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11 23  O Paradoxo do Rei na Cruz

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(0:00) Bem, chegámos àquela altura do ano litúrgico (0:03) em que se celebra uma figura, no mínimo, paradoxal. (0:06) Cristo Rei. (0:08) Vamos pensar nisto por um momento.

(0:10) Como é que um rei pode ser definido não por um trono de ouro, (0:13) mas por uma cruz de madeira? (0:15) É uma contradição, não é? (0:17) Vamos tentar mergulhar neste mistério. (0:19) Ora, este slide mostra bem o problema. (0:22) De um lado, temos tudo o que nós associamos a um rei do mundo, certo? (0:25) Um trono de ouro, poder que domina, exércitos.

(0:27) E do outro, bem, é o completo oposto. (0:30) Cristo Rei. (0:31) Um trono de madeira, fraqueza, sofrimento, (0:34) um amor que não se impõe, mas que se entrega.

(0:36) A grande questão é mesmo essa. (0:38) Como é que estas duas realidades tão diferentes (0:40) podem ser chamadas de realeza? (0:43) E a resposta, ou pelo menos a chave para a resposta, (0:45) está precisamente nisto. (0:46) A soberania de Cristo, para a fé cristã, (0:48) não se revela num palácio faustoso, (0:50) mas no sítio mais improvável e vulnerável de todos, a cruz.

(0:54) É um trono completamente inesperado, (0:57) onde o poder não é força, mas sim entrega total. (1:00) Ok, mas esta ideia de um rei, assim, tão diferente, (1:04) de onde é que ela vem? (1:05) Para isso, temos de recuar um pouco, (1:08) ir às raízes bíblicas (1:09) e olhar para uma figura absolutamente central, (1:12) o rei David. (1:13) É David que vai criar este modelo do rei pastor.

(1:16) Reparem, o papel dele não era o de um conquistador (1:19) que esmaga os inimigos. (1:20) Não. A sua missão era outra.

(1:23) Era ser como um pastor para o seu povo. (1:24) Era unir, guiar, cuidar. (1:27) A sua grande tarefa era, de facto, pastorear Israel.

(1:30) E esta ideia vai ser crucial para tudo o que vem a seguir. (1:34) E olhem para esta citação. (1:36) É fascinante.

(1:37) O povo diz a David, (1:39) nós somos dos teus ossos e da tua carne. (1:42) Isto é muito mais do que um juramento de lealdade, não acham? (1:45) É quase uma declaração de família. (1:47) É um laço de sangue, (1:49) um reconhecimento de que ele é um deles.

(1:52) E isto? (1:53) Isto já aponta para a forma como Cristo se vai ligar à humanidade, (1:56) tornando-se, de facto, um de nós. (1:58) Então, passamos de um rei pastor de um povo (2:01) para algo muito, muito maior. (2:04) A realeza de Cristo não fica confinada a um país ou a uma fronteira.

(2:08) Não. Ela ganha uma dimensão cósmica, universal. (2:11) Uma realeza que abrange, bem, tudo o que existe.

(2:15) A carta aos Colossenses é, uau, de uma escala impressionante a este respeito. (2:19) Cristo é apresentado como o centro de tudo, literalmente. (2:23) Ele é a imagem de Deus invisível, o primogénito de toda a criatura.

(2:27) É nele que tudo subsiste. (2:29) Isto significa que o seu reino não é só o que vemos, (2:32) mas também o que não vemos. (2:33) Ele é a cola que une todo o universo.

(2:36) E esta realeza cósmica tem um objetivo muito claro. (2:40) A redenção. (2:42) A ideia que, através de Cristo, as pessoas são, e cito, (2:46) libertas do poder das trevas (2:47) e transferidas para o reino do seu filho.

(2:51) É quase como mudar de país, (2:52) de um reino de escuridão para um reino de luz. (2:55) Uma libertação. (2:57) E é isto que nos leva, inevitavelmente, ao momento-chave, (3:00) ao clímax de toda esta história, a crucificação.

(3:03) É ali, no Calvário, que todas estas peças do puzzle, (3:06) o rei pastor, o rei criador, o salvador, se juntam. (3:10) É ali que o paradoxo explode em todo o seu significado. (3:13) A ironia da cena é cortante.

(3:16) Os líderes, os soldados, todos gozam com ele. (3:20) Dizem-lhe que salvou os outros, agora salve-se a si mesmo, (3:22) se é mesmo o Messias. (3:24) Estão a exigir que ele prove que é rei da única maneira que eles entendem, (3:27) com uma demonstração de poder, salvando-se a si próprio.

(3:30) Mas a questão é que é precisamente por ele não o fazer (3:33) que a sua realeza se manifesta. (3:35) Então, no meio de todo aquele caos, daquele gozo, daquela dor, (3:39) quando parece que ninguém está a perceber nada do que se passa, (3:41) há alguém que vê, (3:43) alguém que consegue ver para além das aparências. (3:46) Quem é que reconhece este rei no seu momento de maior fraqueza? (3:49) A resposta vem do sítio mais improvável de todos, (3:52) um dos ladrões que está a ser crucificado ao lado dele.

(3:55) Imaginem a cena. (3:56) Este homem, no meio da sua própria agonia, (3:59) olha para o lado e vê um rei. (4:02) É um acto de fé absolutamente extraordinário.

(4:04) Ele vê um rei a ser executado e mesmo assim pede. (4:07) Jesus, lembra-te de mim quando chegares ao teu reino. (4:11) E a resposta de Jesus é aqui que tudo faz sentido.

(4:14) O seu primeiro ato como rei, ali na cruz, (4:17) não é um decreto para se salvar a si mesmo. (4:19) É uma promessa para salvar outra pessoa. (4:22) Ele diz, hoje mesmo estarás comigo no paraíso.

(4:25) O seu poder real não é o poder de dominar, (4:28) mas o poder de perdoar e de abrir as portas do seu reino. (4:31) Muito bem, depois de vermos tudo isto, (4:33) a pergunta lógica é, e então, (4:35) o que é que isto significa para a vida todos os dias? (4:38) Como é que se vive num reino com um rei destes? (4:40) Ok, então podemos resumir tudo em três grandes ideias, (4:43) três faces deste rei. (4:45) Primeiro, o rei pastor, aquele que une e guia, como o David.

(4:49) Depois, o rei criador, (4:51) aquele que é o centro do universo e que sustenta tudo. (4:53) E por fim, o rei misericordioso, (4:55) aquele que no seu momento mais fraco abre as portas do paraíso. (4:59) Isto, por sua vez, (5:01) leva-nos a três formas muito práticas de viver neste reino.

(5:04) Se o rei serve, então os súbditos também devem servir, (5:07) em vez de dominar. (5:09) Se a realeza do rei brilha no sofrimento, (5:11) então é preciso ter fé, mesmo nesses momentos difíceis. (5:15) E se ele é um rei pastor, que une, (5:17) então a missão é promover a unidade, (5:19) lutar contra as divisões.

(5:21) E, para terminar, fica uma pergunta para pensarmos. (5:23) Se o maior poder de um rei não está num trono de ouro, (5:26) mas sim numa cruz de madeira, (5:28) de que maneira é que isso pode ou deve mudar a nossa própria ideia (5:32) do que é a força, o poder e a influência?

11 24 O valor de duas moedas

O Valor de Duas Moedas

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O Valor de Duas Moedas

22/11/2025, 14:35
O Valor de Duas Moedas

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(0:00) Bem-vindos! (0:00) Já alguma vez se parou para pensar no que realmente dá valor a um gesto? (0:05) Hoje vamos mergulhar numa história intemporal sobre o ato de dar, uma que nos vai fazer (0:10) questionar tudo o que julgávamos saber sobre generosidade. (0:14) Então, como é que duas moedas minúsculas podem valer mais que uma fortuna? (0:19) Para encontrar a resposta, vamos viajar até ao Templo de Jerusalém, um cenário que nos (0:23) é descrito no Evangelho de Lucas. (0:24) Imaginem só, o barulho, a multidão, a grandiosidade do lugar, e é precisamente aqui que uma cena (0:31) à primeira vista banal vai acontecer, mas com um significado, olha, absolutamente profundo.

(0:37) E o que é que se passa neste teor do Templo? (0:40) Bem, Jesus está a observar, a ver as pessoas a deixarem as suas ofertas, e claro, chegam (0:45) os ricos. (0:46) E eles não são discretos, não é? (0:47) Depositam grandes somas de dinheiro, com um certo orgulho, gestos vistosos que claro, (0:52) impressionam toda a gente à volta. (0:54) Só que, no meio de toda aquela ostentação, de todo aquele barulho de moedas de ouro, não (0:59) é isso que lhe capta a atenção, de todo.

(1:02) É algo muito mais subtil, um gesto quase silencioso, praticamente invisível para a maioria. (1:08) É a chegada de uma viúva, uma mulher pobre e humilde. (1:11) E o que é que ela dá? (1:13) Apenas isto, duas moedas, duas pequenas moedas de cobre.

(1:18) Pensemos bem, em termos materiais, é a coisa mais insignificante que se podia imaginar. (1:24) Uma quantia tão pequena, mas tão pequena, que se perdia completamente no meio das fortunas (1:29) que os outros estavam a dar. (1:30) Ninguém daria por ela.

(1:32) E é aqui que tudo muda. (1:34) É neste preciso momento que Jesus diz algo que, olhem, vira completamente a lógica do (1:38) mundo ao contrário. (1:40) Ele olha para todos e diz.

(1:42) Em verdade vos digo, esta viúva pobre deu mais do que todos os outros. (1:46) Aquela oferta minúscula, aquelas duas moedinhas, era na verdade a maior de todas. (1:52) É uma afirmação tão, mas tão forte, que nos obriga a parar e a pensar.

(1:57) Isto, claro, levanta uma pergunta óbvia, não é? (1:59) Que medida é esta? (2:00) Que matemática é esta que Jesus está a usar? (2:03) Porque, claramente, não é uma medida financeira, não se trata de contar dinheiro. (2:08) A história está a pedir-nos para olhar para além do óbvio, para além das aparências (2:11) e a tentar perceber, bem, uma forma totalmente diferente de medir o valor das coisas. (2:17) E a chave para perceber isto tudo está aqui, neste contraste.

(2:22) Reparemos bem, não é sobre a quantidade de dinheiro, é sobre a qualidade do sacrifício. (2:27) Os ricos, eles deram do que lhes sobrava. (2:29) Era um gesto de abundância, sim, mas não lhes custou nada.

(2:32) Não mudou a vida deles em absolutamente nada. (2:35) Já a viúva, a viúva deu da sua pobreza, ela deu tudo o que tinha para viver. (2:39) A oferta dela não era um extra, não era uma sobra, era o seu sustento.

(2:44) Portanto, o que estamos a ver é que a medida de Deus, esta medida divina, (2:48) não é sobre números, é sobre qualidade. (2:51) O que realmente conta não é o valor material do que se oferece, (2:55) mas sim o amor, a intenção, o sacrifício que está no coração de quem dá. (3:00) É uma perspectiva que valoriza o porquê e não apenas o quê.

(3:04) Mas, atenção, este princípio do sacrifício total não ficou preso numa história antiga. (3:09) De maneira nenhuma. (3:11) Ele ecoa, e de que maneira? (3:12) Na história de Santo André Dung-Lac e dos seus companheiros, os mártires do Vietnã.

(3:17) A história deles é, na verdade, um testemunho vivo e brutal (3:21) desta mesma ideia de entrega total. (3:24) A história é longa. (3:25) O cristianismo chega ao Vietnã no século XVII e as perseguições começam pouco depois.

(3:30) Mas é no século XIX que a coisa se torna verdadeiramente brutal, (3:33) com uma ferocidade que levou a milhares de mortos. (3:36) E estes homens e mulheres foram postos perante a escolha mais terrível que se pode imaginar. (3:40) Ou renunciavam à sua fé ou enfrentavam a tortura e uma morte certa.

(3:44) Não havia meio termo. (3:46) E aqui está a ligação à viúva. (3:48) Tal como ela, eles não deram apenas algo que tinham.

(3:51) Não, eles deram tudo o que eram. (3:54) A oferta deles foi a sua existência inteira. (3:57) Pensemos nisto, os seus bens, a sua segurança, (4:00) mas também as suas esperanças, os seus medos, os seus futuros (4:03) e, no fim, as suas próprias vidas.

(4:07) Foi uma entrega total, num ato final de uma convicção imensa. (4:11) Ok, então vamos ligar os pontos. (4:13) Que ponto é este aqui ou nestas duas histórias? (4:16) Parece uma comparação estranha, não é? (4:18) Como é que se pode sequer comparar duas moedas com uma vida inteira? (4:21) A ligação está toda nesta ideia, a oferta de panúria.

(4:25) É uma dádiva que vem da pobreza mais profunda. (4:28) A viúva ofereceu a sua pobreza material. (4:30) Era literalmente tudo o que ela tinha para sobreviver.

(4:33) Os mártires, por outro lado, ofereceram a pobreza de já não terem mais nada para dar, (4:37) a não ser a própria vida. (4:39) Nos dois casos, a oferta não veio da abundância, do que sobra. (4:43) Vem da escassez, do que faz falta.

(4:45) E é aqui que a lógica do sacrifício total se torna absolutamente clara. (4:51) A viúva deu tudo o que tinha. (4:54) Os mártires deram tudo o que eram.

(4:57) Reparemos na diferença e na semelhança. (5:00) A perspectiva divina mostra que o valor não está no que se dá, (5:03) mas no facto de ser tudo. (5:06) É neste tudo que o pequeno, o que parece insignificante, (5:09) se transforma em algo de um valor imenso, imensurável.

(5:14) Claro que isto não são apenas histórias para ficarem nos livros. (5:17) Longe disso. (5:18) Estas lições falam diretamente para o nosso tempo, para as nossas vidas hoje.

(5:23) E desafiam-nos, a todos, a parar um pouco (5:26) e a reexaminar o que pensamos sobre generosidade, (5:29) sobre valor e sobre o que significa realmente sacrificar algo. (5:33) Portanto, as histórias da viúva e dos mártires (5:36) deixam-nos com um convite a uma reflexão mais profunda, (5:39) a pensar não apenas no que se dá, mas no como (5:42) e, talvez mais importante, de onde vem essa dádiva. (5:46) E por isso, a análise termina com uma pergunta, (5:48) que não é para ser respondida agora, mas para ficar a ecoar.

(5:51) Na vida de cada um, com os recursos que se têm, (5:54) o que é que significa, na verdade, dar tudo?

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