
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, disse o Senhor: «Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele volta do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’».
Palavra da salvação.
REFLEXÃO
A passagem de Lucas 17, 7-10 convida-nos a uma profunda reflexão sobre a humildade no serviço. A parábola do servo que volta do campo e deve continuar a servir o seu senhor, sem esperar agradecimento ou recompensa imediata, culmina na frase: «Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer». Esta afirmação paradoxal é central para a espiritualidade cristã do serviço desinteressado. Não é que o nosso trabalho seja literalmente inútil para Deus, mas sim que a atitude do discípulo deve ser a de quem reconhece que o seu dever é servir e que, ao fazê-lo, está apenas a cumprir a sua vocação, sem mérito adicional a reivindicar. A verdadeira grandeza reside na humildade do cumprimento do dever, afastando qualquer presunção de superioridade ou direito a elogios.
São Martinho de Tours, celebrado precisamente a 11 de Novembro, encarna de forma exemplar este espírito de serviço humilde. A sua vida, inicialmente como soldado romano, é marcada por atos de profunda humildade e serviço que ultrapassam em muito o que era “devido”. O ato mais famoso, o de partilhar a sua capa (manto) com um mendigo à porta da cidade de Amiens, não é apenas um gesto de caridade, mas uma rejeição das honras e do conforto que a sua posição militar lhe conferia. Martinho, ao rasgar a capa, não se limitou a dar o excedente, mas sacrificou algo de essencial, sem esperar nada em troca, apenas agindo por compaixão e reconhecimento da dignidade do outro.
Mais tarde, ao tornar-se monge e depois bispo, Martinho nunca abandonou a sua simplicidade e o seu modo de vida austero. Ele via a si mesmo, tal como a parábola sugere, como um servo. A sua resistência inicial em aceitar o cargo episcopal e o seu desejo de continuar a viver em comunidade monástica, longe das pompas do poder, sublinha o seu entendimento de que o seu papel era servir, pregar e cuidar do povo de Deus, um dever que ele encarava com total despojamento de ego. Em vez de se sentir um “senhor” da Igreja, ele atuava como um “servo”, cumprindo a sua missão com a convicção tranquila de quem apenas faz o que é justo e necessário. Martinho é, portanto, um testemunho vivo de que o verdadeiro serviço cristão é sempre humilde e incondicional.
-Oração
Senhor Jesus Cristo, que nos ensinastes a ser servos humildes e a cumprir o nosso dever sem esperar recompensa. Pelos méritos de São Martinho de Tours, que soube ver e servir-Vos no pobre, dai-nos a graça de reconhecer que tudo o que fazemos é a Vossa obra em nós. Livrai-nos da vaidade e do orgulho, para que possamos viver na alegria simples de quem apenas cumpre o que lhe é pedido. Amém.