Dedicação à Basilica de S. João de Latrão
Dedicação à Basilica de S. João de Latrão

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas.
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «É inevitável que haja escândalos; mas ai daquele que os provoca. Melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma mó de moinho e o atirassem ao mar, do que ser ocasião de pecado para um só destes pequeninos. Tende cuidado. Se teu irmão cometer uma ofensa, repreende-o, e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se te ofender sete vezes num dia e sete vezes vier ter contigo e te disser: ‘Estou arrependido’, tu lhe perdoarás». Os Apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé». O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela vos obedeceria».
Palavra da salvação.
REFLEXÃO
«Se sete vezes vier ter +contigo e te disser: ‘Estou arrependido’, tu lhe perdoarás»
O refrão na música é aquela parte que se repete, que ecoa em nossa memória, que marca o ritmo e a essência da composição. Na vida espiritual, o perdão é este refrão divino que deve ressoar continuamente em nossos corações. O Evangelho de Lucas nos apresenta Jesus ensinando sobre a importância do perdão ilimitado: “Se sete vezes vier ter contigo e te disser: ‘Estou arrependido’, tu lhe perdoarás”.
Sete vezes – número que na tradição bíblica representa a perfeição, a totalidade. Não se trata de uma contagem matemática, mas de uma atitude perene do coração. Perdoar sempre, como refrão constante em nossa relação com os outros, espelhando o perdão infinito que Deus nos concede.
São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja do século V, compreendeu profundamente este refrão do perdão. Em meio às invasões bárbaras e divisões na Igreja, sua vida foi um testemunho de como o perdão e a misericórdia devem ser a melodia constante que orienta nossa ação. Ele mediou conflitos, buscou a reconciliação e lembrou aos cristãos que a essência do Evangelho está no amor que perdoa sem medida.
Assim como um refrão musical que se repete para fixar a mensagem principal da canção, o perdão deve ser o tema que se repete em nossas vidas. Cada vez que perdoamos, cantamos novamente o refrão da misericórdia divina. Cada gesto de reconciliação é uma estrofe na grande sinfonia do amor de Deus.
O refrão do perdão não é apenas uma repetição mecânica, mas uma prática transformadora que nos conforma cada vez mais a Cristo. São Leão Magno nos ensina que, através do perdão constante, construímos a verdadeira paz – não apenas a ausência de conflito, mas a presença ativa da justiça temperada pela misericórdia.
Que nossa vida seja como uma canção onde o refrão “perdoarás” ecoe continuamente, transformando nossas relações e testemunhando ao mundo o amor incondicional de Deus.
Ó Deus de infinita misericórdia,
que nos ensinastes pelo vosso Filho
a perdoar sem limites,fazei que, seguindo o exemplo de São Leão Magno,
saibamos fazer do perdão o refrão de nossas vidas.
Que cada ofensa recebida seja oportunidade
para cantar novamente a vossa misericórdia,
e que nosso coração nunca se canse
de repetir o gesto do acolhimento e do perdão.
Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Nesta passagem, Jesus confronta-nos com a realidade mais prática das nossas vidas: a nossa relação com o dinheiro e os bens materiais. Ele não os condena em si mesmos, mas chama-lhes “vil dinheiro”, expondo a sua natureza transitória e a sua perigosa capacidade de nos distrair do que é verdadeiramente essencial. O convite é radical: usar esses bens efémeros para um fim eterno. “Arranjai amigos com o vil dinheiro” é um paradoxo genial. Significa ser generoso, usar os recursos para o bem, para aliviar o sofrimento e promover a justiça. Desta forma, os pobres e necessitados que ajudámos tornar-se-ão, pela graça de Deus, as testemunhas que nos acolherão “nas moradas eternas”.
A seguir, Jesus apresenta uma lei espiritual fundamental: a fidelidade nas pequenas coisas é o treino para a fidelidade nas grandes. Se formos desonestos ou negligentes na administração dos bens terrenos (“bem alheio”), como poderá Deus confiar-nos os bens espirituais, “o verdadeiro bem”, que é a própria vida divina em nós? A questão de fundo é a da soberania do nosso coração. A declaração “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” não é um conselho, mas um diagnóstico da realidade humana. O coração humano é feito para adorar, para se entregar totalmente. Se o nosso tesouro for o dinheiro, o poder ou o prestígio que ele compra, esse será o nosso deus. A reação dos fariseus, que “escarneciam de Jesus”, revela o perigo de uma religiosidade que busca a aprovação humana (“passar por justos”) mas cujo coração está afeiçoado ao dinheiro. Deus, porém, vê para além das aparências e inverte a lógica do mundo: “O que vale muito para os homens nada vale aos olhos de Deus”. O Evangelho convida-nos a um exame de consciência corajoso: a quem ou a quê está verdadeiramente orientado o meu serviço?
### Oração
Senhor Jesus, Vós que nos alertais sobre a sedução do vil dinheiro, dai-nos um coração sábio e livre. Ajudai-nos a usar os bens passageiros que possuímos como instrumentos de caridade e justiça, para que, servindo os nossos irmãos mais necessitados, acumulemos tesouros no Céu.
Sede Vós, ó Deus, o nosso único Senhor. Afastai de nosso coração a tentação de servir a dois amos. Que a fidelidade nas pequenas coisas do dia a dia, no uso honesto dos nossos recursos, nos prepare para recebermos o verdadeiro bem: a Vossa própria vida e amor.
Iluminai a nossa visão, para que, à luz da Vossa Palavra, saibamos discernir os valores eternos dos efémeros e busquemos, em tudo, a Vossa glória. Por Cristo Nosso Senhor. Ámen.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Um homem rico tinha um administrador que foi denunciado por andar a desperdiçar os seus bens. Mandou chamá-lo e disse-lhe: ‘Que é isto que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, porque já não podes continuar a administrar’. O administrador disse consigo: ‘Que hei de fazer, agora que o meu senhor me vai tirar a administração? Para cavar não tenho forças, de mendigar tenho vergonha. Já sei o que hei de fazer, para que, ao ser despedido da administração, alguém me receba em sua casa’. Mandou chamar um por um os devedores do seu senhor e disse ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu senhor?’. Ele respondeu: ‘Cem talhas de azeite’. O administrador disse-lhe: ‘Toma a tua conta: senta-te depressa e escreve cinquenta’. A seguir disse a outro: ‘E tu quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. Disse-lhe o administrador: ‘Toma a tua conta e escreve oitenta’. E o senhor elogiou o administrador desonesto, por ter procedido com esperteza. De facto, os filhos deste mundo são mais espertos do que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes».
Palavra da salvação.
A parábola do administrador astuto é, à primeira vista, desconcertante. Como pode Jesus parecer elogiar a conduta de um homem desonesto? A chave para entender esta passagem está no objeto do elogio: não é a desonestidade que é louvada, mas a esperteza, a prudência, a astúcia e a visão de futuro.
O administrador, confrontado com uma crise iminente, age com extraordinária previsão. Ele avalia os seus recursos limitados (forças e dignidade) e decide usar o poder que ainda tem – no caso, a autoridade sobre os bens do patrão – para garantir o seu futuro. Ele investe no relacionamento com os devedores, criando uma rede de favores que o acolherá quando for despedido. É um plano sagaz, ainda que eticamente questionável.
Jesus então faz o contraste crucial: “os filhos deste mundo são mais espertos do que os filhos da luz”. Os que vivem apenas para os bens materiais demonstram uma habilidade impressionante para planejar, negociar e assegurar o seu bem-estar terreno. E nós, “os filhos da luz”, que dizemos ter como tesouro o Reino de Deus, mostramos a mesma ousadia, a mesma criatividade e a mesma prontidão para garantir o que é eterno?
A lição não é sermos desonestos, mas sermos igualmente sábios e determinados na nossa busca pelo Céu. Deus deu-nos “bens” para administrar: o nosso tempo, os nossos talentos, a nossa caridade, a nossa fé. Estamos a usá-los com a mesma astúcia para construir tesouros no Céu? Estamos a “fazer amigos” com as nossas esmolas e atos de bondade, para que eles nos recebam “nas moradas eternas”?
A exortação é para que sejamos tão hábeis no bem quanto os mundanos o são nos seus negócios. Que a nossa esperteza se manifeste no perdão, na generosidade e no amor, usando os bens passageiros deste mundo para alcançar um fim que nunca passará.
Senhor Jesus, Mestre e Divino Administrador,
Vós que nos confiastes os bens passageiros deste mundo,
dai-nos a sabedoria do administrador astuto,
não para a desonestidade, mas para a prudência do espírito.
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EVANGELHO Lc 15, 1-10
«Haverá alegria entre os Anjos de Deus
por um só pecador que se arrependa»
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa».
Palavra da salvação.
Reflexão
O episódio de Lucas 15 revela o coração compassivo de Deus diante da fragilidade humana. Jesus conta duas parábolas—a ovelha perdida e a dracma desaparecida—em resposta aos fariseus, que criticavam o acolhimento aos pecadores. Ambas as histórias destacam um mesmo movimento: a busca insistente pelo que se perdeu e a alegria transbordante ao reencontrá-lo.
A ovelha desgarrada representa o ser humano que se afasta de Deus. O pastor abandona as noventa e nove no deserto para resgatar uma única. Seu gesto de carregá-la nos ombros revela não apenas perdão, mas restauração digna. A mulher que varre a casa para achar a moeda (equivalente a um dia de salário) mostra que nada, por menor que pareça, é insignificante aos olhos divinos.
A crítica de Jesus aos fariseus é contundente: eles agiam como “donos do rebanho”, excluindo quem julgavam indigno. Mas Deus não é um contador de méritos; é Pai que corre ao encontro. A alegria no Céu pelo “pecador que se arrepende” subverte a lógica humana: não há condenação, só festa. Lucas enfatiza essa misericórdia como núcleo do Evangelho—um convite a abandonar a rigidez e celebrar a graça que resgata os perdidos.
Para nós hoje, o texto questiona: agimos como fariseus, criando barreiras, ou como Cristo, que transforma mesas em lugares de comunhão? A verdadeira conversão começa quando reconhecemos que todos somos, em algum momento, a ovelha perdida—e também instrumentos do abraço de Deus para outros.
### **Oração:**
*Senhor Jesus, Pastor das ovelhas perdidas,
que saístes ao nosso encontro nos desertos da vida,
ensinai-nos a vossa misericórdia sem limites.
Fazei que nossos olhos vejam o irmão afastado
com o mesmo amor com que nos buscais,
e que nossas mãos sejam instrumentos
do vosso abraço restaurador.
Que a alegria do Céu, por cada pecador que volta,
eco em nossos corações e comunidades.
Amém.*
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Evangelho de Jesus segundo São Lucas
Naquele tempo, seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes: «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo: ‘Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir’. E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra ele com vinte mil? Aliás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz. Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».
Reflexão
Este ensinamento de Jesus, proferido a uma grande multidão, é um dos mais desafiadores do Evangelho. Jesus não suaviza as exigências para seguir o Seu caminho; pelo contrário, Ele as eleva ao máximo. A preferência por Cristo deve ser absoluta, superando até os laços familiares mais profundos – pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs – e a própria vida. Esta não é uma negação do amor humano, mas uma reordenação radical das prioridades. O amor a Cristo deve ser o fundamento e a medida de todos os outros amores, o coração que pulsa em todas as relações. Se o amor a Deus não for o centro, os outros amores podem tornar-se ídolos ou desvios.
A exigência de “tomar a sua cruz” e “renunciar a todos os seus bens” aponta para uma entrega total e um desapego radical. A cruz simboliza o sofrimento, a renúncia e a identificação com Cristo no Seu sacrifício. Renunciar aos bens não significa necessariamente uma pobreza material literal para todos, mas sim um desapego interior que impede que as posses se tornem um obstáculo para seguir a Deus. É um convite a não permitir que nada, nem mesmo o que é legítimo e bom, ocupe o lugar de Deus no coração.
As parábolas do construtor da torre e do rei que vai à guerra ilustram a necessidade de um discernimento cuidadoso e de uma determinação firme. Seguir a Cristo não é uma decisão impulsiva, mas um compromisso consciente e calculado, que implica estar preparado para os custos e sacrifícios. A fé exige um realismo que avalie as implicações e uma vontade que persista até o fim. A mensagem final é clara: a discipulado exige tudo, mas oferece a única plenitude onde o amor total pode residir.
Oração
Senhor Jesus, Tu que nos chamas a uma entrega radical e a um amor sem reservas,arranca do nosso coração tudo o que nos impede de Te seguir com total liberdade.Dá-nos a graça de Te preferir acima de todas as coisas e de todos os afetos.Ajuda-nos a carregar a nossa cruz com coragem e a renunciar aos bens que nos prendem,para que possamos ser verdadeiramente Teus discípulos.Que a nossa vida seja um cálculo bem feito, uma torre edificada sobre a rocha da Tua vontade,e uma batalha travada com a certeza da Tua vitória.Que o nosso amor por Ti purifique todos os nossos sentimentos,e que em Ti encontremos a única exigência onde cabe o amor total.Ámen.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, disse a Jesus um dos que estavam com Ele à mesa: «Feliz de quem tomar parte no banquete do reino de Deus». Respondeu-lhe Jesus: «Certo homem preparou um grande banquete e convidou muita gente. À hora do festim, enviou um servo para dizer aos convidados: ‘Vinde, que está tudo pronto’. Mas todos eles se foram desculpando. O primeiro disse: ‘Comprei um campo e preciso de ir vê-lo. Peço-te que me dispenses’. Outro disse: ‘Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las. Peço-te que me dispenses’. E outro disse: ‘Casei-me e por isso não posso ir’. Ao voltar, o servo contou tudo isso ao seu senhor. Então o dono da casa indignou-se e disse ao servo: ‘Vai depressa pelas praças e ruas da cidade e traz para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos’. No fim, o servo disse: ‘Senhor, as tuas ordens foram cumpridas, mas ainda há lugar’. O dono da casa disse então ao servo: ‘Vai pelos caminhos e azinhagas e obriga toda a gente a entrar, para que a minha casa fique cheia. Porque eu vos digo que nenhum daqueles que foram convidados provará do meu banquete’».
Palavra da salvação.
O que se fala na parábola é o banquete messiânico, a comunhão dos homens com Deus em Cristo, frequentemente comparada a um banquete. Para este banquete todos são convidados, porque por todos Cristo morreu e para todos ressuscitou. Os primeiros convidados escusaram-se. É uma referência ao povo de Israel. Talvez que os outros, por sua origem menos preparados, venham a escutar o convite. Desses outros fazemos nós parte! A Eucaristia, que celebra precisamente a Aliança entre Deus e os homens em Cristo, tem a forma de um banquete e nela somos convidados para “a Ceia das núpcias do Cordeiro”.
A parábola do grande banquete. Deus prepara a mesa, e os convidados respondem com desculpas. Um campo para ver, bois para experimentar, casamento para celebrar. Todos tão ocupados com a vida que não têm tempo para a Vida. Então o anfitrião abre portas e janelas, chama os pobres, os coxos, os perdidos dos caminhos. O Reino não é para quem se julga importante, mas para quem aceita ser amado. Esta parábola reflete a vida de S. Carlos bispo no século XVI, homem de reforma viva, acreditava no corpo da Igreja como Paulo descreve:O Reino acolhe não os que se consideram importantes, mas aqueles que se permitem ser amados.Isto alinha-se perfeitamente com São Carlos Borromeu, bispo do século XVI e figura proeminente na reforma da Igreja, que via o corpo da Igreja tal como descrito por Paulo. unido, simples, ardente na caridade. Enquanto muitos procuravam vantagens, ele oferecia serviço. Enquanto outros se sentavam em banquetes de poder, ele ia às ruas, cuidava dos doentes na peste, formava seminaristas, alimentava famintos. Um pastor com as mãos gastas e o coração firme, como o salmista no colo do Senhor. Ele ouviu o convite do Banquete e respondeu com a vida inteira. Não ficou preso às suas “boas desculpas”; deixou que Deus o encontrasse e o enviasse.
Hoje, como no tempo de Paulo e de Borromeu, o Senhor ainda chama: “Vem. Há lugar para ti.”
Senhor Jesus,
Tu que preparas a mesa do Reino com amor sem fim, desperta o meu coração para o teu convite.
Livra-me das desculpas que me afastam de Ti e ensina-me a alegria simples de quem se sabe amado.
Que eu viva a Eucaristia como festa de comunhão, como Ceia do Cordeiro onde todos têm lugar.
Faz-me, como São Carlos Borromeu, servidor dos irmãos e anunciador da tua hospitalidade divina.
Contigo, quero dizer: “Eis-me aqui. Reserva-me um lugar no teu Banquete.”
Amen.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas.
Naquele tempo, disse Jesus a um dos principais fariseus, que O tinha convidado para uma refeição: «Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos»..
Palavra da salvação..
REFLEXÃO ..
Este ensinamento de Jesus, proferido justamente num banquete farisaico, é uma revolução que atinge o cerne das nossas relações sociais. A nossa tendência natural é a de cultivar uma rede de contactos baseada na reciprocidade e no benefício próprio. Convidamos quem nos pode retribuir, criando um ciclo de favores e dívadas que fortalece o nosso status e conforto. É uma justiça humana, mas é uma justiça fechada sobre si mesma..
Jesus propõe uma lógica radicalmente oposta: a da gratuidade. Ao instruir que se convidem os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos, Ele não está apenas a promover um ato de caridade. Está a desmantelar a economia do mérito e a instaurar a economia da Graça. Estes convidados, marginalizados pela sociedade, não têm qualquer possibilidade de retribuição. O ato de os acolher torna-se, portanto, puro. Já não é um investimento social, mas um gesto de amor desinteressado..
A felicidade prometida por Jesus não vem do reconhecimento alheio ou de um futuro benefício terreno. Surge da libertação interior de quem age sem esperar nada em troca. É a alegria de participar da própria natureza de Deus, que é Amor gratuito. A “retribuição na ressurreição dos justos” não é um pagamento por uma obra, mas a consumação final deste gesto de amor. É a garantia de que um ato verdadeiramente gratuito, porque reflete o coração de Deus, tem uma ressonância eterna. Ele nos conforma a Cristo, que se ofereceu por nós quando ainda éramos incapazes de Lhe retribuir coisa alguma..
**Oração**.
Senhor Jesus, arranca do nosso coração a tentação de calcular benefícios. Ensina-nos a gratuidade e dá-nos olhos para ver os que nada têm para retribuir. Faze-nos corajosos para lhes oferecer amizade e acolhimento, tornando a nossa mesa um sinal do Teu Reino. Que, servindo os Teus pequeninos, possamos um dia participar do festim eterno da Tua ressurreição. Ámen.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,disse Marta a Jesus:
«Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.
Mas eu sei que, mesmo agora,
tudo o que pedires a Deus, Ele To concederá».
Disse-lhe Jesus:
«Teu irmão ressuscitará».
Marta respondeu:
«Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia».
Disse-lhe Jesus:
«Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem acredita em Mim,
ainda que tenha morrido, viverá;
e todo aquele que vive e acredita em Mim nunca morrerá.
Acreditas nisto?».
Disse-Lhe Marta:
«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
que havia de vir ao mundo».
Palavra da salvação.
REFLEXÃO
O Evangelho de São João, no capítulo 11, versículos 21 a 27, apresenta um dos momentos mais profundos e reveladores da vida de Jesus. Estamos diante da morte de Lázaro, irmão de Marta e Maria, e da chegada de Jesus a Betânia. A dor de Marta é palpável em suas primeiras palavras a Jesus: «Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido». Esta frase, carregada de mágoa e fé ao mesmo tempo, revela a sua profunda convicção no poder de Jesus. Ela acredita que a Sua presença teria evitado a tragédia, mas mesmo assim, mantém a esperança: «Mas eu sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Ele To concederá»..
A resposta de Jesus é um anúncio de esperança imediata: «Teu irmão ressuscitará». No entanto, Marta, com a sua fé ainda ligada à compreensão judaica da ressurreição, responde: «Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia». É neste ponto que Jesus pronuncia uma das mais poderosas declarações sobre a Sua própria identidade: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim nunca morrerá. Acreditas nisto?».
Esta afirmação de Jesus transcende a ideia de uma ressurreição futura e distante. Ele se apresenta não como alguém que simplesmente causa a ressurreição, mas como a própria essência dela e da vida. A vida que Jesus oferece não é apenas a vida terrena, nem apenas a vida após a morte, mas uma vida plena e eterna que começa no momento em que se acredita Nele. A morte física torna-se apenas uma passagem para aqueles que creem, pois a união com Cristo garante a vida para sempre.
A pergunta final de Jesus a Marta – «Acreditas nisto?» – é um convite pessoal a uma fé mais profunda e abrangente. Marta, movida pelo Espírito Santo, responde com uma confissão de fé que ecoa através dos séculos: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo». Ela reconhece Jesus não apenas como um taumaturgo, mas como o Ungido de Deus, o Salvador prometido. Esta é a fé que nos salva, que nos dá a certeza da vida eterna em Cristo. O episódio de Lázaro não é apenas um milagre, mas uma catequese profunda sobre a natureza da vida e da morte em Jesus Cristo.
Oração
Senhor Jesus Cristo, ressurreição e vida,
Agradecemos-Te por estas palavras de esperança e verdade.
Concede-nos a graça de crer em Ti com a mesma fé de Marta,
Reconhecendo-Te como o Messias, o Filho de Deus,
Que veio ao mundo para nos dar a vida eterna.
Que a Tua presença nos fortaleça diante da dor e da perda,
Dando-nos a certeza de que, em Ti, a morte não tem a última palavra.
Que possamos viver cada dia na Tua luz,
Com a esperança inabalável da ressurreição.
Ámen.

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
Palavra da salvação..
Reflexão
O Evangelho de São Mateus 5, 1-12a, conhecido como as Bem-Aventuranças, é um dos textos mais fundacionais e transformadores dos ensinamentos de Jesus. Ao subir ao monte e sentar-Se, Jesus assume a posição de um novo Moisés, promulgando uma “nova lei” que não se baseia em preceitos externos, mas numa profunda transformação interior e em valores que subvertem as expectativas mundanas. Este discurso não é apenas uma lista de virtudes a serem alcançadas, mas um mapa para a verdadeira felicidade e para a plenitude do Reino de Deus.
Jesus inicia com os “pobres em espírito”, não se referindo apenas à carência material, mas a uma atitude de despojamento interior, de humildade que reconhece a total dependência de Deus. É a renúncia ao orgulho e à autossuficiência que abre o coração para receber o Reino dos Céus. Em seguida, os “humildes” são prometidos a posse da terra, um símbolo da herança divina e da realização da vida em Deus, contrariando a visão mundana de que o poder reside na dominação.
Aos que “choram”, Jesus promete consolo. Este choro não é apenas de tristeza, mas pode ser o lamento pelos pecados, a compaixão pelo sofrimento alheio ou a dor pelas injustiças do mundo. Para esses, o consolo divino é uma certeza. Aqueles que têm “fome e sede de justiça” serão saciados, indicando uma busca ardente pela vontade de Deus e pela retidão em todas as dimensões da vida, uma sede que só a retidão de Deus pode aplacar.
A misericórdia, um atributo central de Deus, é a virtude dos “misericordiosos”, que por sua vez alcançarão misericórdia. É o convite para refletir o amor e o perdão divinos nas relações humanas. Os “puros de coração” verão a Deus, apontando para uma integridade de intenções, uma sinceridade que busca unicamente a Deus. Os “que promovem a paz” são elevados ao título de “filhos de Deus”, revelando o seu papel na construção de um mundo reconciliado.
Finalmente, Jesus aborda a perseguição. Os “que sofrem perseguição por amor da justiça” e aqueles que são insultados e perseguidos por causa Dele, são bem-aventurados, pois o Reino dos Céus lhes pertence e a sua recompensa será grande. Esta é a bem-aventurança mais desafiadora, pois exige um compromisso inabalável com a fé e com os valores do Evangelho, mesmo diante da adversidade. As Bem-Aventuranças são, portanto, um convite radical para uma vida que reflete o coração de Deus, uma vida de bem-aventurança que transcende as promessas superficiais do mundo.
Oração
Ó Deus, louvamos-Te pelas palavras de vida em Jesus. Ajuda-nos a ser humildes, a chorar com os que sofrem, a ter fome de justiça e a ser misericordiosos, para Te ver e sermos instrumentos da Tua paz. Dá-nos força na perseguição, lembrando a recompensa celestial, e que a Tua graça nos impulsione a viver as Bem-Aventuranças. Por Cristo. Amém.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, Jesus entrou, num sábado, em casa de um dos principais fariseus, para tomar uma refeição. Todos O observavam. Diante d’Ele encontrava-se um hidrópico. Jesus tomou a palavra e disse aos doutores da lei e aos fariseus: «É lícito ou não curar ao sábado?». Mas eles ficaram calados. Então Jesus tomou o homem pela mão, curou-o e mandou-o embora. Depois disse-lhes: «Se um filho vosso ou um boi cair num poço, qual de vós não irá logo retirá-lo em dia de sábado?». E eles não puderam replicar a estas palavras.
Palavra da salvação.
O Evangelho de Lucas 14, 1-6 oferece um vislumbre da sabedoria e compaixão de Jesus, contrastando-as com a rigidez legalista dos fariseus. A cena se desenrola em um sábado, um dia de observância religiosa estrita, na casa de um fariseu proeminente. Jesus é o centro das atenções, com “todos O observavam”, aguardando um passo em falso. A presença de um homem hidrópico, sofrendo de inchaço, serve como o ponto central para a lição de Jesus.
Jesus, ciente dos pensamentos e preconceitos dos presentes, faz uma pergunta direta e desafiadora: “É lícito ou não curar ao sábado?”. Esta questão simples expõe o dilema dos fariseus. Responder “sim” significaria ir contra sua interpretação literal da lei do sábado, enquanto “não” negaria a compaixão e a urgência de aliviar o sofrimento humano. O silêncio deles é revelador, mostrando a incapacidade de conciliar a letra da lei com a misericórdia.
Sem esperar por uma resposta, Jesus age com autoridade e ternura. Ele “tomou o homem pela mão, curou-o e mandou-o embora”. Este ato não é apenas um milagre físico, mas uma demonstração vívida de que a vida e a dignidade humana têm precedência sobre observâncias rituais. A lei do sábado, que proibia trabalhos, não deveria ser um obstáculo para fazer o bem e salvar uma vida.
Para aprofundar sua lição, Jesus apresenta uma parábola que expõe a hipocrisia de seus oponentes: “Se um filho vosso ou um boi cair num poço, qual de vós não irá logo retirá-lo em dia de sábado?”. Com essa ilustração do cotidiano, Jesus revela a inconsistência na lógica dos fariseus. Eles certamente resgatariam um filho ou um animal, mesmo que isso implicasse “trabalhar” no sábado, pois o amor e o interesse pessoal justificariam a ação. No entanto, quando se tratava de um estranho doente, sua rigidez legalista sufocava a compaixão.
Este episódio sublinha a mensagem central de Jesus: o amor a Deus e ao próximo é o mandamento principal. A lei não é um fim em si mesma, mas um meio para alcançar a justiça, a misericórdia e o amor. A observância cega da letra da lei, sem o espírito de caridade, torna-se vazia e até mesmo cruel. Jesus convida seus ouvintes, e a nós hoje, a olhar para além das regras e a abraçar o verdadeiro propósito da fé: servir a Deus servindo ao próximo. O silêncio dos fariseus no final do relato é a prova de que não puderam replicar, pois a verdade da compaixão de Jesus era inegável.
Oração: Senhor, ilumina os nossos corações para que possamos discernir o espírito da vossa Lei, colocando sempre a compaixão e o amor ao próximo acima de qualquer rigidez ou formalidade. Que possamos ver em cada necessitado a oportunidade de servir-Vos e de viver verdadeiramente o Vosso Evangelho. Amém.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele dia, aproximaram-se alguns fariseus, que disseram a Jesus: «Vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te». Jesus respondeu-lhes: «Ide dizer a essa raposa: Eu expulso demónios e realizo curas hoje e amanhã; ao terceiro dia chego ao meu fim. Mas hoje, amanhã e depois de amanhã, devo seguir o meu caminho, porque não é possível que um profeta morra fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados, quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a galinha recolhe os pintainhos debaixo das suas asas! Mas vós não quisestes. Pois bem. A vossa casa vai ficar abandonada. E Eu vos digo: Não voltareis a ver-Me, até chegar o dia em que direis: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor!’».
Palavra da salvação.
O Evangelho de Lucas 13, 31-35, apresenta-nos um Jesus determinado e com plena consciência do seu destino. A advertência dos fariseus sobre Herodes serve apenas para reafirmar a sua inabalável missão. A sua resposta a Herodes, chamando-o de “raposa”, não é um insulto, mas uma afirmação de autoridade e um desdém pela superficialidade do poder terreno. Jesus não se desvia do seu propósito: continuar a sua obra de libertação e cura, sabendo que o seu caminho culmina em Jerusalém. Esta cidade, central na fé judaica, é paradoxalmente o palco onde os profetas de Deus são rejeitados e mortos.
A frase “Não é possível que um profeta morra fora de Jerusalém” é a chave para este texto. Ela encapsula a trágica ironia de Jerusalém: a cidade escolhida para ser o centro da revelação divina torna-se o local da maior contradição. O amor de Deus, manifestado em Cristo, encontra a incompreensão e a ingratidão dos seus próprios habitantes. Jesus reconhece que o seu sacrifício, embora seja o ápice do amor divino, será consumado num ambiente de hostilidade. No entanto, é precisamente nesse cenário de pecado e rejeição que Deus prepara a salvação para a humanidade. Jerusalém, o teatro do pecado, é também o lugar da redenção, onde o Filho de Deus oferece a sua vida..
A lamentação de Jesus por Jerusalém é uma das passagens mais comoventes dos Evangelhos. A imagem da galinha que deseja recolher os seus pintainhos sob as asas é uma metáfora poderosa do cuidado protetor e do amor de Deus pelo seu povo. Jesus anseia por uma união e segurança que Jerusalém obstinadamente recusa: “Mas vós não quisestes”. Esta recusa não é uma falha divina, mas uma escolha livre da cidade, que acarreta consequências, como o abandono da “vossa casa”. No entanto, a promessa de que “Não voltareis a ver-Me, até chegar o dia em que direis: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor!’” abre uma porta à esperança e à futura aceitação de Cristo, apontando para a sua segunda vinda. A salvação, forjada através da oblação de Jesus na cruz em Jerusalém, é um caminho aberto para todos, mesmo para aqueles que O rejeitaram, demonstrando que o amor divino supera a incompreensão humana.
Oração:
Ó Jesus, que com ternura quiseste acolher Jerusalém sob as Tuas asas, abre os nossos corações à Tua presença. Ajuda-nos a reconhecer o Teu amor mesmo nos momentos de incompreensão e rejeição. Que possamos sempre dizer: “Bendito o que vem em nome do Senhor!”, e aceitar o Teu convite para a salvação que preparaste para nós. Amém.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava. Alguém Lhe perguntou: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele respondeu: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».
Palavra da salvação.
O Evangelho de hoje apresenta-nos uma das respostas mais desconcertantes e profundas de Jesus. Alguém Lhe pergunta, com a curiosidade que ainda hoje nos habita: “Senhor, são poucos os que se salvam?”. Em vez de uma estatística ou de uma revelação sobre o Além, Jesus oferece-nos uma advertência solene e um convite urgente para o *agora*. A questão não é quantos se salvam, mas *como* se salva cada um de nós. A resposta está não no conhecimento de um mistério futuro, mas na vivência responsável do presente.
A imagem da “porta estreita” é central. Não se trata de um convite ao sofrimento pelo sofrimento, mas a uma vida de escolhas deliberadas, de renúncia ao que é supérfluo e de foco no essencial. É a porta da conversão quotidiana, do combate ao pecado e da vivência concreta do amor. Jesus adverte que chegará um momento de exclusividade – “o dono da casa se levante e feche a porta” –, um símbolo do juízo, onde já não haverá lugar para procrastinações.
A cena seguinte é dramática. Muitos, confiantes numa familiaridade superficial com o Senhor – “Comemos e bebemos contigo” –, encontram-se do lado de fora. Esta é uma advertência poderosa para os cristãos de todos os tempos: a pertença a uma comunidade, a participação em rituais ou um conhecimento intelectual da fé não são garantia de salvação. O que define o discípulo é a prática da justiça e a obediência à vontade do Pai. A exclamação “Não sei donde sois” corta qualquer pretensão baseada em privilégios ou aparências.
E eis a reviravolta gloriosa: “Virão muitos do Oriente e do Ocidente e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus”. A salvação revela-se universal. O banquete do Céu não será um clube exclusivo para os que se julgavam herdeiros naturais, mas uma festa surpreendente onde os últimos – os pagãos, os marginalizados, os que buscaram a Deus com um coração sincero longe dos holofotes – se tornarão os primeiros. É o triunfo da misericórdia de Deus sobre as nossas lógicas limitadas.
**Oração:**
Senhor Jesus, que nos chamais a entrar pela porta estreita da conversão, afastai de nós a presunção de que nos basta pertencer ao Vosso reino por tradição ou hábito. Dai-nos a graça do esforço quotidiano, da humildade para reconhecer os nossos pecados e da coragem para praticar a Vossa justiça. Que o nosso lugar à mesa do banquete eterno seja conquistado não por nossos títulos, mas por um coração renovado pelo Vosso amor. Fazei-nos, pela Vossa misericórdia, dentre os que, vindos de todos os cantos do mundo, se alegrarão convosco para sempre. Amém.