corresponde sempre à bondade da nossa vida concreta, já que esta é qualitativamente inferior aos recursos que recebe da celebração dos mistérios de Cristo. Com muito maior razão de-vemos sentir como urgente a exortação de Paulo, para que faça¬mos da nossa vida o espelho daquilo que celebramos. Trata-se de viver radicalmente os recursos do Baptismo, da Confirmação e da Eucaristia, empenhando-nos numa caminhada constante de conversão que nos leve a uma conformidade gradual a Cristo.
Entreguemos a nossa vida ao Senhor, para que, iluminada por Ele, saiba crescer e cumprir constantemente a Sua vontade
EVANGELHO MT 16,21-27
Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo.
Ler a Palavra
É particularmente intensa a afirmação segundo a qual Jesus «tinha» de sofrer a Sua Páscoa (v. 21). A recusa de Pedro exprime bem a dificuldade em admitir a perspectiva salvífica de Cristo, marcada pela Sua morte (w. 22-23). Os versículos 24-27 demons¬tram maior abertura eclesial, porquanto mediante a imagem «to¬mar a sua cruz e seguir» Jesus, o destino dos discípulos fica estrei¬tamente ligado ao do seu Senhor.
Compreender a Palavra
A confissão de Pedro (cf. Mt 16,16, Evangelho do domingo passado) confere uma tonalidade nova ao ministério de Jesus: a partir daquele momento torna-se evidente a decisão de che¬gar a Jerusalém e o ensinamento explícito acerca da necessidade da Cruz, que jamais deixará de escandalizar e ser declarada ex¬pressão de loucura, desafia os discípulos de todos os tempos a amadurecerem uma fé profunda e vital no Senhor morto e ressuscitado. Quem não a acolhe torna-se para Jesus um «obstá-culo» – scandalum, na língua grega, isto é, «pedra de escândalo» (v. 23) – impedindo-O de continuar a Sua caminhada, que tem como objectivo conseguir a salvação para toda a Humanidade.
Somos mais uma vez apanhados de surpresa por Jesus nesta perturbadora página evangélica. Não se trata de rejeitar Cristo por causa do sofrimento e da prova; trata-se antes de levar ambos aos pés do crucifixo, para que eles nos restituam mais vigorosa¬mente a Cristo. Tentar escapar a esta perspectiva significa perder as feições originais da nossa identidade cristã.
DA PALAVRA PARA A VIDA-
Como nos sentimos mal quando sofremosl Não conhecemos os porquês, faltam-nos as forças, a própria fé vacila. Onde podemos ir buscar a razão de tudo isto? De que modo pode¬mos agir para que a Palavra de Deus actue em nós, a qual nos diz que não há sequela autêntica se não houver aceitação da Cruz? (MT 16,24)
Segundo afirma o testemunho de Jeremias (primeira leitura), parece que um dos motivos devemos procurá-lo numa cons¬ciência não muito convicta de sermos amados por Deus: «Tu me seduziste, Senhor, e eu deixei-me seduzir.» (Jr 20,7) Seduz somente quem ama, e somente o amado se deixa seduzir. De igual modo é apenas na experiência vital do amor de Deus que amadurece a coragem de poder partilhar perspectivas tão duras, como as da livre aceitação da prova ou de suportar com fé o sofrimento e a dor. Isto significa estarmos apaixonados por Cristo, no verdadeiro sentido da palavra: isto é, no signi¬ficado etimológico de poder «sofrer», de poder passar através do Gólgota, oferecendo a nossa vida ao Pai, juntamente com Cristo e na forma de oração mais verdadeira que se possa pensar.
Que devemos fazer então para crescermos na consciência de que somos amados? Certamente olhando para Cristo, o qual não sem sofrimento, acolhe a vontade do Pai e Se dei¬xa imolar por cada um de nós: juntamente com Jesus temos de encontrar forças para vivermos frutuosamente a vontade do Pai, vontade que por vezes nos alquebra, chamando-nos
à conversão. Não se trata então de fugir do sofrimento, tan to mais que antes ou depois ele nos atinge; não se trata de o viver como um obstáculo no caminho para a felicidade que desejamos. Pelo contrário, deveremos começar a considerar o sofrimento como um meio através do qual chegaremos à alegria, a alegria que não passa. Toda a nossa vida, em todas as suas manifestações, inclusive a amargura e a tristeza, está orientada para Cristo e deve ser envolvida na caminhada em direcção ao grande dia do Senhor que esperamos. Seria um grande problema se acreditássemos eliminar alguma coisa da nossa vida, julgando-a pouco significativa para Deus: com maior razào ainda, se excluíssemos a Cruz e tudo o que ela comporta.
Oração
Espírito Santo, iluminai o nosso coração
para que possamos colocar todos os sofrimentos,
nossos e alheios, à luz esplêndida da Cruz do Senhor Jesus.
Fazei que não desprezemos as cruzes da vida, tornando-nos nós próprios “obstáculo” para a propagação do Reino de Deus e “escândalo” para os nossos irmãos.
Reavivai em nós a consciência de sermos filhos, filhos amados e socorridos sempre pela ternura e pelo amor do Pai.