24ª Semana do Tempo Comum

PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares)______________________ 1 Tm  2,1-8

Façam-se preces por todos os homens a Deus que quer salvar todos os homens.

 

XXIV SEMANA DO TEMPO COMUM

SEGUNDA-FEIRA

PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares)______________________ 1 Tm  2,1-8

Façam-se preces por todos os homens a Deus que quer salvar todos os homens.

Ler a Palavra

Paulo foi constituído anunciador do projecto de Deus, ou seja, da Sua vontade de salvar todos os homens. Para sublinhar esta universalidade, no texto grego volta cinco vezes o adjectivo «to­dos» e cinco vezes o termo «homens». O mediador da salvação universal é o homem Cristo Jesus, graças à Sua autodoação ao Pai em favor de todos. Os fiéis associam-se à mediação de Jesus especialmente no momento da oração, que deve ter também uma dimensão social, cívica: é necessário invocar sobre todos o dom da ordem, da prosperidade e da paz.

Compreender a Palavra

Porque conheceu o amor de Deus a seu respeito, Paulo pôde compreender também o amor de Deus por todos os homens, chamados a tornarem-se Sua família. Por conseguinte, o Após tolo exorta os cristãos a viver com simpatia e com sentido de co- -responsabilidade no meio dos gentios, a cultivar uma relação benévola com o mundo que os rodeia e com as autoridades políti cas, a dar uma dimensão universal à sua oração. Isto não era nem

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fácil nem espontâneo, porque muitas comunidades encontravam dificuldades e, inclusive, perseguições por parte do mundo.

Paulo baseia a sua exortação em duas motivações. A primeira diz respeito à oportunidade de «levar uma vida tranquila e pa­cífica» (v. 2), para poder exercer a piedade e para ganhar a esti­ma e a benevolência da parte de todos. A segunda está radica­da no Evangelho, de que ele foi «mensageiro e apóstolo» (v. 7): Deus, mediante Jesus Cristo, quer salvar todos os homens, quer que sejamos salvos não sozinhos, mas juntamente com todos os homens. Entregando-Se a Si mesmo pela vida dos outros, Jesus ensinou-nos que a verdade que salva é a vida oferecida.

SALMO RESPONSOR1AL                                                           Sl   27,2.7-9

O suplicante pede ao Senhor que escute a voz da sua súplica, feita com as mãos levantadas para o lugar onde estava guardada a Arca da Aliança. Ele está certo de ser ouvido, porque Deus é a sua força, o seu escudo. Por isso alarga a sua oração e pede a jhwh que cuide do seu povo e do seu rei.

PRIMEIRA LEITURA (anos pares)_________________ ICor   11,17-26.33

Se há divisões entre vós, não comeis a ceia do Senhor

Ler a Palavra

Paulo censura as divisões que se verificavam em Corinto du­rante as celebrações da ceia do Senhor: cada um comia separa­damente a sua refeição, e assim um ficava com fome, o outro fi­cava embriagado. Para corrigir este abuso, o Apóstolo convida os cristãos a aprofundarem o significado da ceia do Senhor que ele, a seu tempo, lhes transmitiu. A ceia eucarística é a memória de Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado por todos, constituído Senhor porque fez da Sua morte uma liturgia de comunhão com o Pai e com todos os homens.

Compreender a Palavra

«Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste ca lice anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.» (v. 26) Celebrar a Eucaristia quer dizer proclamar não só a morte de Je sus (a morte de Jesus é algo conhecido pela razão, pela pesquisa histórica), mas quer dizer proclamar a morte do Senhor, isto e o sentido, o fruto, a vitória dessa morte Mediante a Sua mor­te, vivida filialmente com a força do Espírito Santo, Jesus levou a cumprimento a Sua obediência ao Pai e a Sua solidariedade para connosco, e como foi constituído em plenitude Senhor da Histó­ria, irmão primogénito dos homens, capaz de valorizar o nosso sofrimento e a nossa morte, de transformá-los em momentos de filiação e portanto de salvação e de ressurreição.

Na Eucaristia celebramos o triunfo do amor sem limites de Jesus ao Pai e a todos nós, anunciamos e acolhemos a salvação que essa morte continuamente nos comunica, tornando-nos cada vez mais conscientes da nossa dignidade filial perante Deus e da fraternidade que nos une. É por isso um contra senso celebrar a Eucaristia separando-se dos outros ou ignorando os.

SALMO RESPONSORIAL___________________________ Sl   39,7-10.17

O suplicante respondeu à chamada do Senhor e compreendeu que o que dá consistência à nossa relação com Ele é a obediência. Por isso faz sua a Palavra do Senhor, a ela adere com todo o seu ser, interioriza-a e torna-se anunciador dela na assembleia, para que todos possam celebrar a grandeza e a bondade de jhwh.

EVANGELHO ______________________________________      Lc_ 7,1-10

Nem em Israel encontrei tão grande fe.

Ler a Palavra

Depois de Se ter apresentado como profeta poderoso median­te as palavras dirigidas à multidão (cf. Lc 6,20-49), a partir do ca

XXIV SEMANA DO TEMPO COMUM 353

pítulo 7 do Evangelho de Lucas, Jesus apresenta-Se como profeta poderoso mediante as obras, inclinando-Se misericordiosamente sobre os homens. Revela esta Sua identidade em quatro encon­tros: com um centurião romano; com uma viúva desolada pela morte do filho único; com uma delegação que Lhe foi enviada por João Baptista; com uma mulher pecadora (Lc 7,1-50).

Compreender a Palavra

Mais do que estarmos perante a narração de um milagre feito por Jesus, o texto de hoje coloca à nossa frente a caminhada de fé do centurião romano. A sua situação não era fácil: no plano militar era um conquistador de Israel, e no plano religioso fora conquistado pela fé monoteísta de Israel. De facto, com as suas obras, em particular contribuindo para a construção da sinagoga, tinha favorecido a fé do povo eleito.

Mas agora o centurião ultrapassa os próprios hebreus: aceita a plenitude do dom de Deus revelado em Jesus Cristo, reconhece que Jesus é a salvação para todos. A sua caminhada, começada com a simpatia pela fé hebraica e cumprindo obras boas em favor dos hebreus, culmina com a abertura ao mistério do Salvador, concedido por Deus a Israel e a todos os homens.

Jesus fica cheio de admiração por este pagão que não precisa de um sinal tangível: não pretende que o Mestre vá a sua casa, mas acredita imediatamente na bondade e no poder da Palavra do Senhor. Jesus compreende que se está a realizar a promessa de salvação e de bênção para todas as nações, feita por Deus a Abraão (cf. Gn 12,1-3).

DA PALAVRA PARA A VIDA————————————————

Narrando a caminhada de fé do centurião, o Evangelho diz-nos como podemos acolher a Deus e ao seu Enviado.

O centurião é caracterizado, antes de mais, por uma grande humanidade: tem boas relações com os judeus, a ponto de ser seu benfeitor (e isto constituía um facto insólito para um

 

ocupante romano). Além disso, preocupa-se com o seu servo doente: não era normal naquele tempo «estimar muito» (7,2) os servos. O centurião faz o bem porque é temente a Deus e por isso respeita e estima as pessoas.

Além dessa grande humanidade, Lucas coloca em relevo a humildade e a fé desse homem. A humildade permite-lhe re­conhecer a distância que existe entre ele e Jesus. Por isso não O interpela pessoalmente, mas «envia-Lhe alguns anciãos dos judeus para Lhe pedir que vá salvar aquele servo» (7,3) e, quando Jesus se dirige para a Sua habitação, não se julga dig­no de hospedá-1’0. Finalmente, tem uma fé muito grande na eficácia da Palavra do Mestre. Partindo de uma consideração sobre a autoridade da sua palavra humana, o centurião está certo de que na Palavra de Jesus opera o poder de Deus.

O centurião demonstra que o modo normal para encontrar a Deus e ao seu Enviado não é a visão, mas a fé na sua Palavra. Ele faz parte daqueles que Jesus proclamará bem-aventurados porque «acreditam sem terem visto!» (Jo 20,29) Perante uma fé assim, o Mestre fica admirado: por um lado temos a estu­pefacção do centurião pela condescendência de Jesus, que Se dirige para sua casa; e, por outro temos a admiração de Jesus pela fé humilde e corajosa do centurião.

Como que respondendo ao convite de Paulo para celebrar mos dignamente a ceia do Senhor (primeira leitura, anos pa­res), no momento da comunhão a Igreja coloca-nos nos lá bios precisamente as palavras do centurião: «Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo.» (7,6-7) A primeira indignidade é a de julgar-se com base nas relações com Deus e com os homens, de modo a aproximar-se da mesa do Senhor sem assombro, com auto-suficiência, com a superficialidade de quem acha óbvio e quase devido esse dom. Nós somos sempre indignos do amor infinito de Jesus.

 

Oração

Na vossa Palavra, Pai Santo, manifestais o poder que nos salva; fazei que ela ressoe em todas as línguas e em todas as culturas, e seja acolhida por cada homem como oferta de salvação.

 

TERÇA-FEIRA

PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares)_____________________ ITm 3,1-13

Quem exerce um cargo de governo na Igreja deve ser irrepreensível; igualmente os diáconos devem conservar o mistério da fé numa consciência pura.

Ler a Palavra

Paulo enumera as virtudes requeridas a quantos têm respon­sabilidades na Igreja, bispos e diáconos; as dezasseis virtudes apontadas (seis negativas e dez positivas), decalcam as que então eram apreciadas particularmente em quem exercia cargos pú­blicos e correspondiam ao ideal do homem honesto, maduro na vida pessoal, familiar e social. Em particular, afirma o Apóstolo, o bispo não deve ser um neo-convertido, deve ter dado provas de fidelidade enquanto discípulo de Cristo e deve estar consciente de que ensoberbecer-se pelo seu cargo é uma tentação do diabo.

Compreender a Palavra

A presença de pessoas que no interior da Igreja exercem car­gos de responsabilidade é apresentada por Paulo como uma rea­lidade indiscutível. Para a sua escolha são enumerados critérios que porventura nos deixam perplexos: não se pede aos candi­datos que sejam homens de oração, místicos, conhecedores da Palavra de Deus e da Cruz de Cristo, mas que sejam homens maduros, honestos, quer na vida pessoal («sóbrios, não dados ao vinho», w. 2,3,8), quer na vida social («hospitaleiros, não violen­tos, condescendentes, desinteressados», w. 2,3), e em condições de assumir uma responsabilidade pública («capazes de ensinar, de governar a própria casa e capazes de cuidar da Igreja de Deus», w. 4,5,12). Estes dotes humanos são indispensáveis para poderem aproximar-se fraternamente dos outros, dentro e fora da Igreja, para serem ponte e não barreira para os outros no encontro com

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Cristo, para se adaptarem às condições dos homens, aos quais querem prestar um serviço. O próprio Jesus fez-Se plenamente homem, para fazer da Sua humanidade o sacramento do encon­tro com o Pai.

A ultima parte do texto deixa entrever que também as mulhe­res exerciam cargos de responsabilidade nos serviços eclesiais.

SALMO RESPONSORIAL __________________________ Sl   100,1-3.5-6

O salmo apresenta o programa de governo do rei e, por con­seguinte, do Messias. O soberano quer inspirar-se no amor e na justiça, ou seja, na fidelidade de Deus, e por isso promete seguir o caminho da integridade: não aceitará quem cometa acções ile­gais, excluirá dos seus colaboradores as más-línguas e reservará particular atenção aos fiéis, de entre os quais escolherá os seus ministros.

PRIMEIRA LEITURA (anos pares)_____________ ICor 12,12-14.27-31a

Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um na sua parte.

Ler a Palavra

Paulo sublinha que a Igreja é chamada a viver, ao mesmo tem­po, o milagre da unidade e o da multiplicidade. Todos os membros da Igreja, diferentes sob o ponto de vista étnico, social, sexual, são em Cristo um só corpo, enquanto foram baptizados num só Es­pírito e lhes foi dado a beber um só Espírito. Esta unidade, à ima­gem da Trindade, comporta porém um sem-número de carismas e de ministérios, que têm em Deus a fonte e que recebem d’Ele a força para contribuir para o crescimento do único corpo eclesial.

Compreender a Palavra

Paulo remonta ao coração da experiência cristã, constituído pelo Baptismo que enxerta os crentes em Jesus e os une entre si, fazendo deles um corpo vivo: a Igreja, que é rica de dons multifor­mes. O Espírito é o poder de Deus, no qual todos os crentes estão mergulhados. Este facto torna irrelevantes na comunidade as di- versidades étnicas, sociais e religiosas (ser judeu ou grego, escravo ou livre). Os fiéis recebem do Espírito Santo carismas diversos e o Corpo de Cristo existe e cresce graças ao contributo de todas as tarefas suscitadas em cada um deles pelo único Espírito. Os dons do Espírito não devem criar contraposições e não devem também ser postos ao mesmo nível. Há na Igreja tarefas de fundação que remontam à livre iniciativa do Senhor e que recebem a autoridade da Palavra de Deus: «Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lu­gar apóstolos, em segundo profetas, em terceiro doutores.» (v. 28)

SALMO RESPONSORIAL_______________________________ Sl_ 99,2-5

O salmo é um invitatório, composto por sete imperativos di­rigidos à comunidade reunida diante do Templo: «Aclamai; servi; vinde; apresentai-vos; penetrai; glorificai; bendizei.»

Os sete imperativos giram em torno do argumento central (v. 3): «Sabei que o Senhor é Deus»; Ele é o nosso criador («Ele nos fez»); Ele o nosso Salvador, que quis oferecer-nos a sua Alian­ça («a Ele pertencemos»).

EVANGELHO                                                                                                Lc               7,11-17

Jovem, Eu te digo: levanta-te.

Ler a Palavra

A narração evangélica de hoje enfrenta o problema funda­mental da vida humana, a dor e a morte, e exprime uma grande mensagem: Jesus é o Senhor do homem, e porque é rico de mise ricórdia pode conservar ou restituir ao homem o sumo bem que é a vida.

A narração está assim articulada: no começo temos dois ver­sículos de introdução (w. 11-12); seguem-se três versículos que descrevem a acção e as palavras de Jesus à mãe e ao jovem res­suscitado (w. 13-15); finalmente, há dois versículos que testemu nham a reacção positiva do louvor da multidão e a difusão da fama de Jesus (w. 16-17).

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Compreender a Palavra

Lucas coloca em realce o comportamento de Jesus, que pela primeira vez, depois das palavras do anjo aos pastores (cf. Lc 2, 10), é designado com o titulo de «Senhor», (v. 13) O Mestre é além disso o sujeito de sete verbos nos versículos 13-15: «viu; compadeceu-se; disse (à viuva); aproximou-se; tocou no caixão; disse (ao jovem); entregou-o à mãe.»

Jesus, que veio trazer a Boa Notícia aos pobres (cf. Lc 4,18), diante de uma mulher viúva, privada do seu único filho, enche- -Se de uma compaixão que O impele a intervir. Mais que uma demonstração de poder da parte do Filho de Deus, a ressurreição do filho da viúva de Naim é a revelação de como é grande a ter­nura de Jesus e de como o Seu amor é mais forte que o poder da morte.

A multidão reconhece que Jesus realizou um dos sinais cor­respondentes às promessas de jhwh e às esperanças de Israel: Ele é por isso um grande profeta, porque proclama como Deus ama os homens. N’Ele actua em plenitude o poder de Deus sobre a morte e a Sua misericórdia perante os limites humanos: no Filho realiza-Se então a visita benévola de Pai aos homens.

DA PALAVRA PARA A VIDA————————————————

A ressurreição do jovem de Naim, narrada no Evangelho, é um sinal que nos manifesta a compaixão, a proximidade efi­caz de Jesus de quem sofre, de quem se encontra perante a morte. Em Naim, o Mestre deu o sinal de que diante d’Ele a morte perde o seu poder. A morte começará a ser vencida definitivamente no Calvário, quando Jesus a transformar num acto de amor, e na manhã de Páscoa, quando com a Ressur­reição entrar num mundo novo, a que todos somos chamados a participar, sendo chamados e restituidos a uma vida plena e definitiva, porque é divina; como o Mestre restituiu o jovem à mãe, assim com a ressurreição todos os nossos vínculos de amor serão reforçados num modo perfeito.

Com a visita que Ele nos fez, Jesus liberta-nos do nosso maior inimigo, a morte, mas Ele realiza esta libertação pagando um grande preço: eliminará o poder da morte tomando-a sobre Si. O filho único e sua mãe viúva são uma antecipação do que Jesus e Maria irão sentir: também Ele é o filho único, também sua Mãe vê-l’0-á morrer e O acompanhará à sepultura. O Pai, porém, não O deixará prisioneiro da morte, mas restituí-FO- -á em plenitude de vida à Mãe, e Ela, no dia da ressurreição, recebê-1’O-á como num segundo nascimento. O amor de Je­sus, que aceita morrer pelos irmãos, é fonte de vida para todos nós, homens e mulheres a caminho da morte física, mas gra­ças a Cristo a caminho da ressurreição e da vida definitiva.

Até à chegada de Jesus, a morte era entendida como uma rea lidade odiosa que causava medo e angústia, à qual o homem se opunha durante toda a vida. A sabedoria filosófica tinha-a entendido como uma realidade inevitável que o homem deve aceitar com paz e dignidade, ou como uma mestra severa e sábia que ensina o mistério da vida, a caducidade e a rela­tividade das coisas: a sabedoria filosófica via na morte uma advertência à vigilância, à auto-disciplina e à avaliação sábia do tempo. Desde quando Jesus tocou sem medo no caixão do jovem de Naim, a morte adquiriu outro sentido: tornou- -se o momento em que o Filho se associou particularmente a nós e nós fomos unidos a Ele. Jesus veio libertar-nos do medo da morte, não aumentá-lo com o remorso ou com a angústia pelos nossos limites. Unidos a Jesus podemos viver e morrer oferecendo-nos ao Pai. Esta união começa no Baptismo e é reforçada nos sacramentos, especialmente na Eucaristia.

Oração

Senhor Deus, consolador dos aflitos,

iluminais o mistério da dor e da morte

com a esperança que resplandece no Rosto de Cristo:

fazei que nas provações da nossa caminhada

permaneçamos intimamente unidos

à Paixão do vosso Filho, para que se revele em nós

o poder da Vossa ressurreição.

XXIV SEMANA DO TEMPO COMUM ! 361

 

QUARTA-FEIRA

PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares)____________________ ITm  3,14-16

Égrande o mistério da piedade.

Ler a Palavra

A leitura apresenta uma síntese densa de eclesiologia e de cris- tologia. A Igreja e a «casa de Deus» (v. 15), isto é, o Seu templo e a Sua família, é garantia sólida e segura da verdade, ou seja, da recta fé, é ponto de referência certo pela verdade do Evangelho, isto é, pelo «mistério da piedade» (cf. v. 16). Com efeito, na Igreja proclama-se com fe a identidade de Jesus em todas as fases da Sua existência (que incluem a Encarnação e a exaltação). Na pregação missionaria da Igreja e no acolhimento da fé por parte dos ho­mens, Jesus revela o projecto da bondade de Deus.

Compreender a Palavra

Paulo, já ancião, educa com afecto o jovem Timóteo. Quereria estar junto dele fisicamente para o amparar, mas Timoteo deve saber que a própria Igreja é o seu amparo, o lugar onde se pode viver em serenidade e em segurança. Ela, de facto, é a casa de­sejada por Deus, o edifício por Ele construído como «coluna e sustentáculo da verdade» (v. 15). Nesta casa pode haver por vezes invejas ou calúnias, mas a Igreja é maior do que os homens, pois é a esposa de Cristo, nascida do Seu lado trespassado, e com os olhos da fé vemo-la como o começo do Reino de Deus que vem.

A grandeza da Igreja provém do «mistério de amor de Deus» por nós (cf. v. 16), isto é, de Jesus que está presente nela e é nela proclamado. Paulo celebra este mistério com um hino litúrgico e nós celebramo-lo na Eucaristia, onde encontramos Jesus Encar­nado, sofredor, crucificado, morto, ressuscitado, subido ao Céu, anunciado ao mundo, acreditado. Na celebração eucarística en­contramos por isso também o mistério da Igreja.

SALMO RESPONSORLAL

Sl 110,1-6

Este salmo convida-nos a dar graças a Deus: as Suas obras devem ser contempladas, e então por um lado revelam quem é Deus, e por outro suscitam uma admiração sempre nova diante d’Ele. Deus estabeleceu uma festa, a Páscoa, para fazer memória das Suas obras e anunciá-las. De entre estas são mencionadas: o dom do alimento no deserto; o dom da Aliança; o dom da Terra Prometida (cf. w. 5-6).

PRIMEIRA LEITURA (anos pares)_________ ICor 12,31-13,13

Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade: mas a maior de todas é a caridade.

Ler a Palavra

Esta página da Primeira Carta aos Corintios é famosa, e com razão: apresenta o elogio da caridade (ágape), isto é, o «caminho mais sublime» (13,13) que o próprio Deus percorre em cada um de nós.

A composição articula-se em trés momentos. No primeiro, o Apóstolo Paulo faz uma comparação entre o amor e os carismas, que eram os mais ambicionados em Corinto, por serem os mais vistosos (13,1 3); no segundo, celebra com quinze verbos as qua­lidades do amor, ou seja, o que o amor é e o que faz (13,4-7); no terceiro, exalta o valor perene da caridade e a sua superioridade sobre todos os outros carismas e sobre todas as outras virtudes (13,8-13).

Compreender a Palavra

.

Neste hino Paulo procura transmitir a sua paixao por uma vida cristã que entra em contacto com a propna realidade de Deus, que é amor. A caridade aqui celebrada, com efeito, não é obra do homem, mas é actividade gratuita do Senhor, que torna possíveis relações novas com os outros porque foi aceite a relação com Ele.

 

Os quinze atributos da caridade (oito são negativos, para indicar que ela exige sempre que dentro de nós alguma coisa seja morti­ficada, um êxodo do homem velho) dizem como são as relações com Deus e entre os homens, tornadas possíveis pelo dom do ágape. A caridade nunca terá fim, porque é antes de mais relação com Deus que transparece nas novas relações com os homens. Por conseguinte, a caridade é verdadeiramente a única dimensão escatológica do presente, é o caminho mais sublime pelo qual se deve sempre aspirar (ICor 14,1).

Nós detemo-nos demasiado nos momentos que manifestam pouco amor e esquecemo-nos que Deus já nos deu a caridade no Baptismo e que nós, embora com muitas limitações, já a vivemos. Dêmos graças a Deus porque a Sua caridade existe em nós e entre nós, e porque Ele nos dá a alegria de o reconhecermos.

SALMO RESPONSOR1AL_________________________ Sl   32,2-5.12.22

Os levitas e a assembleia são convidados a louvar a Deus: a Palavra e as obras do Senhor deixam transparecer que Ele cria e sustenta tudo com o Seu amor. A felicidade consiste em viver em Aliança com este Deus: n’Ele podemos confiar e a Ele podemos pedir que nos acompanhe com a Sua bênção vital.

EVANGELHO________________________________________ Lc 7,31-35

Tocámos flauta e não dançastes, entoámos cânticos de luto e não chorastes.

Ler a Palavra

O próprio Jesus teve de ajustar contas com a incoerência hu­mana e dela se lamentou também um pouco: veio João Baptista e não foi aceite, porque era julgado demasiado severo; chega Je­sus, que Se mistura com as pessoas, e é criticado. Quem não quer aceitar que o Pai Se manifesta no comportamento do Filho en­contrará sempre desculpas infantis para não crer n’Ele. Pelo con­trário, os que reconhecem verdadeiramente a Sabedoria de Deus dão-Lhe glória e compreendem que em Jesus Se revela o mistério do Pai, que nos ama a todos e que vem ao nosso encontro a cada momento.

Compreender a Palavra

Quando um homem ou uma sociedade preferem rejeitar a graça do Reino de Deus encontram sempre desculpas para jus tificar a sua atitude. Jesus desmascara a recusa dos que nunca estão contentes e ilustra o seu comportamento, contando a pa­rábola das crianças caprichosas, que não querem brincar nem ao cortejo nupcial, nem ao cortejo fúnebre, organizados pelos seus amigos. Do mesmo modo, muitos contemporâneos do Mestre não aderiram à pregação austera de João Baptista, dizendo que se tratava duma pregação demasiado exigente e irracional. Ao amor forte e transformador de Jesus, que quer a nossa vida como uma festa de filhos e de irmãos, contrapuseram uma outra opo­sição e desculparam-se, dizendo que era demasiado indulgente, qualificando-O inclusive como «um glutão e um ébrio» (v. 34). Com Jesus, a Sabedoria de Deus indicou amorosamente os seus caminhos, mas os homens não souberam prestar-Lhe atenção, aduzindo como desculpa a sua experiência. Comportaram-se como crianças que, não obstante a sua idade, querem arrogar-se como juizes, ou então como meninos que não querem levantar-se e caminhar dóceis ao Espírito.

DA PALAVRA PARA A VIDA————————————————

Jesus utiliza palavras duras para censurar e sacudir os Seus contemporâneos, ou seja, a nossa geração, cada um de nós.

Ele parte da imagem familiar das crianças, que brincam na praça em grupos. Primeiro procuram imitar umas núpcias e depois querem imitar um funeral, mas àquelas que não que­rem participar no jogo e amuam, nada corre bem. Há só quei­xas, desinteresse e criticas não construtivas.

Depois Jesus faz a aplicação: veio João Baptista que convidava à conversão com uma atitude austera, mas para os chefes de Israel não estava bem, não podia ser inspirado por Deus, e por isso foi acusado inclusive de ter um demónio. Por tudo isso rejeitaram-no. Veio Jesus que anuncia a todos a alegria do Reino de Deus, que vive no meio das pessoas, que aceita convites de pessoas, com as quais as pessoas de bem não ou­sam comer, mas os chefes de Israel decretam que o compor­tamento d’Ele é demasiado condescendente e, por isso, Ele é rejeitado. É maravilhoso ver que Jesus compara a Sua vinda a uma festa de núpcias, compara-Se a alguém que dança e toca: a peculiaridade do Reino de Deus é a alegria, a festa, porque ele é caracterizado pela filiação dada a todos.

Àqueles que não tomam a sério o Seu convite à conversão, que procuram desqualificar a Sua identidade de enviado por Deus, a quantos se mostram difíceis de contentar e prontos a criticar todas as Suas propostas de mudança, a quantos que­rem ensinar a Deus o modo como deve intervir na nossa vida, Jesus diz que a Sabedoria de Deus, isto é, o Seu projecto, é justificado não pelo acolhimento ou rejeição das pessoas, mas pelo facto de que Ele realiza obras maravilhosas de amor.

A página do Evangelho convida-nos a abrir os olhos para ver­mos, antes de mais, as lacunas, as nossas e as da Igreja, mas para ver o Espírito Santo que opera em nós e nela. Temos de agradecer a Deus pela caridade que existe em nós e que con­seguimos exprimir com o Seu auxílio (primeira leitura, anos pares), temos de Lhe agradecer porque na pequenez da Igreja, dos seus sacerdotes, das famílias, dos sacramentos, está em acção «o mistério da piedade», isto é, de Deus que os ama.

Oração

(Colecta, Missa do XXX domingo do Tempo Comum)

Deus eterno e omnipotente, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade: e para merecermos alcançar o que prometeis, fazei-nos amar o que mandais.

 

QUINTA-FEIRA

PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares)____________________ ITm  4,12-16

Tem cuidado contigo e com o teu ensino: assim salvar-te-ás a ti e àqueles que te ouvem.

Ler a Palavra

Paulo retrata o modelo do responsável da comunidade. No centro do seu serviço ele deve colocar a Palavra de Deus, lida e ouvida pessoalmente e depois explicada assiduamente. Deve de­pois amparar a caminhada dos irmãos com o seu exemplo, que se articula em falar com amor fraterno, na fidelidade e na pureza. Por isso é chamado a vigiar, antes de mais, não sobre os que estão fora ou sobre os que estão dentro das Igreja, mas sobre si mesmo e sobre o seu ensinamento. A fonte do seu ensinamento está no dom espiritual, recebido de Deus na ordenação, mediante a ora­ção e a imposição das mãos do colégio dos presbíteros.

Compreender a Palavra

Paulo dirige a Timóteo uma advertência que é importante para todos, sacerdotes ou leigos. «Não descuides o dom espiritual que recebeste e te foi concedido.» (v. 14) O Apóstolo está consciente de que a graça do Baptismo, do presbiterado pode esmorecer em quem a recebe, pode perder a sua luminosidade, pode não ser notada na sua força.

Uma das razões da exortação contida na Carta é provavel­mente a solidão em que se encontra Timóteo: depois da partida de Paulo, ele experimenta o peso das decisões que deve tomar, a fadiga da responsabilidade, a ausência de quem pode aconselhá- -lo. Uma outra razão pode ser o facto de se sentir inadequado, demasiado jovem para a missão que lhe foi confiada e que de­sempenha numa situação difícil, entre dificuldades não previstas.

Uma terceira razão pode ser a negligência na sua vida espiritual, um desleixo na oração e na escuta da Palavra de Deus.

Paulo recorda que é possível sair de uma situação de tibieza e renovar o dom recebido. Para atiçar o fogo interior, o Apóstolo propõe a Timóteo três compromissos: «consagrar-se à proclama­ção da Escritura, à exortação e ao ensino.» (v. 13)

SALMO RESPONSORIAL_____________________________ Sl  110,7-10

A Lei pertence às grandes obras do Senhor, como a libertação do Egipto e o dom da Aliança. A verdadeira sabedoria de Israel é o temor de Deus, que consiste por um lado em reconhecer jhwh como Pai, no assombro pela Sua grandeza, e por outro no desejo íntimo de Lhe agradar, de permanecer debaixo do Seu olhar com confiança sincera. Quem se regula segundo este temor, será sem­pre iluminado interiormente.

PRIMEIRA LEITURA (anos pares)_____________________ ICor  15,1-11

É assim que pregamos e foi assim que acreditastes.

Ler a Palavra

Num estilo solene e ao mesmo tempo familiar (os destinatá­rios são chamados de «irmãos», v. 1), Paulo proclama o conteúdo essencial do anúncio cristão que ele transmitiu e que os cristãos de Corinto acolheram. Esse anúncio diz respeito a uma Pessoa, a um facto acontecido: Jesus Cristo, morto pelos nossos pecados segundo as Escrituras e sepultado, ressuscitou ao terceiro dia se­gundo as Escrituras, e apareceu a Cefas e aos Doze. Nesta con­fissão o acento recai sobre a ressurreição, sublinhada através da menção de uma série de aparições do Ressuscitado.

Compreender a Palavra

Paulo tinha sido informado de que em Corinto alguns cristãos tinham dúvidas sobre a modalidade da ressurreição dos mortos: isto significa que eles não sabiam tirar as devidas ilações da res-

368 U-.CUONÁIUO COMEN IA DO surreição de Jesus Cristo. O Apóstolo, então, reafirma o núcleo essencial do anúncio cristão.

O primeiro pólo da fé em Cristo é a Sua morte, que teve como fruto a libertação dos homens do pecado e a sua reconciliação com Deus: essa morte é conforme às Escrituras, corresponde ao desígnio de Deus, muitas vezes anunciado no Antigo Testamento. A sepultura de Jesus certifica que a sua morte foi real. O segundo pólo da profissão de fé cristã, que Paulo recebeu e anunciou, e que foi acolhido pelos fiéis de Corinto, é a ressurreição de Jesus Cristo, também preanunciada de muitos modos nas Sagradas Escrituras. Ela é confirmada por uma série de testemunhas credíveis: Cefas; os Doze; mais de quinhentos irmãos; Tiago; todos os Apóstolos e o próprio Paulo.

Pela graça de Deus, Paulo teve a vocação de se tornar Apósto­lo, precisamente a seguir ao encontro com Jesus ressuscitado. Este conferiu-lhe a autoridade e a missão de ser Sua testemunha, em sintonia com os outros Apóstolos.

SALMO RESPONSORIAL___________________ Sl 117,1-2.16-17.28-29

O Salmo 117 é uma liturgia de acção de graças: a assembleia é convidada a louvar a uma só voz o amor fiel de Deus. Com a Sua destra poderosa e amiga, o Senhor é capaz de libertar da morte e, portanto, do medo da morte. Esta libertação realizou-a Ele na ressurreição de Jesus. Nós, filhos da Páscoa, somos por isso cha­mados pessoalmente a agradecer a Deus e a glorificáTO.

EVANGELHO________________________________________ Lc_ 7,36-50

São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou.

Ler a Palavra

Esta página do Evangelho descreve uma conversão que pode parecer um pouco anómala: a protagonista é uma mulher peca dora, a qual, porém, não confessa os seus pecados, não diz que está arrependida, nem promete deixar de pecar. Todavia, fala elo­

 

quentemente com os seus gestos, e Jesus valoriza o seu afecto. Simão, o fariseu, pelo contrário é rígido, presunçoso, seguro de si, não quer comprometer-se, tem dúvidas acerca de Jesus, aceita-O só parcialmente, não está convencido da sinceridade da pecado­ra. Jesus ama-o também a ele e quer curá-lo. A mulher pecou, mas é louvada pelo Mestre, porque ao deixar-se amar por Jesus, e o seu grande amor, causa uma reviravolta na sua vida.

Compreender a Palavra

O amor de Deus precede todas as nossas respostas. Um fa­riseu convida Jesus para uma refeição com uma atitude de sus- peição, ou, pelo menos, de curiosidade superficial, convencido de que conhece a Deus suficientemente e portanto não precisa de conversão. Durante a refeição apresenta-se espontaneamente uma mulher não convidada: ela viu em Jesus alguém que a ama, que Se dá desinteressadamente e por isso vem oferecer-Lhe o seu reconhecimento mediante perfumes, lágrimas e beijos. O fariseu vê ambiguidade nesses gestos, feitos por uma pecadora e aceites pelo Mestre, e julga mal quer Jesus quer a mulher.

Com uma breve parábola, o Senhor dá-lhe a entender que Deus ama a todos: todos são devedores para com Ele e Ele ofere­ce a todos o Seu perdão. O fariseu não admite ser amado gratui­tamente e ser devedor, ou porque pensa que mereceu o amor de Deus ou porque acha que tudo na sua vida está certo; a mulher, pelo contrário, sabe que é pecadora amada e perdoada, e por isso vence todo o receio e exprime ao enviado de Deus o seu amor reconhecido. O amor de Deus, acolhido com gratidão, faz dela uma pessoa salva.

DA PALAVRA PARA A VIDA————————————————

Depois do episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17), Lucas completa o significado do título de «pro­feta», atribuído a Jesus nessa ocasião, descrevendo um ban­quete durante o qual o Mestre vê a Sua capacidade de profeta

autêntico ser contestada pelo simples facto de não reconhe­cer uma mulher como pecadora, e deixar inclusive que ela O toque, e Lhe perfume e beije os pés. Para o fariseu Simão, o ensino e os gestos poderosos de Jesus manifestam que Ele é um profeta, mas outras circunstâncias, como a Sua atitude demasiado acolhedora para com uma pecadora, colocam ir­remediavelmente em questão este Seu título.

Em ambos os episódios, tanto em Naim como na casa do fari­seu Simão, Jesus encontra duas mulheres: ambas choram, mas por motivos diferentes. À primeira diz que não chore mais (cf. Lc 7,13), mas não impede o choro da segunda, talvez por­que a mulher na casa de Simão chora de alegria ou porque se sente acolhida por Jesus.

Lucas uniu assim os dois episódios para nos dar a entender uma analogia. Jesus em Naim foi reconhecido como profeta, rico de compaixão para com uma viúva, enquanto soube tocar e vencer a morte física do filho dela; com o encontro na casa de Simão, o evangelista quer dizer-nos que Jesus, precisamen­te porque é profeta, deixa-Se tocar pelos pecadores, é capaz de vencer com a Sua compaixão também uma outra morte: a morte espiritual do pecado e da marginalização. Ele é profeta porque é capaz de conceder a ressurreição física, mas sobre­tudo porque concede a ressurreição espiritual, com o perdão dos pecados. As mortes piores, embora por vezes não pare­çam, são as do espírito, e Jesus é profeta porque veio dar a vida também nessas situações. O reconhecimento de Jesus como profeta deve incluir duas séries de sinais: a cura dos doentes e a ressurreição da morte física, o perdão e a ressurreição espi­ritual, concedidos generosamente aos pecadores.

Na Eucaristia celebramos o amor do Senhor por nós, o Seu perdão; por nosso lado somos chamados a não descurar o dom espiritual da filiação divina que está em nós (primeira leitura, anos impares), a entregarmo-nos a Deus com grati­dão, alegria, desembaraço, liberdade de coração.

 

Oração

Senhor Deus,

que não Vos cansais de usar de misericórdia para connosco,

concedei-nos um coração penitente e fiel

que saiba corresponder ao Vosso amor de Pai,

para que difundamos ao longo dos caminhos do mundo

a mensagem da reconciliação e da paz.

372 I ECCIONÁRIO COMEN IA D O

 

SEXTA-FEIRA

1 Tm 6,2c- 12

PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares)

Mas tu, homem de Deus, pratica a justiça.

Ler a Palavra

Polemizando contra os hereges, Paulo propõe o perfil do pas tor ou do catequista que «segue as palavras salutares» (v. 3): e pre­ciso que evite o orgulho, do qual nascem as invejas e os litígios; deve viver na sobriedade, na moderação, guardando-se de fazer da religião um negócio económico; o amor do dinheiro, elevado a idolatria, é «a raiz de todos os males» (v. 10). Timóteo deve tender para o verdadeiro bem, descrito com seis virtudes: «justiça, pie­dade, fé, caridade, perseverança, mansidão.» (Cf. v. 11)

Compreender a Palavra

As «palavras salutares» e a «doutrina conforme à piedade» (cf. v. 3) consistem em reconhecer a gratuidade de Deus, que nos ama e nos perdoa por puro amor. Quem não acolhe isto, não é capaz de gratuidade. Na raiz dos comportamentos negativos que perturbam a vida da comunidade («invejas, discórdias, insultos, suspeitas malévolas, altercações», v. 4) está a falta de gratuida­de, servir-se do Evangelho como fonte de lucro ou de prestígio. Este desvio foi frequente na Igreja e deu origem a muitos males: a avidez de dinheiro e de prestígio leva à ruína pessoas, famílias e nações. Não podemos prescindir do dinheiro, mas devemos pe­dir a Deus que liberte o nosso coração do apego à riqueza e ao orgulho. Só assim podemos tender para a «justiça, a piedade, a fé, a caridade, a perseverança, a mansidão» (v. 11).

É particularmente decisiva a imagem desportiva que exorta a combater «o bom combate da fé» (v. 12): o cristão vive sempre numa situação de luta, mas pode entrar nela com a certeza de que Jesus venceu e lhe comunica a Sua vitória.

SALMO RESPONSORIAL                                                  Sl   48,6-10.17-20

O rico que se gloria do dinheiro, e não do Senhor, é tolo. O bem mais precioso é a vida, mas não há riqueza que a possa assegurar para sempre: nenhuma soma de dinheiro pode bastar para romper a barreira da morte. Por isso quem se gaba das suas riquezas não deve ser invejado: para ele não brilha a luz da espe­rança para alem da morte. O pobre não deve temer porque Deus esta disposto a resgatar para sempre a sua vida

PRIMEIRA LEITURA (anos pares) ____________________  ICor_ 15,12-20

Se Cristo não ressuscitou, é inútil a vossa fé.

Ler a Palavra

Negar a nossa ressurreição significa desmentir o coração do anuncio cristão, que está centrado na ressurreição de Jesus. Em virtude da profunda união do Filho de Deus connosco, a Sua res­surreição garante a nossa. Jesus é «as primícias» dos ressuscitados: primícias quer dizer os primeiros frutos da colheita, que são ao mesmo tempo garantia da colheita sucessiva. A fé na ressurreição de Cristo liberta-nos do pecado e do medo da morte, estimula- nos a avançar no caminho da libertação do homem.

Compreender a Palavra

Paulo admira-se que alguns cristãos, depois de terem acredi­tado que Jesus ressuscitou, possam negar a ressurreição dos mor­tos. Por isso afirma vigorosamente a ligação entre a ressurreição de Cristo e a nossa: se não há ressurreição dos mortos, então não houve tambem a ressurreição de Cristo; se Deus não tem o po­der de ressuscitar os mortos, também não o teve para ressuscitar Jesus Cristo.

Mas a ressurreição do Filho de Deus existiu: é testemunhada pela pregação dos Apóstolos, que não são testemunhas falsas, é aceite pela fé da Igreja e é por isso garantia da nossa libertação

374 I ECCIONÁRIO comentado dos pecados. De facto, só porque ressuscitou, Jesus pode dar nos a Sua vida filial. A salvação do homem é plena, abraça toda a sua pessoa, incluindo o corpo. Aqui está o fundamento da nossa es perança. Com a imagem das primícias, Paulo afirma que Deus estabeleceu que Jesus é a origem da Humanidade salva e chamada à vida divina. O amor do Pai que ressuscitou o seu Filho continua actuante em toda a nossa vida, no momento da nossa morte e para além da nossa morte.

SALMO RESPONSORIAL                                                      Sl   16,1.6-8.15

O auxílio só pode vir do Senhor. Ele está disposto a escutar­mos e a salvar-nos de todos os inimigos, mesmo da morte; Ele mantém-nos sempre numa relação de amizade com Ele e nós po deremos um dia contemplar a sua Face com toda a nossa pessoa. Nestas palavras confiantes os cristãos viram uma referência à res surreição de Jesus e à nossa.

EVANGELHO_________________________________________ Lc  8,1-3

Algumas mulheres ajudavam Jesus e os discípulos com os seus bens.

Ler a Palavra

Jesus é o Filho de Deus que percorre os percursos dos homens e caminha com eles. Algumas mulheres, que se sentiam com preendidas, amadas e perdoadas por Ele, corresponderam Lhe tornando-se Suas discípulas, seguindo-O com fidelidade ate à Cruz. Colaboraram no Seu serviço, colocando os seus bens à Sua disposição. Na manhã de Páscoa foram as primeiras a receber o anúncio da Sua ressurreição. A Igreja nascente e constituída por homens e mulheres, todos amados e perdoados, todos partici pantes do anúncio do Reino, todos chamados a prolongar o ser viço de Jesus, embora com modalidades diferentes.

 

Compreender a Palavra

Jesus submeteu-Se à continua fadiga de percorrer cidades e aldeias, pregando o Evangelho Não estava sozinho, tinha cola­boradores consigo: os Doze, as futuras testemunhas oficiais que, estando com o Mestre, se tornaram capazes de transmitir a Sua vida.

O Evangelho de hoje recorda-nos que com Jesus estavam tam­bém algumas mulheres: precisa que tinham sido curadas ante­riormente e que com os seus bens providenciavam às necessida­des d’Ele e dos Apóstolos. Era surpreendente para aquele tempo ver um profeta ou um rabino acompanhado por homens e por mulheres, mas isso acontecia com Jesus, constituindo por isso os aspectos fundamentais da vida eclesial: o serviço da Palavra e o serviço da assistência, desempenhados por homens e mulheres.

A menção das mulheres na vida pública de Cristo recorda­mos como elas são sempre necessárias e valiosas na Igreja. João Paulo II na Encíclica Mulieris Dignitatem insistiu na dignidade e na importância da mulher na Igreja e convida-nos a valorizar o carisma feminino nas nossas comunidades, a aprofundar a mis­são feminina como ponto fulcral dos problemas que vivemos.

DA PALAVRA PARA A VIDA————————————————

Lucas sublinha diversas vezes a atenção delicada do Senhor para com as mulheres, a ponto de alguém definir o seu escrito «o Evangelho no feminino», o Evangelho que exalta a mulher pela sua feminilidade e pela sua maternidade, pela sua capa­cidade de relacionamentos pessoais e de dedicação. Nesta se­mana, por três vezes, a liturgia apresenta-nos o encontro do Mestre com as mulheres (Lc 7,11-17; 36-50; 8,1-3).

No Evangelho de hoje, o destaque acerca de «algumas mulhe­res» que acompanham o Salvador no anúncio da «boa nova do reino de Deus» (Lc 8,1-2) manifesta como é impossível pòr limites à mensagem de Cristo e à sua Pessoa. Ninguém deve ser posto de lado, por nenhuma razão cultual, social, se­xual ou religiosa (cf. Gl 3,28). Além disso, Lucas nota que estas discípulas provinham de um passado cultural e social­mente discutível: «tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades.» (Lc 8,2) Em relação a elas, Jesus tinha desempenhado uma actividade exorcista ou terapêutica in­tensa, relacionada com uma enfermidade bastante grave, porventura ligada a sofrimentos psíquicos. O facto de serem mencionados alguns nomes demonstra que se tratavam de pessoas conhecidas, equiparadas aos Doze, no que diz respei­to à escuta da Palavra e ao acompanhamento do Mestre nas Suas caminhadas.

Estas mulheres receberam a saúde física e espiritual, com­preenderam a dignidade da sua vida, começaram a caminhar na esperança, dedicando-se a Jesus e aos Apóstolos, mesmo com os seus recursos materiais («serviam Jesus e os discípulos com os seus bens», Lc 8,3). Não consideram a religião como fonte de lucro ou de prestígio (primeira leitura, anos pares), mas como serviço. Lucas diz que o Mestre dependia do au­xílio delas e, na manhã de Páscoa, isto tomará uma nova for­ma, passando do aspecto material para o primeiro anúncio da ressurreição do Senhor (cf. Lc 24,1-11): aos pés da Cruz e na manhã da ressurreição, a fé e a função das mulheres voltam a evidenciar-se plenamente.

Oração

(Colecta, XXIX domingo do Tempo Comum)

Deus eterno e omnipotente, dai-nos a graça

de consagrarmos sempre ao Vosso serviço a dedicação da nossa vontade e a sinceridade do nosso coração

SÁBADO

PRIMEIRA LEITURA (anos ímpares)____________________ ITm 6,13-16

Guarda este mandamento, até à aparição do Senhor.

Ler a Palavra

O responsável da comunidade, como de resto qualquer cris­tão, é chamado a viver o seu compromisso de fidelidade total a Deus Pai durante toda a vida; até à aparição de Jesus e à Sua ma­nifestação final.

Para manter viva essa fidelidade, Paulo conclui a Primeira Carta a Timóteo com uma doxologia, composta por sete versos que recordam a doxologia inicial, mais breve (cf. ITm 1,17): nela celebra o senhorio único e universal de Deus, a Sua plenitude de vida e de luminosidade. A Ele devem ser atribuídos a honra e o poder.

Compreender a Palavra

Paulo ordena solenemente a Timóteo que «guarde o manda­mento do Senhor sem mancha e acima de toda a censura» (v. 14). Com esta expressão indica as responsabilidades do serviço que Timóteo deve exercer perante uma comunidade nem sempre fá­cil, e o compromisso de permanecer fiel à doutrina da gratuidade absoluta do dom de Deus e da Sua misericórdia sem limites, que salva e vem ao nosso encontro, mesmo no nosso pecado. Paulo adverte-o que coloque toda a sua vida à disposição do Senhor e mantenha firme a sua fidelidade no serviço, em qualquer circuns­tância, mesmo perante um eventual martírio. Todos somos cha­mados a perseverar no amor de Deus e a comprometermo-nos na Igreja e no mundo, até ao momento em que Jesus Se manifestar plenamente.

A doxologia final, que pode ter sido composta antes da Carta, proclama a grandeza de Deus: o nosso coração é elevado até ao Deus invisível e misterioso, o qual, no entanto, continua presente na nossa vida.

SALMO RESPONSORIAL                                                               Sl  99,2-5

Poder experimentar que somos filhos de um Deus bom, mise­ricordioso e fiel é para nós motivo de alegria, de acção de graças e, por consequência, torna-se fundamento de uma resposta feita de serviço. O serviço é o modo mais adequado para mostrarmos ao Senhor o nosso amor, e exprime-se quer na liturgia quer na vida de cada dia, passada na obediência a Deus e no empenho pela justiça.

PRIMEIRA LEITURA (anos pares)_____________ ICor 15,35-37.42-49

Assim como trazemos em nós a imagem do homem terreno, procuremos também trazer em nós a imagem do homem celeste.

Ler a Palavra

Os cristãos de Corinto perguntavam-se: o que é que acontece depois da morte? Com que corpo ressuscitaremos? Paulo respon­de que a pessoa humana, na sua totalidade, está a caminho para a sua realização: se Cristo é vencedor da morte, também nós par­ticiparemos na Sua vitória com a totalidade do nosso ser. Paulo não sabe como acontecerá para nós o despertar da ressurreição, por isso recorre à analogia da semente: Deus dá a cada semente semeada um corpo que lhe corresponde. Assim também o nosso corpo mortal se tornará incorruptível, glorioso, forte, plenamente transformado pelo Espírito.

Compreender a Palavra

Nós acreditamos que o nosso corpo está destinado a partici­par na glória de Jesus ressuscitado. Pela fé tornamo-nos seme lhantes à «imagem do homem celeste» (v. 49), a Cristo ressusci- tado: acreditamos que o dom da vida filial chegará à plenitude com a nossa ressurreição. Não sabemos como será o nosso corpo ressuscitado. Se o soubéssemos, quereria dizer que essa transfor­mação não seria tão radicalmente nova e divinizada como nos foi prometido. Paulo utiliza a imagem da semente para dizer que ressuscitaremos através da morte e que a ressurreição será uma passagem do estado germinal para o do pleno desenvolvimento. A transformação do «corpo natural» (v. 43a), isto é, frágil, presa do pecado e da morte, para «corpo espiritual» (v. 43b), ou seja, vivificado pelo Espírito, dá-se por obra de Jesus Cristo. O primei­ro Adào transmite so a vida natural; além disso, polarizou em seu redor a Humanidade e arrastou-a para o pecado e para a morte. Cristo, novo Adão, tem uma força maior; é «espírito que dá vida» (v. 45); é a fonte do Espírito, que se torna nos crentes libertação do pecado; capacidade de viver de um modo novo; garantia da ressurreição futura.

SALMO RESPONSORIAL___________________________ Sl   55,9.10-14

O retrato mais verdadeiro de Deus e o que diz que Ele está junto de nós, está do nosso lado. Com esta certeza é possível ul­trapassar o medo e saborear já a derrota do último inimigo, que é a morte. A confiança no Senhor leva à acção de graças e permite caminhar diante da sua Face com segurança, à luz da vida.

EVANGELHO_________________________________________ Lc  8,4-15

A semente que caiu em boa terra são aqueles

que conservam a palavra e dão fruto pela sua perseverança.

Ler a Palavra

Jesus ensinava por parábolas, porque sabia que o mistério de Deus e o mistério do homem permanecem indizíveis, e só nos podemos aproximar deles gradualmente, respeitando-lhes a sua qualidade de insondáveis e pedindo para termos sempre maior luz.

 

Com a parábola do semeador, da semente e dos terrenos semeados, Jesus diz-nos que Deus, mediante o seu Filho, fala abundantemente a todos os homens e que a sua Palavra é vital. Precisamente porque é divina não se impõe, respeita a liberdade, pede para ser acolhida continuamente. Em quem não a acolhe, torna-se estéril; em quem a acolhe torna-se frutuosa de forma inimaginável.

Compreender a Palavra

Esta parábola foi dita por Jesus não no começo do Seu mi­nistério, mas quando as pessoas, atraídas pelos sinais que reali­zava, começavam a interrogar-se: como é que a Palavra de Jesus não obtém o fruto que tínhamos esperado? Como é que muitos não O seguem? É a nossa pergunta de hoje: porque é que o Evan­gelho não nos muda a nós mesmos e ao mundo? Porque é que a Igreja não é muito escutada? Porque é que há tanta violência, tanta injustiça?

Jesus responde que a sua Palavra é boa, é forte, é capaz de dar a salvação, mas nem todos a acolhem no modo devido. Há quem a acolha superficialmente e logo a esquece. Há quem a acolha com alegria, mas, «quando chega a provação» (cf. v. 13) logo se cansa. Há quem, depois de ter escutado a Palavra, se deixa transviar pelo dinheiro, pelo sucesso, por tudo o que constitui o que é do mun do. A parábola é narrada por Jesus especialmente para sublinhar que a Palavra de Deus é eficaz e, quando é acolhida e conservada com coração generoso, produz fruto inesperado.

DA PALAVRA PARA A VIDA

A parábola que Jesus narra no Evangelho convida-nos a re­flectir sobre três realidades: o semeador, a semente e a terra.

O Senhor coloca assim em evidência o sentido da Sua vida, a estrutura da nossa vida, do Reino de Deus e da História.

O semeador é Deus, é o próprio Jesus. Este conhece bem o Seu ofício, conhece o valor da semente, mas lança a Sua semente

XXIV SEMANA DO TEMI’0 COMUM 1381

por toda a parte, com generosidade, mesmo nos lugares mais estéreis, a ponto de parecer inexperiente, esbanjador. Inclina- -Se sobre cada pessoa com infinita misericórdia, ama cada homem, é paciente e espera os ritmos lentos. Lança a semen­te, não quer criar pessoas, sociedades ou famílias já perfeitas. Semeia com abundância em todos os terrenos, porque quer que todos sejam salvos. Um outro protagonista da parábola é a semente, ou seja, a Palavra de Deus. É feita de verdade, de luz, embora não desvende totalmente o mistério; é feita sobretudo de força, de vida. Finalmente temos o terreno: este representa o coração do homem e diz-nos que a História é feita de colaboração entre o Criador e a Sua criatura.

A Palavra de Deus é para o terreno humano: cruza as aspira­ções do homem, os seus problemas, pecados, esperanças, ne­cessidades de realização espacial e social. A Palavra semeada é pisada, sufocada, esbanjada, mas onde é acolhida dá resulta­dos excepcionais. Não opera segundo as categorias da eficiên­cia imediata, mas supõe o mistério do diálogo; não transfor­ma milagrosamente os terrenos, tornando-os imediatamente acolhedores e frutuosos, mas deixa ao homem a liberdade de se abrir ou de se fechar.

A Palavra de Deus tem uma fraqueza própria, que na realida­de é o sinal da sua grandeza e da sua verdade: o respeito pela liberdade do homem. As palavras dos homens, pelo contrário, precisamente porque são sempre débeis, muitas vezes querem impor-se, recorrem à violência ou à chantagem, muitas vezes pisam ou reduzem a liberdade. A Palavra de Deus, pelo con­trário, adapta-se às condições do terreno, aceita as respostas que o terreno lhe dá, mesmo que no início sejam negativas ou parciais. Não se pode forçar o homem ao bem, mas da abun­dante semeadura da Palavra é possível esperar fruto, porque ninguém é impenetrável à sua força.

Vale a pena semear com confiança, para que cada um possa encontrar a verdade de si mesmo, a sua autenticidade, a sua esperança. É sobretudo belo acolher a Palavra de Deus para tornar-se espiga para a própria alegria, para a alegria de Deus e para a fome dos homens.

 

Oração

Aumentai em nós, ó Pai, com o poder do vosso Espírito a disponibilidade para acolhermos o germe da vossa Palavra,

que continuais a semear nos sulcos da Humanidade, para que frutifique em obras de justiça e de paz e revele ao mundo a feliz esperança do vosso Reino.

 

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano A

PRIMEIRA LEITURA____________________________________ Is 55,6-9

Os Meus pensamentos não são os vossos.

Ler a Palavra

Estes versículos constituem o epílogo do Livro do Segundo Isaías (caps. 40-55), profeta na Babilónia entre 550 a. C. e o final do exílio. Tal como a narração começara mediante um convite à consolação (cf. Is 40), assim conclui com uma exortação a «pro­curar o Senhor» (v. 6). Os caminhos e os projectos de Deus não são os nossos (w. 8-9): ao leitor não escapa esta mensagem, cen­tro doutrinal do livro.

Compreender a Palavra

O profeta parece indicar no pecado a causa da distância entre nós e o Senhor (v. 7a). Ele continua porém a afirmar que esta diferença não é inultrapassável, porque o Senhor «generoso em perdoar» (cf. v. 7b), Se torna tão mais próximo e fácil de encon­trar quanto mais o homem abandona o seu pecado.

«Os Meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos cami­nhos são os Meus.» (v. 8) Esta afirmação não é de modo nenhum desanimadora, antes ressoa para cada um como um convite calo­roso e premente a que nos tornemos investigadores do projecto di­vino, a que preenchamos – mediante a prática das Suas palavras – a distância que providencialmente nos separa. É de facto a Pala­vra de Deus que nos chama e motiva ao irrenunciável processo

384 I i rcciONÁiuo comentado da conversão, mediante o qual, submetendo-nos à vontade do Senhor na obediência, podemos adquirir gradualmente na nossa vida as feições de Cristo. Devemos aceitar de boa vontade a dife­rença que existe entre nós e Deus: ela garantir-nos-á a possibili dade de não nos enganarmos, reduzindo o Senhor à medida dos nossos pensamentos, e renovará a nossa necessidade de tensão para Ele.

SALMO RESPONSORIAL____________________ Sl     144,2-3.8-9.17-18

Deste longo salmo alfabético, a liturgia de hoje escolheu al­guns versículos significativos, como eco da advertência de Isaías: «Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar!» (Is 55,6; cf. v. 18 do salmo) As estrofes são um louvor a Deus, aqui des­crito nos Seus atributos salvificos mais qualificadores, como a «clemência» (cf. v. 8) e a grandeza da Sua «bondade» (cf. v. 9), a «justiça» e a santidade em todas as Suas obras (v. 17).

SEGUNDA LEITURA                                                          Fl  1,20c   24.27a

Para mim, viver é Cristo.

Ler a Palavra

Os cristãos de Filipos, cidade da Macedónia visitada a primei ra vez por Paulo no final dos anos 50, são os destinatários desta Carta. O Apóstolo, que escreve no tempo da sua prisão, confessa -lhes os sentimentos que traz na alma. O desejo de se reunir a Cristo, posto em confronto com o convencimento de que a sua vida ainda é útil para o bem dos irmãos, cria nele uma situação de embaraço (w. 20-26). No versículo 27 a advertência é dirigi­da à Igreja, para que se mantenha fiel ao Evangelho que lhe foi anunciado.

 

Compreender a Palavra

Oxalá pudéssemos também nós alcançar essa profunda liber­dade interior que leva Paulo a acolher, seja qual for o modo como se manifeste e mau grado os seus desejos, a vontade de Deus, que o faz exclamar: «Cristo será glorificado no meu corpo, quer eu viva quer eu morra.» (v. 20)

«Aquilo que Deus quer» e «aquilo que eu quero»: é o combate que cada dia nos interpela e temos de travar com fé, prestando atenção a não o considerar como obstáculo à vida espiritual, mas pelo contrário, como uma ocasião de amadurecer a nossa confor­midade a Cristo, uma ocasião a mais que temos para podermos unir-nos ao precioso acto de amor com o qual o Senhor Jesus, aceitando a vontade do Pai, ofereceu a Sua vida por nós.

EVANGELHO______________________________________ Mt   20,l-16a

Serão maus os teus olhos porque eu sou bom?

Ler a Palavra

A parábola conclui o ensinamento de Jesus na Judeia. A partir daqui Ele começa a subida para Jerusalém. Mateus coloca o epi­sódio no contexto dos ensinamentos sobre a recompensa prome­tida a todos os que seguem o Mestre. A par da narração devem considerar-se as críticas movidas a Jesus pelos Seus adversários, quando Ele procurava e privilegiava os pecadores e os últimos, representados no Evangelho de hoje pelos operários da última hora. O Mestre expõe os motivos da Sua actuação com uma pa­rábola.

Compreender a Palavra

Jesus compara o «reino dos Céus» ao comportamento de um proprietário que «contrata trabalhadores para a sua vinha» (v. 1). Trata-se certamente de um fornecedor de trabalho original, diferente dos colegas, já que a sua actuação quebra as regras da

386 i eccionArio comen i \do retribuição proporciona] ao trabalho prestado. Do mesmo modo, o comportamento de Jesus, que acolhe os últimos tal como os pri meiros, mostra que o dom dos benefícios divinos é unicamente proporcional à misericórdia e ao amor de Deus.

Que o nosso modo de pensar não é realmente semelhante ao de Deus está bem expresso pelos sentimentos que esta parábola suscita em nós, a ponto de, imediatamente, nos levar a tachar a Deus de injusto. E no entanto, a história dos operários contrata dos pelo «senhor da vinha», símbolo bíblico do Senhor à frente do seu Povo, sublinha uma vez mais a necessidade da nossa con­versão, para conseguirmos separar nos de um modo demasiado humano de ver as coisas.

Abandonemos as nossas perspectivas limitadas, o espírito de lucro, que aplicamos inclusive ao nosso relacionamento com o Senhor, e partilhemos sobretudo da alegria que Deus experi­menta ao recompensar os últimos tal como os primeiros. O que conta, e nisto também o nosso coração devia arder, como ardia o coração de Cristo, é que todos entrem a fazer parte do Povo de Deus, herdeiros da salvação. Por fim, não nos escandalizemos facilmente; não esqueçamos que, chegados entre os primeiros ou entre os últimos, somos todos, do mesmo modo, «servos inúteis» (Lc 17,10).

DA PALAVRA PARA A VIDA————————————————

A nós, que estamos habituados a um sistema em que a retri­buição é proporcional à prestação realizada, o ensinamento de Jesus exposto no Evangelho de hoje causa problemas. Para que serve esforçar-se durante toda a vida pelas coisas do «rei­no», classicamente simbolizado na imagem da «vinha», quan­do depois os últimos a chegar serão recompensados como os que se dedicaram a ele durante longo tempo? Como o nos­so pensamento está longe do Vosso, Senhor! Diante disto, e aquilo a que ainda o ensinamento da parábola nos apela, é evidentemente a urgência de uma conversão que nos separe de pontos de vista demasiado humanos e nos dê, ao invés,

\\\ DOMINGO DO TEMPO COMUM 387

 

os olhos da fé, ou seja, os do Espírito Santo, para podermos ver as coisas deste mundo segundo a perspectiva de Deus. A «economia» do Reino de Deus está absolutamente centrada na dádiva para todos e na preocupação única de que todos possam vir a fazer parte dele.

Verifiquemos outros aspectos desta rica narração. Reflicta­mos antes de mais sobre o diálogo entre o proprietário e os operários da última hora: «Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar? Eles responderam-lhe: Ninguém nos contratou.» (Mt 20,6-7) É uma resposta inquietante e que nos abrange, no que toca ao nosso sentido missionário, ou seja, como nos esforçamos para que todos venham a fazer parte do Reino? O coração de Cristo arde de interesse por isso, como prova o facto de que com o último grupo de operários o proprietário não estabelece nenhum pagamento: eles ficam assim à mer­cê da sua benevolência. O desejo é que todos devem partici­par da salvação! Tendo em conta a narração, não parece que a Jesus interessem os méritos, mas antes a alegria de poder recompensá-los gratuitamente.

Isto é que constitui o segundo, mas central, movimento da pa­rábola: um desafio a alegrarmo-nos por aqueles que, embora no último momento, puderam gozar de estar ao serviço do proprietário da vinha, realizando assim o objectivo das suas vidas. O comportamento do proprietário da vinha mostra­mos com clareza quem é Deus para nós: somente amor por todos! É inútil então questionarmo-nos sobre precedências e sobre direitos; é inútil murmurar; é inútil sermos «invejosos». Precisamente com um apelo contra aquele sentimento de in­veja com o qual se conclui a parábola (Mt 20,13-16).

O nosso coração torna-se invejoso quando julga que os dons que recebeu de Deus são para nosso uso e consumo, ou pior, são para exigir direitos maiores. Agindo desta forma não per­cebemos que nos fechamos ao Seu amor, porque não aceita­mos que o Senhor pode e quer amar a todos e, em particular, os últimos, aqueles que por muitos motivos não puderam aproximar-se d’Ele com aquela serenidade e largos tempos de que muitos de nós puderam usufruir. Acaso por isso deve-

 

ríamos lamentar-nos, por termos podido ter a alegria de nos aproximarmos do Senhor, e de poder servi-1’0 muito tempo? Alegremo-nos, antes, e rezemos para que Deus possa acolher a todos no interior do seu Povo e do seu Reino.

Oração

Pai Santo, justo e grande,

ao recompensardes o último como ao primeiro,

os Vossos caminhos estão muito longe

dos nossos caminhos

como o Céu está longe da Terra:

abri o nosso coração à compreensão

das palavras do vosso Filho,

para que compreendamos a honra impagável

de trabalharmos na Vossa vinha desde a manhã.

 

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano B

PRIMEIRA LEITURA_______________________________ Sb_ 2,12.17-20

Condenemo-lo à morte infame.

Ler a Palavra

Este trecho sapiencial faz parte de uma reflexão mais ampla (cf. Sb 2), que tem por protagonistas os «ímpios». Nele mostra- -se evidente a sua falta de Sabedoria (Sb 2,1) e «miopia» (2,21). O motivo da sua rejeição total do «justo» consiste no facto de que este, com a sua vida e em particular com a sua «mansidão» (v. 19), é para os ímpios uma «repreensão» contínua e, consequentemen­te, uma condenação do seu agir (v. 12).

Compreender a Palavra

Não é fácil de adivinhar a situação ambiental e histórica desta passagem. Todavia, não estamos muito longe da verdade quando pensamos num território da diáspora judaica, ou então do exílio, e portanto na presença do hebreu piedoso, num ambiente onde a voz dos pagãos era forte ou, eventualmente, também de Judeus que tinham abandonado a fe primitiva.

Estamos perante a tentativa de sempre, e por isso actuada por aqueles que querem tornar os outros como eles. A visão da vida e a morte destas pessoas não tem futuro nem esperança. Os «ímpios» apropriaram-se de um ateísmo prático e chegaram a atribuir a ori­gem do homem ao acaso (cf. Sb 2,2), a sua justiça é ditada pela lei do mais forte (2,10-11). Por isso decidem colocar o «justo» à «prova» e persegui-lo (v. 19), porque vive a Torá, Palavra do Senhor, porque a sua vida e as suas palavras são uma «repreensão» contínua do seu comportamento (v. 12). Dizem com ironia e desprezo que querem «ver» e «observar» se Deus cumpre a sua Palavra (v. 17) e está pronto a «livrá-lo da morte» (w. 18,20). Mas, uma tal argumenta­ção é fruto apenas de ignorância e de arrogância (cf. 2,22)!

Interroguemo-nos: trata-se mesmo de uma «condenação à morte» do «justo»? Provavelmente o autor desta página sapien- cial pretende apresentar um caso emblemático de perseguição, válido em muitas circunstâncias, que já se verificou ou poderia acontecer num futuro não muito distante.

SALMO RESPONSORIAL _____________________    Sl 53,3-6.8

O salmista recorre humildemente ao poder eficaz do «nome» divino (v. 3), isto é, ao próprio Deus, para que o tire da situa­ção difícil em que veio a encontrar-se. Invoca o Senhor (v. 4), enquanto juiz justo e bom, e pede com esperança poder chegar a ter uma sentença favorável contra os seus adversários, «arrogan tes» e «violentos» como são (v. 5)! Ele está certo de sair vencedor, eagradece-Lhe antecipadamente (w. 6,8).

SEGUNDA LEITURA                                                                                   Tc                3,16-4,3

O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz.

Ler a Palavra

Tiago indica alguns comportamentos e atitudes que não se conciliam com a verdadeira sabedoria. E são indicados os seus limites. É sábio aquele que sabe manter uma «boa conduta» (Tg 3,13) e sabe construir ao seu redor relações fraternas e «pací­ficas», de modo a tornar-se capaz de tratar os próprios inimigos com sentimentos de «compreensão», «generosidade» e «miseri­córdia», usando para com todos a medida (sugerida pelo Alto) da «bondade» e da «imparcialidade», «sem hipocrisia» (cf. 3,17-18).

 

Compreender a Palavra

A «sofia» – sabedoria – é descrita e pontualizada com uma sé­rie de oito adjectivos (3,17): pode ser útil confrontá-los com a lista do termo «ágape» – amor, em ICor 13. Alguns deles, é verdade, mostram a origem divina da própria sabedoria: («do Alto», «pura», cf. Sl 12,7 e Sb 7,22 ss.). Diz-se que é sábia a pessoa transparente e sem hipocrisia, que traduz e demonstra a sua fé na vida quotidiana.

A sabedoria depois espelha e manifesta a graça de Deus no coração do homem, mas ao mesmo tempo pede uma resposta reconhecida, enquanto dom «que vem do Alto» (3,17a).

O redactor desta página, saindo a descoberto e dirigindo-se directamente à comunidade cristã, compara os contrastes e as lutas presentes nela, às guerras e aos conflitos que caracterizam as dinâmicas do mundo (4,1a). A este propósito, explicita com aguda intuição psicológica que todas as divisões têm origem na escuta desconsiderada das «paixões» (4,1b), entendidas como de­sejo forte e penetrante de posse e de gozo, assentes como sempre na tentação; e do desejo da auto-suficiência e do egoísmo (4,2). Deste espírito obscurecido e contorcido só podem nascer frutos envenenados, como a cobiça, a violência, a inveja, o rancor, os de­sencontros, os conflitos e até um modo errado de rezar. A situa­ção de fractura que o homem traz na alma, descrita apenas como «paixões que lutam nos seus membros» (4,1a), leva inevitavel­mente a divisões e lutas sem fim, inclusive na comunidade cristã. Nota-se entre as linhas da linguagem de Tiago, ironia, desgosto e um mal-estar evidente pelo que está a acontecer!

EVANGELHO_______________________________________ Mc_ 9,30-37

O Filho do homem vai ser entregue…

Quem quiser ser o primeiro será o servo de todos.

Ler a Palavra

A caminhada da fé não é fácil para os discípulos (cf. Mc 9,6, 22-24). Experimentam-no directamente mais uma vez. En-

392 i fccionAíuo comentado contrando-se a sós com o Mestre, Ele aproveita para continuar a formação deles, voltando ao tema do Messias sofredor (v. 31). A reacção dos Doze é novamente negativa e de rejeição (v. 32), porque percebem que as consequências não correspondem às suas perspectivas de grandeza e de privilégios (w. 33 37).

Compreender a Palavra

Continua o itinerário de Jesus com os Seus Não estamos pe­rante uma simples descrição em sentido geográfico, isto é, uma normal viagem para Jerusalém, mas um percurso com um denso conteúdo teológico. É uma caminhada realizada na plena obe­diência ao Pai, em direcção a esse lugar santo onde se cumprirá a Páscoa, isto é, os mistérios da morte e da ressurreição do Filho do homem. No coração dos discípulos albergam-se ainda a escu ridão e a confusão e, sobretudo, muito medo (v. 32). Começando a perceber a importância dos acontecimentos, eles recusam-se a acolhê-los.

Jesus, como bom mestre, não Se dá por vencido, e a fim de dispersar em parte as trevas, dá início a um longo diálogo com eles, em que apresenta as novas regras do Seu grupo (Mc 9,33-50; cf. também Mt 18, uma escola de vida comunitária). No texto de hoje Jesus indica a primeira; o serviço (w. 33-37). Em seguida explica as outras: a abertura (w. 38-40); o auxílio (w. 41-42); o primado do Reino (w. 45-49); a paz (w. 49-50). O Mestre propõe uma premissa irrenunciável: quem não acolher o mistério da Cruz, não saberá entrar na vida e na experiência de Jesus (cf. Mc 8,31).

Os discípulos, todavia, começam a erguer as primeiras defe­sas, ao não aceitarem separar-se das suas convicções acerca do Messias. Temos uma clara indicação da discussão «no caminho», acerca de quem era o maior (v. 33). Interrogados directamente, re­cusam e envergonham-se de manifestar abertamente o argumen­to das suas conversas, porquanto apanhados em flagrante. Jesus não Se dá por vencido e coloca diante dos olhos deles um modelo inesperado, mas certamente de fácil leitura, uma «criança» (v. 36), considerada, no ambiente palestino, privada não só de prerrogati­vas comuns, mas até de todos os direitos. Note-se que em aramai- co – a língua falada por Jesus – o termo taliayah era empregado para indicar quer a criança, quer o servo. Daqui compreendemos a relação e o apelo de Jesus entre o «tornar-se servo» (v. 35) e o gesto emblemático de colocar a criança «no meio deles» (v. 37).

DA PALAVRA PARA A VIDA————————————————

A Páscoa de Jesus e a Páscoa do discípulo estão preditas e colocadas em confronto (Evangelho). Pode dizer-se que o «ca­minho da cruz» é comparado pelo Mestre ao «caminho do serviço» ou da «infância espiritual». A imagem que São João apresenta, do cordeiro sacrificado na Cruz, é traduzida pelos sinópticos pela figura da «criança» e do «servo», que se colo­cam humildemente no último lugar (cf. Mc 9,35-37).

É preciso reconhecer que, naquela altura, na mente e no co­ração dos discípulos há uma linha divergente da do Mestre, como muitas vezes acontece também connosco. São duas li­nhas que precisam de encontrar no cansaço e na prova uma convergência sua. Trata-se, pelo menos, nessa altura, de in­verter a trajectória. É preciso tempo! O próprio Jesus concede esse tempo e tenta levar consigo os Seus discípulos, a começar por uma inicial mudança de perspectiva. Reconheçamo-lo: é a tarefa de sempre! Descer do pedestal e abandonar os primei­ros lugares, para nos colocarmos com o espírito transformado e renovado no último lugar, na atitude daquele que serve, é difícil. Quantas vezes nos encontramos presos no dilema, que e escuta e ao mesmo tempo tentação de todos os que desejam pôr à prova a nossa virtude (primeira leitura), que é caminho de sabedoria ainda não levado a termo; e na verdade ainda longe da meta (segunda leitura), que é uma proposta cansa­tiva em seguir Jesus todos os dias até ao fim, pelo caminho da Cruz, percorrido por Ele com tanta generosidade e amor (cf. Mc 9,31).

Acerca disto, Jesus é exemplo luminoso para nós! Ele leva plenamente a termo a missão profética do servo, manso e hu­milde de coração, anuncia com as palavras e as obras a sal­vação aos pobres (cf. Lc 4,18), coloca-Se no meio dos Seus «como aquele que serve» (Lc 22,27), embora saiba que é o «Senhor e Mestre». (Cf. Jo 13,12-17) Chega deste modo ao ponto mais elevado do serviço e do amor, inspirador de todas as diaconias, até à oferta da Sua vida.

Deste acontecimento de bondade sem limites, é importante aprender – como dado fundamental – que na Igreja de Deus «a autoridade é serviço». É serviço na mais «pequenina Igre­ja», a partir da Igreja doméstica para chegar à Igreja local, para chegar à Igreja universal que a todos acolhe. Cada vo­cação conhece estes percursos. São aqueles que se desenro­lam nas próprias casas, nos ambientes de trabalho, no diálogo quotidiano e no confronto com todas as pessoas de boa von­tade. Deveríamos trazê-lo escrito nas nossas frontes: «Reinar é servir.» Mas, infelizmente, ainda encontramos tempo para competir com o nosso vizinho, para chegarmos a ocupar o primeiro lugar, sentimo-nos e julgamo-nos os únicos que agimos correctamente, e depois sentimo-nos no direito de exprimir juízos inapeláveis acerca de tudo o que os outros fazem. Muitas vezes lamentamo-nos porque o nosso papel na família, no trabalho, na paróquia, na comunidade não e valorizado suficientemente, enquanto esperamos não sermos daqueles que se afastaram porque, porventura, não encontra­ram livre o primeiro lugar. Mas agora queremos regressar «ao nosso lugar», que é o de Jesus, o último!

Oração

Deus, Pai de todos os homens,

Vós quereis que os últimos sejam os primeiros e fazeis de uma criança a medida do vosso Reino: concedei-nos a sabedoria que vem do Alto, para que acolhamos a Palavra do vosso Filho e compreendamos que, diante de Vós, o maior é aquele que serve.

 

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano C

PRIMEIRA LEITURA___________________________________ Am 8,4-7

Contra aqueles que «possuem dinheiro alheio».

Ler a Palavra

São verberantes, concretas e actuais, as palavras de Amós con­tra os exploradores e opressores dos pobres, vendidos e «compra­dos» por um «par de sandálias» (v. 6). Nestas personagens malva­das o desprezo pela vida humana anda de braço dado com a falta de piedade para com Deus: detestam a «lua nova» e o «sábado», considerando-os impedimento para as suas transacções desones­tas (v. 5). A raiz da violência sobre os pobres reside precisamente no seu «ateísmo».

Compreender a Palavra

A voz dos profetas, de Amós em particular, levanta-se com igual vigor em defesa dos direitos de Deus e dos deveres para com o próximo. Ambas as realidades estão ligadas entre si e o Senhor não pode aceitar um culto que não se exprima em solida­riedade e misericórdia. Muitas vezes a religiosidade permanece formal e exterior e coexiste com violências e injustiças: contra essa hipocrisia intervêm com vigor os profetas.

Neste texto de Amós há algo mais: estamos perante pessoas que não pensam em Deus, a piedade e para elas um obstáculo no caminho para um lucro desenfreado. Os tempos sagrados, desti­nados ao encontro com Deus, ao descanso, à partilha fraterna são

396 I ECCION \KIO COMTNT \DO julgados não só inúteis, mas ate negativos, na lógica das relações sociais degeneradas e submetidas à violência e ao arbítrio de to­dos os que oprimem os pobres e os fracos {cf. w. 5-6). Perante estas situações, que contrastam radicalmente com o projecto di vino, o Senhor não pode ficar indiferente: o Seu juízo é extrema mente severo (v. 7).

SALMO RESPONSORIAL__________________________ Sl   112,1-2.4-8

O Senhor intervém na História para fazer justiça, não no sen­tido punitivo ou vingativo, mas para restabelecer o Seu desígnio, tantas vezes desfigurado pelas violências dos homens. A justiça de Deus exprime-se em intervenções de libertação em favor dos «pobres» (w. 7-8), que encontram a alegria de louvar o Senhor.

SEGUNDA LEITURA__________________________________                   ITm 2,1-8

Façam-se preces por todos os homens a Deus, que quer salvar todos os homens.

Ler a Palavra

O texto apresenta uma inserção significativa: começa e acaba a recomendar a oração. No princípio, Paulo convida a rezar «por todos», em particular pelos que estão «no poder», dos quais de pende a paz e a concórdia da vida social (w. 1-2); no final, pede que se reze «em toda a parte», em todo o lugar (v. 8a). Por outras palavras, a oração deve ser universal e constante, praticada em todos os ambientes e situações: a vontade de Deus é que todos se salvem (w. 3-4). Mas reze-se «erguendo para o Céu as mãos santas, sem ira nem contenda» (v. 8b).

Compreender a Palavra

Nas «Cartas Pastorais» abundam directrizes e exortações para a organização e a orientação das Igrejas. Neste contexto é par­ticularmente significativo que, no começo da Primeira Carta a Timóteo, Paulo recomende, «antes de tudo», que se façam a Deus «preces, orações, súplicas e acções de graças» (v. la), lista que en­tende abranger todas as vertentes da oração cristã, do pedido à acção de graças.

Outro elemento digno de nota é o destino da oração: «por to­dos» (v. lb). O facto de nomear em particular os «reis» e todos os que governam (v. 2) não só não tira nada à dimensão universal, mas antes a reafirma: a oração pelos responsáveis pela sociedade é vista como uma vantagem comum, já que «todos», sem distin­ção, são chamados a salvar-se (v. 4).

O destino universal da salvação e da oração está fundamen­tado na unicidade de Deus e na «mediação» de Cristo Jesus, que ofereceu a Sua vida por todos (w. 5-6).

EVANGELHO________________________________________ Lc 16,1-13

Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.

Ler a Palavra

Nunca como neste caso sera preciso reafirmar que a parabola não tem outra finalidade que nào seja a de levar a uma atitude concreta e operativa, a cujo serviço são chamados todos os ele­mentos da narração, os quais, tomados em si mesmos e separada­mente, poderiam ser até contraditórios e desviantes. A finalida­de, portanto, é constituída pelo versículo 9, «Arranjai amigos…»; como o administrador, protagonista da narrativa, ganhou o reco­nhecimento dos devedores, assim os discípulos devem granjear amigos, socorrendo e fazendo o bem aos pobres neste mundo.

Compreender a Palavra

Estamos na presença de um texto que devemos entender bem. O título que normalmente se dá à parábola («O administrador infiel») é já de per si enganador. A finalidade da narrativa não é apresentar, e muito menos aprovar, o comportamento do admi­nistrador, chamado sem meios termos de «desonesto» e incluído entre os «filhos deste mundo», sinónimo de «filhos das trevas», os

 

quais se colocam em posição antitética relativamente aos «filhos da luz» (v. 8).

Estes últimos, discípulos de Jesus, devem aprender dos filhos do mundo a estarem mais atentos, «espertos», criativos, colocan­do as riquezas ao serviço dos pobres, perdoando as suas dívidas. Assim ganharão «amigos» para o Reino dos Céus (v. 9a). Estes «amigos», na opinião de alguns, seriam os próprios pobres, os quais um dia receberão os seus benfeitores junto de Deus; segun­do outros, e talvez com maior razão, os amigos granjeados com a distribuição dos bens aos pobres, seriam Deus e os Seus anjos: quando, no final da vida, já não pudermos administrar os bens deste mundo, eles nos acolherão nas «moradas eternas» (v. 9b). Seja como for, é preciso fazer uma escolha: ou servir a Deus, dis­pondo sabiamente dos bens, ou servir o dinheiro, deixando de lado Deus e a vida eterna (v. 13).

DA PALAVRA PARA A VIDA————————————————

Riqueza e pobreza nas páginas de Lucas revestem-se de uma grande importância, pela dialéctica e pelo valor muitas vezes em contraste com o Evangelho. Se a pobreza é uma das con­dições fundamentais para acolher a salvação de Deus, a rique­za não colocada ao serviço do Reino constitui um obstáculo intransponível no caminho da conversão e da sequela de Je­sus. O episódio do jovem rico (cf. Mc 10,17-22; Mt 19,16,22;

Lc 18,18-23), o qual perguntava ao Mestre que é que devia fazer para ter a «vida eterna», e perante o convite a vender os bens e distribuí-los aos pobres se afasta triste, é paradig­mático para compreendermos a perspectiva dos evangelistas acerca da riqueza e da sua relação com o Reino. Esta visão está radicalizada em Lucas, que nas bem-aventuranças colo­ca em primeiro lugar precisamente os pobres: «Felizes de vós, os pobres, porque o reino de Deus vos pertence.» (Lc 6,20) Paralelamente, apresenta a condição muito menos tranquili­zadora dos ricos: «Ai de vós, os ricos, porque já tendes a vossa consolação.» (6,24)

A ilusão das riquezas e o desapego necessário delas é reafir­mada com insistência nas catequeses feitas por Jesus, duran­te a Sua viagem para Jerusalém (cf. Lc 12,13-21; 16,19-31;

  • 30). Deve colocar-se e compreender-se neste contexto o Evangelho de hoje. Embora as parábolas obriguem a dirigir a nossa atenção para o essencial, para perceber a finalidade pragmática da narrativa, podemos todavia – sem renunciar a esta perspectiva fundamental – examinar as personagens e as situações da narração. Antes de mais, o «homem rico»

(Lc 16,1) é o Senhor: todos os bens Lhe pertencem; as rique­zas, por conseguinte, são as coisas boas que o Senhor coloca à disposição dos Seus filhos. Nós não somos donos delas, mas simples «administradores», que devemos dispor delas con­forme os projectos de Deus. Acontece-nos muitas vezes que desperdiçamos os bens que nos foram confiados, como acon­teceu ao filho pródigo, ou as utilizamos mal, como fez o rico que não prestou atenção ao pobre Lázaro (cf. Lc 15,11-32;

  • 31). Deste modo, tornamo-nos maus administradores dos dons de Deus e contraímos débitos para com o Dono, ao qual devemos prestar contas da nossa gestão. Sabendo porém que não temos nenhuma possibilidade de nos justificarmos com as nossas obras e capacidades, a única possibilidade que nos resta é a de nos tornarmos misericordiosos, de perdoar­mos as dívidas, de aliviarmos a carga do próximo: no fundo era esta a finalidade para que nos tinham sido confiados os dons de Deus, para isto é que tínhamos sido constituídos ad­ministradores dos Seus bens.

Oração

Pai Santo, que nos chamais a amar-Vos e servir-Vos como único Senhor, tende piedade da nossa condição humana; salvai-nos da cobiça das riquezas,

e fazei que, erguendo para o Céu as nossas mãos livres e puras,

Vos dêmos graças com toda a nossa vida.

XXV SEMANA DO TEMPO COMUM[1]

Introdução ao Livro de Esdras

O Livro de Esdras começa com o texto do édito de Ciro da Pérsia, que permite aos hebreus, que assim o quiserem, regressar à pátria e reconstruir o Templo. Nos capítulos 2 3 narra se como os primeiros repatriados reedificam o altar para retomarem o cul to. A construção do Templo foi porém hostilizada pela população que se tinha fixado na terra no lugar dos hebreus. Por fim, a auto­rização para construir o Templo foi confirmada e, com uma cele­bração da Páscoa, foi solenizada a sua reedificação {caps. 4-6).

Na segunda parte do livro (caps. 7,1 10,44) entra em cena Esdras, um escriba, doutor da Lei, enviado a Jerusalém pelo rei da Pérsia, Artaxerxes. Esdras toma consciência dos muitos com­promissos que a população estava a viver: sobretudo tinham-se multiplicado os matrimónios mistos entre hebreus e não hebreus. Com energia, ele chama a atenção do povo para o respeito da Lei, se não quer arriscar-se a perder a própria identidade, desapa­recendo na massa das outras populações submetidas ao império persa. O modo de conceber o papel do Povo de Deus apresentado neste livro continuará com variações até ao tempo de Jesus.

[1] Tiziano Lorenzin, franciscano, residente em Pádua, docente de exegese do Antigo Testamento na Faculdade Teológica de Triveneto.

XXV SEMANA DO TEMPO COMUM 401