
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, quando Jesus Se aproximou de Jerusalém, ao ver a cidade, chorou sobre ela e disse: «Se ao menos hoje conhecesses o que te pode dar a paz! Mas não. Está escondido a teus olhos. Dias virão para ti, em que os teus inimigos te rodearão de trincheiras e te apertarão de todos os lados. Esmagar-te-ão a ti e aos teus filhos e não deixarão em ti pedra sobre pedra, por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada».
Palavra da salvação.
REFLEXÃO
Era o momento culminante da peregrinação de Jesus. Ele aproximava-Se de Jerusalém, a cidade santa, o coração da aliança entre Deus e o seu povo. A multidão aclamava O agitando ramos e proclamando a chegada do Reino. No entanto, em vez de triunfo, o rosto d o Mestre estava marcado por uma dor profunda. Ao avistar a cidade, com o seu esplendor e o seu Templo, Jesus não soltou gritos de vitória, mas rompeu em pranto.
Este choro não era de frustração pessoal, mas o pranto do próprio Deus pela teimosia do seu povo. Era o lamento do coração divino perante uma oportunidade que estava a ser tragicamente desperdiçada. A sua voz, carregada de uma emoção dilacerante, ecoou como um último e urgente apelo: «Se ao menos hoje conhecesses o que te pode dar a paz!». A verdadeira paz – a shalom que é plenitude, reconciliação com Deus e harmonia – estava ali, incarnada n’Ele, a oferecer-se gratuitamente. Mas Jerusalém, simbolizando todo o povo, permanecia cega. A sua paz estava escondida aos seus próprios olhos, ofuscada por expectativas políticas, por um rigor religioso sem amor e por uma recusa em reconhecer a humilde manifestação de Deus no seu meio.
Então, o tom da lamentação transforma-se em profecia solene. Jesus, com a clareza de quem vê o futuro inexorável que a rejeitação acarretará, anuncia a consequência terrível dessa cegueira. A paz que recusaram darão lugar à guerra. A cidade que O rejeita será, por sua vez, sitiada e esmagada. A profecia cumprir-se-ia historicamente, décadas mais tarde, no ano 70 d.C., quando as legiões romanas de Tito arrasariam Jerusalém, não deixando “pedra sobre pedra”, tal como Jesus previu. A destruição não é apresentada como um castigo arbitrário de um Deus vingativo, mas como a consequência lógica e trágica de uma escolha: “por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada”.
A “visitação” de Deus em Jesus era o momento da graça, o kairos, o tempo oportuno para o acolhimento e a salvação. Ao rejeitá-Lo, Jerusalém escolheu o caminho que levava à sua própria ruína. Este episódio transcende o contexto histórico para se tornar um aviso perene para todo o coração humano e para toda a comunidade de fé. É um convite urgente à vigilância espiritual, a abrir os olhos para reconhecer a presença de Deus quando Ele nos visita nas encruzilhadas da vida, nos apelos dos pequenos, no silêncio da oração, no rosto do necessitado. Ignorar essa visitação divina é optar por uma falsa paz que conduz, inevitavelmente, à desolação.