11º Domingo do Tempo Comum (14 Junho 2020)

Leitura do Livro do Êxodo:

Naqueles dias, os israelitas, 2partindo de Rafidim, chegaram ao deserto do Sinai, onde acamparam. Israel armou aí suas tendas, defronte da montanha. 3Moisés, então, subiu ao encontro de Deus. O Senhor chamou-o do alto da montanha, e disse: “Assim deverás falar à casa de Jacó e anunciar aos filhos de Israel: 4Vistes o que fiz aos egípcios, e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim. 5Portanto, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos, porque minha é toda a terra. 6aE vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

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Ler a Palavra                                                                   Ex  19,2-6a

Sereis para Mim um reino de sacerdotes, uma nação santa.

Os israelitas saídos do Egipto chegam ao «deserto do Sinai» (v. 2), etapa fundamental da sua caminhada de libertação. O Senhor «chama» Moisés da montanha (cf. v. 3), para receber e proferir ao povo reunido as palavras da Aliança. Aquele que as pronuncia e o Deus da libertação (v. 4) e pede ao povo que «guarde a sua aliança» (cf. v. 5a), condição única para viver a liberdade que começou a saborear depois de séculos de escravidão no Egipto. Se Israel reconhecer e escutar o Senhor, tornar-se-á «propriedade» de jhwh (v. 5b), um «reino de sacerdotes» e uma «nação santa», (v. 6)

Compreender a Pa!ara

O deserto que Israel enfrenta ao sair do Egipto é caminho de libertação. Provações e murmurações sucedem-se até chegar o momento culminante: a Aliança do Sinai, fundamento da exis­tência de Israel como Povo de Deus, libertado da escravidão do Egipto para servir o seu Senhor.

Moisés, o mediador da Aliança, e chamado a preparar Israel (v. 3), para que acolha e se comprometa em guardar as palavras do pacto que jhwh está para pronunciar: o Decálogo (cf. Ex 20,1 -21) e o Codigo da Aliança (d. Ex 20,22-23,35).Israel deve comprometer-se a «escutar» a voz do Senhor (v. 5a): a dimensão da escuta será, a partir desse momento, a nota característica da fé hebraica. Trata-se de uma escuta permanente que se traduz em «guardar» (v. 5b) as palavras recebidas de ihvvh como a dádiva mais preciosa para a existência de Israel enquanto povo da Aliança, garantia única para não cair em novas escravi- dões. Ao compromisso corresponde a promessa de uma relação permanente: Israel será um «reino de sacerdotes» e uma «nação santa» (v. 6), um povo que se distinguirá dos outros pela sua per­tença ao Senhor.

Salmo Responsorial (Sl 99)

— Nós somos o povo e o rebanho do Senhor.
— Nós somos o povo e o rebanho do Senhor.

— Aclamai o Senhor, ó terra inteira,/ servi ao Senhor com alegria,/ ide a ele cantando jubilosos!

— Sabei que o Senhor, só ele, é Deus,/ Ele mesmo nos fez, e somos seus,/ nós somos seu povo e seu rebanho.

— Sim, é bom o Senhor e nosso Deus,/ sua bondade perdura para sempre,/ seu amor é fiel eternamente!

 

SALMO RESPONSORIAL                                                               Sl  99,2-3.5

Israel, povo sacerdotal, torna-se cantor jubiloso da bondade e misericórdia de Deus. Em procissão para o Templo, relembrando a longa caminhada do Êxodo, convida a «terra inteira» ao louvor. Manifesta assim a sua natureza sacerdotal, transformando a vida numa acção de graças, numa «eucaristia» permanente.

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Segunda Leitura (Rm 5,6-11)

Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos:

Irmãos: 6Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo  marcado. 7Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa,   talvez alguém se anime a morrer. 8Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. 9Muito mais agora, que já estamos justificados pelo sangue de Cristo, seremos salvos da ira por ele.10Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho; quanto mais agora, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida!

11Ainda mais: Nós nos gloriamos em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. É por ele que, já desde o tempo presente, recebemos a reconciliação.

– Palavra do Senhor.

– Graças a Deus.

 

SEGUNDA LEITURA____________________________________ Rm 5,6-11

Se fomos reconciliados pela morte do Filho, com muito mais razão seremos salvos pela sua vida.

Ler a Palavra

A nova condição em que o cristão se encontra, «justificado pela fé, em paz com Deus» (cf. Rm 5,1), é explicada por Paulo mediante a recordação do momento culminante do desígnio de amor de Deus pelo homem: o sacrifício de Cristo na Cruz (w. 6,8). É um acto de absoluta gratuidade para com o peca­dor, que não se compara com o comportamento humano (v. 7). A partir de agora o cristão pode saborear a nova condição que lhe foi oferecida pelo amor de Cristo, a «reconciliação» gratuita com Deus, a sua única glória.

Compreender a Palavra

A morte de Cristo pelo pecador (v. 6) é a manifestação mais eXplícita do «amor de Deus» (v. 8); enquanto oferece a salvação ao homem, Ele revela em plenitude o Seu rosto, que fará com que joão diga: «Deus é amor.» (ljo 4,8)

A condição requerida para vivermos reconciliados com o Se­nhor não consiste numa procura autónoma de perfeição, mas na abertura ao dom imenso do Seu amor, que se manifestou na ofe­renda de Cristo por nós. A vida nova, a esperança e a alegria da vida cristã não se apoiam no sucesso da vida virtuosa, mas na contemplação desse inaudito acto de amor.

A partir dessa afirmação irrefutável, o Apóstolo olha para o presente e para o futuro: agora que estamos «reconciliados com Deus pela morte de seu Filho», seremos «salvos pela sua vida», (v. 10) A vida do homem, reconciliado com Deus em Cristo, não pode deixar de se abrir à acção de graças e ao cântico de louvor, como se celebra em cada Eucaristia.

EVANGELHO_______________________________________ Mt_ 9,36-10,8

Chamou os doze discípulos e enviou-os.

Ler a Palavra

Jesus é o pastor definitivo, messiânico, que se ocupa das ove­lhas tresmalhadas da casa de Israel, mostrando o amor misericor­dioso do Pai (cf. Ex 34,23). Convoca por isso os «Doze» (10,1.2.3) Apóstolos para que colaborem com Ele no anúncio do Reino, a começar pelas «ovelhas perdidas da casa de Israel». (Cf. 10,5b 6) A missão destes, imitando a acção salvífica do Mestre, será carac­terizada pela mesma gratuidade do dom recebido (10,8).

Compreender a Palavra

«Doze Apóstolos» como doze eram as tribos de Israel, na novi dade e continuidade do projecto salvifico. Jesus convoca-os para


levar a cumprimento a obra do Pai começada com o chamamento de Israel, a começar pelo Patriarca Abraão (cf. Gn 12,1-3) e pela Aliança proposta através de Moisés sobre o Sinai.

O que move o Filho é o amor visceral do Pai, descrito muitas vezes pelos profetas (cf. Is 49,15): o Filho comove-Se profunda­mente ao ver as «multidões fatigadas e abatidas». (9,36) É esta a razão da Sua pregação, do Seu agir e da oferta do Seu sangue por cada homem. Os «Doze» são chamados a colaborar com o Mestre imitando as Suas atitudes: no anúncio e na actividade, levando a todos a libertação do mal (10,7-8). São enviados, antes de mais, à «casa de Israel» (10,6), o povo santo que recebeu a Aliança e as promessas de Deus. Mas a sua acção não vai ficar restrita a Israel e alcançará as multidões cansadas e as ovelhas sem pastor tão nu­merosas, desde essa altura até aos nossos dias.

DA PALAVRA PARA A VIDA

Jesus Cristo chama os Apóstolos para os enviar a anunciar o Reino, com palavras e obras inspiradas nas Suas próprias palavras e obras. Tal como para Israel, também para o povo da Nova Aliança o chamamento não se esgota no relaciona­mento fechado, privilegiado com Deus, mas está em função do anúncio de libertação. À antiga Aliança do Sinai, através da qual o Senhor chama Israel a tornar-se «um reino de sa­cerdotes» e «uma «nação santa» (primeira leitura: cf. Ex 19,6), segue-se a Aliança nova e definitiva através da oferta do san­gue de Jesus, o Filho que mostrou até onde chega o amor do Pai (segunda leitura). Mateus, em particular, sublinha a conti­nuidade dos dois momentos, sublinhando que os «Doze» são enviados em primeiro lugar «às ovelhas perdidas da casa de Israel». (Evangelho: Mt 10,6) É este o ponto de partida, que nos convida a reconhecer o significado salvífico da longa his­tória de Israel, povo da Aliança.

Todavia outras ovelhas, outras multidões, são chamadas por Jesus a participar no caminho de libertação do pecado e da morte oferecida gratuitamente pelo Pai. A nova comunidade enxerta-se por isso na História antiga, como sublinha São Paulo na mesma Carta aos Romanos (caps. 9-11).

O povo reunido pelo Filho é convidado, além disso, a ser como Israel, «povo real» e «sacerdócio santo» (IPd 2,5), em vista da realeza e do sacerdócio do próprio Cristo. Jesus mani festa com clareza o que significa participar da realeza de Deus amando entranhadamente as Suas ovelhas, até oferecer a Sua vida por elas. Ele revelou aos homens do Seu tempo, e à co munidade cristã de todas as épocas, que o chamamento a se rem povo sacerdotal se realiza para além de todos os tempos e lugares «sagrados», já que cada ambiente e cada momento, sobretudo onde se sofre e se vive na opressão, são lugares em que Deus se deixa encontrar. E é lá que os Apóstolos («Envia­dos»; Mt 10,5) devem levar a libertação do Senhor.

Da aproximação entre Israel e o povo da Nova Aliança reuni­da por Jesus, emerge, além disso, o aspecto da eleição gratuita. Israel é chamado por Deus ao Sinai para uma eleição abso­lutamente gratuita, fundada nem em méritos nem em com­portamentos do povo que repetidamente manifestou a sua fraqueza, faltando aos preceitos da Aliança. Tal como é «gra­tuito» o chamamento dos «Doze». (Cf. Mt 10,8) É o ponto central da nossa fé; a Aliança é dom gratuito do amor de Deus pelo homem; primeiro por Israel, e depois pela Humanida­de inteira. O sacrifício de Jesus Cristo, vítima e sacerdote da Nova Aliança, brota de um acto de gratuidade absoluta («En­quanto éramos ainda pecadores»; Rm 5,6), o qual por vez é fundamento da gratuidade do Apóstolo para com os homens. A comunidade cristã é convidada a meditar sobre este estilo de vida, que não cessa de suscitar espanto no homem habitua­do às regras «sábias» do ter/haver: esta lógica económica não é válida para Deus que é Pai; não é válida para Jesus que é o «Bom Pastor»; não é válida para o discípulo que se alimenta do corpo de Cristo, acolhendo-O sempre como o sinal mais evidente e tocante do dom gratuito que Cristo continua a fa­zer de Si.