
Evangelho de Jesus segundo São Lucas
Naquele tempo, seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes: «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo: ‘Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir’. E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra ele com vinte mil? Aliás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz. Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».
Reflexão
Este ensinamento de Jesus, proferido a uma grande multidão, é um dos mais desafiadores do Evangelho. Jesus não suaviza as exigências para seguir o Seu caminho; pelo contrário, Ele as eleva ao máximo. A preferência por Cristo deve ser absoluta, superando até os laços familiares mais profundos – pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs – e a própria vida. Esta não é uma negação do amor humano, mas uma reordenação radical das prioridades. O amor a Cristo deve ser o fundamento e a medida de todos os outros amores, o coração que pulsa em todas as relações. Se o amor a Deus não for o centro, os outros amores podem tornar-se ídolos ou desvios.
A exigência de “tomar a sua cruz” e “renunciar a todos os seus bens” aponta para uma entrega total e um desapego radical. A cruz simboliza o sofrimento, a renúncia e a identificação com Cristo no Seu sacrifício. Renunciar aos bens não significa necessariamente uma pobreza material literal para todos, mas sim um desapego interior que impede que as posses se tornem um obstáculo para seguir a Deus. É um convite a não permitir que nada, nem mesmo o que é legítimo e bom, ocupe o lugar de Deus no coração.
As parábolas do construtor da torre e do rei que vai à guerra ilustram a necessidade de um discernimento cuidadoso e de uma determinação firme. Seguir a Cristo não é uma decisão impulsiva, mas um compromisso consciente e calculado, que implica estar preparado para os custos e sacrifícios. A fé exige um realismo que avalie as implicações e uma vontade que persista até o fim. A mensagem final é clara: a discipulado exige tudo, mas oferece a única plenitude onde o amor total pode residir.
Oração
Senhor Jesus, Tu que nos chamas a uma entrega radical e a um amor sem reservas,arranca do nosso coração tudo o que nos impede de Te seguir com total liberdade.Dá-nos a graça de Te preferir acima de todas as coisas e de todos os afetos.Ajuda-nos a carregar a nossa cruz com coragem e a renunciar aos bens que nos prendem,para que possamos ser verdadeiramente Teus discípulos.Que a nossa vida seja um cálculo bem feito, uma torre edificada sobre a rocha da Tua vontade,e uma batalha travada com a certeza da Tua vitória.Que o nosso amor por Ti purifique todos os nossos sentimentos,e que em Ti encontremos a única exigência onde cabe o amor total.Ámen.