Author Archives: Luz Divina

11 24 O valor de duas moedas

O Valor de Duas Moedas

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O Valor de Duas Moedas

22/11/2025, 14:35
O Valor de Duas Moedas

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(0:00) Bem-vindos! (0:00) Já alguma vez se parou para pensar no que realmente dá valor a um gesto? (0:05) Hoje vamos mergulhar numa história intemporal sobre o ato de dar, uma que nos vai fazer (0:10) questionar tudo o que julgávamos saber sobre generosidade. (0:14) Então, como é que duas moedas minúsculas podem valer mais que uma fortuna? (0:19) Para encontrar a resposta, vamos viajar até ao Templo de Jerusalém, um cenário que nos (0:23) é descrito no Evangelho de Lucas. (0:24) Imaginem só, o barulho, a multidão, a grandiosidade do lugar, e é precisamente aqui que uma cena (0:31) à primeira vista banal vai acontecer, mas com um significado, olha, absolutamente profundo.

(0:37) E o que é que se passa neste teor do Templo? (0:40) Bem, Jesus está a observar, a ver as pessoas a deixarem as suas ofertas, e claro, chegam (0:45) os ricos. (0:46) E eles não são discretos, não é? (0:47) Depositam grandes somas de dinheiro, com um certo orgulho, gestos vistosos que claro, (0:52) impressionam toda a gente à volta. (0:54) Só que, no meio de toda aquela ostentação, de todo aquele barulho de moedas de ouro, não (0:59) é isso que lhe capta a atenção, de todo.

(1:02) É algo muito mais subtil, um gesto quase silencioso, praticamente invisível para a maioria. (1:08) É a chegada de uma viúva, uma mulher pobre e humilde. (1:11) E o que é que ela dá? (1:13) Apenas isto, duas moedas, duas pequenas moedas de cobre.

(1:18) Pensemos bem, em termos materiais, é a coisa mais insignificante que se podia imaginar. (1:24) Uma quantia tão pequena, mas tão pequena, que se perdia completamente no meio das fortunas (1:29) que os outros estavam a dar. (1:30) Ninguém daria por ela.

(1:32) E é aqui que tudo muda. (1:34) É neste preciso momento que Jesus diz algo que, olhem, vira completamente a lógica do (1:38) mundo ao contrário. (1:40) Ele olha para todos e diz.

(1:42) Em verdade vos digo, esta viúva pobre deu mais do que todos os outros. (1:46) Aquela oferta minúscula, aquelas duas moedinhas, era na verdade a maior de todas. (1:52) É uma afirmação tão, mas tão forte, que nos obriga a parar e a pensar.

(1:57) Isto, claro, levanta uma pergunta óbvia, não é? (1:59) Que medida é esta? (2:00) Que matemática é esta que Jesus está a usar? (2:03) Porque, claramente, não é uma medida financeira, não se trata de contar dinheiro. (2:08) A história está a pedir-nos para olhar para além do óbvio, para além das aparências (2:11) e a tentar perceber, bem, uma forma totalmente diferente de medir o valor das coisas. (2:17) E a chave para perceber isto tudo está aqui, neste contraste.

(2:22) Reparemos bem, não é sobre a quantidade de dinheiro, é sobre a qualidade do sacrifício. (2:27) Os ricos, eles deram do que lhes sobrava. (2:29) Era um gesto de abundância, sim, mas não lhes custou nada.

(2:32) Não mudou a vida deles em absolutamente nada. (2:35) Já a viúva, a viúva deu da sua pobreza, ela deu tudo o que tinha para viver. (2:39) A oferta dela não era um extra, não era uma sobra, era o seu sustento.

(2:44) Portanto, o que estamos a ver é que a medida de Deus, esta medida divina, (2:48) não é sobre números, é sobre qualidade. (2:51) O que realmente conta não é o valor material do que se oferece, (2:55) mas sim o amor, a intenção, o sacrifício que está no coração de quem dá. (3:00) É uma perspectiva que valoriza o porquê e não apenas o quê.

(3:04) Mas, atenção, este princípio do sacrifício total não ficou preso numa história antiga. (3:09) De maneira nenhuma. (3:11) Ele ecoa, e de que maneira? (3:12) Na história de Santo André Dung-Lac e dos seus companheiros, os mártires do Vietnã.

(3:17) A história deles é, na verdade, um testemunho vivo e brutal (3:21) desta mesma ideia de entrega total. (3:24) A história é longa. (3:25) O cristianismo chega ao Vietnã no século XVII e as perseguições começam pouco depois.

(3:30) Mas é no século XIX que a coisa se torna verdadeiramente brutal, (3:33) com uma ferocidade que levou a milhares de mortos. (3:36) E estes homens e mulheres foram postos perante a escolha mais terrível que se pode imaginar. (3:40) Ou renunciavam à sua fé ou enfrentavam a tortura e uma morte certa.

(3:44) Não havia meio termo. (3:46) E aqui está a ligação à viúva. (3:48) Tal como ela, eles não deram apenas algo que tinham.

(3:51) Não, eles deram tudo o que eram. (3:54) A oferta deles foi a sua existência inteira. (3:57) Pensemos nisto, os seus bens, a sua segurança, (4:00) mas também as suas esperanças, os seus medos, os seus futuros (4:03) e, no fim, as suas próprias vidas.

(4:07) Foi uma entrega total, num ato final de uma convicção imensa. (4:11) Ok, então vamos ligar os pontos. (4:13) Que ponto é este aqui ou nestas duas histórias? (4:16) Parece uma comparação estranha, não é? (4:18) Como é que se pode sequer comparar duas moedas com uma vida inteira? (4:21) A ligação está toda nesta ideia, a oferta de panúria.

(4:25) É uma dádiva que vem da pobreza mais profunda. (4:28) A viúva ofereceu a sua pobreza material. (4:30) Era literalmente tudo o que ela tinha para sobreviver.

(4:33) Os mártires, por outro lado, ofereceram a pobreza de já não terem mais nada para dar, (4:37) a não ser a própria vida. (4:39) Nos dois casos, a oferta não veio da abundância, do que sobra. (4:43) Vem da escassez, do que faz falta.

(4:45) E é aqui que a lógica do sacrifício total se torna absolutamente clara. (4:51) A viúva deu tudo o que tinha. (4:54) Os mártires deram tudo o que eram.

(4:57) Reparemos na diferença e na semelhança. (5:00) A perspectiva divina mostra que o valor não está no que se dá, (5:03) mas no facto de ser tudo. (5:06) É neste tudo que o pequeno, o que parece insignificante, (5:09) se transforma em algo de um valor imenso, imensurável.

(5:14) Claro que isto não são apenas histórias para ficarem nos livros. (5:17) Longe disso. (5:18) Estas lições falam diretamente para o nosso tempo, para as nossas vidas hoje.

(5:23) E desafiam-nos, a todos, a parar um pouco (5:26) e a reexaminar o que pensamos sobre generosidade, (5:29) sobre valor e sobre o que significa realmente sacrificar algo. (5:33) Portanto, as histórias da viúva e dos mártires (5:36) deixam-nos com um convite a uma reflexão mais profunda, (5:39) a pensar não apenas no que se dá, mas no como (5:42) e, talvez mais importante, de onde vem essa dádiva. (5:46) E por isso, a análise termina com uma pergunta, (5:48) que não é para ser respondida agora, mas para ficar a ecoar.

(5:51) Na vida de cada um, com os recursos que se têm, (5:54) o que é que significa, na verdade, dar tudo?

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11 23 Domingo Cristo Rei Lucas 23, 35-43 Dia de Cristo Rei

Comentário ao Evangelho de Cristo Rei: Lucas 23, 35-43

A Realeza Manifestada na Cruz

O Evangelho de hoje, no Domingo de Cristo Rei, apresenta-nos um paradoxo profundo: a realeza de Jesus manifesta-se não num trono de glória, mas na fragilidade da cruz. Lucas 23, 35-43 coloca-nos perante a cena da crucificação, onde os líderes e soldados zombam de Jesus, desafiando-O a salvar-Se a Si mesmo para provar a Sua identidade como Messias e Rei. Este escárnio reflete uma expectativa de realeza terrena, de poder visível e triunfalismo imediato. Eles viam um fracasso, mas nós, pela fé, vemos o maior ato de amor e a fundação do Seu Reino.

 

O letreiro acima da Sua cabeça, “Este é o Rei dos judeus”, é irónico para os espectadores, mas profundamente verdadeiro para o crentes. A verdadeira coroação de Jesus não é de ouro, mas de espinhos, e o Seu trono é a Cruz. É neste contexto de máxima humilhação que a fé mais pura é pronunciada.

 

O encontro com os dois malfeitores é o ponto focal da leitura. Um deles ecoa o cinismo da multidão: “Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também.” A sua exigência é de poder, um Messias que use a Sua força para escapar ao sofrimento. Ele procura salvação física e imediata, falhando em reconhecer a dimensão espiritual do Reino.

 

Contrastando radicalmente, o “bom ladrão” repreende o seu companheiro e faz a mais extraordinária confissão de fé. Ele reconhece a justiça do seu próprio castigo, admitindo as “más ações”, mas proclama a inocência de Jesus: “Ele nada praticou de condenável.” Mais importante, ele vê a realeza de Jesus para além da morte iminente. A sua súplica é um ato de esperança escatológica: “Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza.”

 

Esta confissão é o reconhecimento da “Senhoria” de Jesus, que a introdução do Evangelho muito bem sublinha. Ele não pede para ser salvo da cruz, mas para ser salvo na realeza de Jesus. O seu pedido de “lembrança” é a certeza de que Jesus tem um Reino que se estende para além da morte.

 

A resposta de Jesus é imediata e transformadora: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso.” Esta promessa é o reconhecimento soberano do Bom Ladrão como o primeiro santo canonizado por Cristo, e demonstra que o Reino de Deus está aberto aos humildes, aos arrependidos e àqueles que, mesmo no limite da vida, reconhecem a autoridade de Cristo. A realeza de Jesus é, portanto, a realeza do perdão, da misericórdia e da vida eterna, acessível a todos, independentemente do passado, bastando um ato sincero de fé e arrependimento. Este Reino já começou e é uma realidade presente para quem a confessa.

Oração

Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, nós Te contemplamos na Cruz, onde o Teu Reino de amor e serviço se manifestou plenamente. Concede-nos a fé do Bom Ladrão, para reconhecermos a Tua realeza mesmo nos momentos de maior escuridão e sofrimento. Que a Tua promessa de Paraíso seja a nossa esperança e o guia da nossa vida. Lembra-Te de nós, Senhor, agora e na hora da nossa morte. Amém.

11 17 Notebook LM A tua biblioteca e o teu tutor online Concordas?

Amigo envio este documento . Se lhe interessa agradecia resposta para dictof@gmail.com. Temos projetos maravilhosos e gratuitos….

 

 

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03:48
12:03

(0:00) Olá e bem-vindos. (0:02) Tenho andado a explorar o material que nos chegou para a análise de hoje (0:05) e deparei-me com uma citação que me ficou mesmo na cabeça. (0:11) Descrevo uma ferramenta de IA do Google, o Notebook LM, (0:14) como uma das ferramentas mais insanas e poderosas para aprender qualquer coisa.

(0:20) Isso é uma afirmação forte. (0:21) É, não é? E eu normalmente sou cética com este tipo de hipérbole, (0:26) mas depois de ver as análises dos canais Carino Lago e Negócios em Mento, (0:30) começo a achar que se calhar não é exagero. (0:32) É uma afirmação ousada, sem dúvida.

(0:34) O que eu acho fascinante aqui, e que as fontes exploram muito bem, (0:37) é que o Notebook LM não tenta ser, pronto, mais um chato JPT. (0:41) Certo. (0:42) Ele tenta resolver o problema mais irritante, e até perigoso, de IAs generativas.

(0:47) A tendência para inventar coisas. (0:49) Exatamente. As chamadas alucinações.

(0:51) Exato. Todos nós já passámos por isso. (0:54) Pedimos uma informação específica, (0:56) a IA responde com uma confiança absoluta, (1:00) mas a informação está completamente errada.

(1:03) É o calcanhar daquilos disto tudo. (1:06) Lá está. (1:06) Então, como é que o Notebook LM resolve isto? (1:09) Qual é o truque? (1:12) O truque é a sua premissa fundamental.

(1:14) Em vez de usar o conhecimento infinito e, bem, caótico da internet para responder… (1:21) Ele usa o quê? (1:22) Ele baseia-se exclusivamente nas fontes que nós lhe damos. (1:25) Podem ser PDFs, artigos, links de sites, até vídeos do YouTube. (1:31) Ah, ok.

(1:32) Ele torna-se um especialista absoluto no nosso material. (1:35) E apenas no nosso material. (1:37) A interação muda completamente.

(1:39) Sim, claro. (1:40) Deixamos de falar com um sabe-tudo genérico (1:43) para passar a ter um diálogo profundo com os nossos próprios documentos. (1:47) Isso sim.

Parece uma mudança de paradigma. (1:49) Quer dizer, em vez de perguntar à IA o que é que tu sabes, (1:53) passamos a perguntar o que é que os meus documentos dizem sobre isto. (1:58) Precisamente.

(1:59) Ok, isto já me está a interessar. Vamos começar por aí. (2:02) O que é que o impede de se perder, como acontece com os outros? (2:06) Eu sei que quando damos muitos documentos a um chat GPT, (2:10) ele parece que se esquece do início da conversa.

(2:12) É uma ótima pergunta e toca no cerno da questão técnica. (2:16) Pensa na janela de contexto de um chat GPT, (2:18) como a memória de curto prazo de uma pessoa. (2:21) Se lhe dermos um livro inteiro para ler de uma só vez, (2:24) a meio do caminho ela provavelmente já não se vai lembrar (2:26) dos detalhes do primeiro capítulo.

(2:28) Começa a generalizar, a preencher as lacunas… (2:30) E a inventar. (2:33) O notebook LM, por outro lado, foi desenhado para ter (2:35) uma memória fotográfica de toda a nossa biblioteca de projetos. (2:40) Ele não se esquece de nada do que lhe demos para ler.

11 22 Sábado Lc 20, 27-40 «Não é um Deus de mortos, mas de vivos»

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus alguns saduceus – que negam a ressurreição – e fizeram-lhe a seguinte pergunta: «Mestre, Moisés deixou-nos escrito: ‘Se morrer a alguém um irmão, que deixe mulher, mas sem filhos, esse homem deve casar com a viúva, para dar descendência a seu irmão’. Ora havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu sem filhos. O segundo e depois o terceiro desposaram a viúva; e o mesmo sucedeu aos sete, que morreram e não deixaram filhos. Por fim, morreu também a mulher. De qual destes será ela esposa na ressurreição, uma vez que os sete a tiveram por mulher?». Disse-lhes Jesus: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus. E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente, quando chama ao Senhor ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos». Então alguns escribas tomaram a palavra e disseram: «Falaste bem, Mestre». E ninguém mais se atrevia a fazer-Lhe qualquer pergunta.

Palavra da salvação.

REFLEXÃO ..

Este trecho do Evangelho de São Lucas apresenta um diálogo crucial entre Jesus e os saduceus, um grupo que, distintamente, negava a doutrina da ressurreição dos mortos. A sua pergunta, baseada numa interpretação literal da Lei do Levirato (Deuteronómio 25, 5), é uma armadilha teológica, visando ridicularizar a ideia da vida eterna ao questionar a quem a mulher pertenceria após ter casado com sete irmãos.

Jesus, com a Sua sabedoria divina, desfaz a tentativa de levar a lógica terrena para a realidade celestial. Ele esclarece que a vida na ressurreição transcende as estruturas e necessidades desta vida presente. A Sua resposta é categórica: “Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento.”

A vida eterna não é uma mera continuação da vida terrena. É uma transformação radical. Os ressuscitados são comparados aos Anjos, não no sentido de se tornarem seres angelicais, mas por partilharem a mesma natureza imortal e incorruptível. Eles “já não podem morrer” e, por serem “nascidos da ressurreição”, são autenticamente “filhos de Deus”. Esta é a dignidade máxima da nossa fé: a participação plena na vida do próprio Deus.

Mais importante do que a rejeição do casamento na vida futura, Jesus usa este momento para provar a realidade da ressurreição através das Escrituras que os saduceus aceitavam. Ao citar a passagem da sarça ardente, onde Deus se revela a Moisés como “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob” (Êxodo 3, 6), Jesus argumenta com poder: Deus não é o Deus dos mortos, mas “de vivos, porque para Ele todos estão vivos”. Se os patriarcas estivessem aniquilados, Deus não se apresentaria no presente como o seu Deus. A sua existência, mesmo após a morte física, é garantida pela fidelidade e eternidade de Deus.

O Evangelho é uma profunda lição de teologia e esperança. Lembra-nos que a nossa fé não se limita a esta breve existência. O futuro que nos espera é de plenitude, imortalidade e filiação divina, onde as categorias humanas temporais darão lugar à glória eterna de Deus..


🙏 Oração.

Senhor Jesus Cristo, Mestre da Verdade, agradecemos-Te por revelares a glória da ressurreição e a esperança da vida futura. Ajuda-nos a viver as nossas vidas terrenas com a mente e o coração fixos nas realidades eternas, sem nos deixarmos prender pelas preocupações passageiras deste mundo. Dá-nos a graça de sermos dignos de participar na ressurreição dos justos, para que sejamos contados entre os Teus filhos imortais. Que possamos reconhecer-Te como o Deus dos vivos, para quem nenhuma vida se perde. Que assim seja.


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🙏 Comentário ao Evangelho: Lucas 20, 27-40

 

Este trecho do Evangelho de São Lucas apresenta um diálogo crucial entre Jesus e os saduceus, um grupo que, distintamente, negava a doutrina da ressurreição dos mortos. A sua pergunta, baseada numa interpretação literal da Lei do Levirato (Deuteronómio 25, 5), é uma armadilha teológica, visando ridicularizar a ideia da vida eterna ao questionar a quem a mulher pertenceria após ter casado com sete irmãos.

Jesus, com a Sua sabedoria divina, desfaz a tentativa de levar a lógica terrena para a realidade celestial. Ele esclarece que a vida na ressurreição transcende as estruturas e necessidades desta vida presente. A Sua resposta é categórica: “Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento.”

A vida eterna não é uma mera continuação da vida terrena. É uma transformação radical. Os ressuscitados são comparados aos Anjos, não no sentido de se tornarem seres angelicais, mas por partilharem a mesma natureza imortal e incorruptível. Eles “já não podem morrer” e, por serem “nascidos da ressurreição”, são autenticamente “filhos de Deus”. Esta é a dignidade máxima da nossa fé: a participação plena na vida do próprio Deus.

Mais importante do que a rejeição do casamento na vida futura, Jesus usa este momento para provar a realidade da ressurreição através das Escrituras que os saduceus aceitavam. Ao citar a passagem da sarça ardente, onde Deus se revela a Moisés como “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob” (Êxodo 3, 6), Jesus argumenta com poder: Deus não é o Deus dos mortos, mas “de vivos, porque para Ele todos estão vivos”. Se os patriarcas estivessem aniquilados, Deus não se apresentaria no presente como o seu Deus. A sua existência, mesmo após a morte física, é garantida pela fidelidade e eternidade de Deus.

O Evangelho é uma profunda lição de teologia e esperança. Lembra-nos que a nossa fé não se limita a esta breve existência. O futuro que nos espera é de plenitude, imortalidade e filiação divina, onde as categorias humanas temporais darão lugar à glória eterna de Deus.


🙏 Oração

 

Senhor Jesus Cristo, Mestre da Verdade, agradecemos-Te por revelares a glória da ressurreição e a esperança da vida futura. Ajuda-nos a viver as nossas vidas terrenas com a mente e o coração fixos nas realidades eternas, sem nos deixarmos prender pelas preocupações passageiras deste mundo. Dá-nos a graça de sermos dignos de participar na ressurreição dos justos, para que sejamos contados entre os Teus filhos imortais. Que possamos reconhecer-Te como o Deus dos vivos, para quem nenhuma vida se perde. Que assim seja.


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11 21 Sexta Lc 19, 45-48 «Fizestes da casa do Senhor um covil de ladrões»

 

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, Jesus entrou no templo e começou a expulsar os vendedores, dizendo-lhes: «Está escrito: ‘A minha casa é casa de oração’; e vós fizestes dela ‘um covil de ladrões’». Jesus ensinava todos os dias no templo. Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os chefes do povo procuravam dar Lhe a morte, mas não encontravam o modo de o fazer, porque todo o povo ficava maravilhado quando O ouvia.
Palavra da salvação…

Reflexão .

O Evangelho de São Lucas (19, 45-48) retrata um Jesus profundamente impulsionado pelo zelo da Casa de Seu Pai. Este fervor pela santidade do Templo – concebido como um espaço de oração, súplica e adoração a Deus – ecoa um amor que se manifestou desde cedo, lembrando o episódio em que Ele, ainda jovem, se encontrava entre os doutores, motivado pela necessidade de se dedicar às “coisas do Pai” (Lc 2, 49). Não é, portanto, a primeira vez que Jesus demonstra esta paixão ardente…tinado a ser uma “casa de oração para todas as nações”, estava a desviar-se drasticamente da sua vocação divina. Sob o pretexto de facilitar as práticas religiosas – como a troca de moeda para o imposto do Templo e a venda de animais para os sacrifícios –, o espaço sagrado foi transformado pelos contemporâneos de Jesus num mercado barulhento, degenerando num foco de lucro e exploração..

A atitude de Jesus, ao expulsar os vendilhões, ultrapassava a simples crítica ao comércio: era uma condenação da perversão do que era sagrado e do roubo da adoração genuína. Na realidade, o Templo estava a ser despojado do seu sentido mais profundo: o encontro sincero e desinteressado com Deus..

Esta ação de Jesus é um poderoso ensinamento sobre a prioridade do espírito sobre a letra, e do amor sobre a transação. Até as coisas destinadas a fins santos – como os sacrifícios e as ofertas – podem ser profanadas quando o coração está mais voltado para o benefício pessoal do que para a glória de Deus..

O Evangelista Lucas realça o contraste entre o fervor purificador de Jesus e a reação das autoridades: “Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os chefes do povo procuravam dar Lhe a morte.” O zelo de Jesus confronta o poder estabelecido e os interesses criados. No entanto, o povo simples ficava “maravilhado quando O ouvia”, reconhecendo a verdade e a autoridade em Suas palavras e ações..

Esta purificação aponta para um Templo novo e definitivo: a própria humanidade santíssima de Jesus Cristo ressuscitado. Ele é o lugar onde Deus habita plenamente. O desafio para nós, hoje, é reconhecer que o nosso coração, batizado e habitado pelo Espírito Santo, é o verdadeiro Templo de Deus. Precisamos, tal como Jesus fez em Jerusalém, purificar este Templo interior de todas as “mesas de cambistas” – os apegos, as preocupações mundanas, as faltas de caridade – que nos impedem de ser “casa de oração” pura..

A purificação de que se fala prefigura um Templo novo e definitivo, que é a própria humanidade santíssima de Jesus Cristo ressuscitado. É n’Ele que Deus reside em plenitude..

O desafio atual é reconhecer que o nosso coração, uma vez batizado e habitado pelo Espírito Santo, constitui o verdadeiro Templo de Deus…

Tal como Jesus agiu em Jerusalém, somos chamados a purificar este Templo interior. Devemos remover todas as “mesas de cambistas” – os apegos, as preocupações mundanas e as faltas de caridade – que nos impedem de ser uma “casa de oração” pura..

A Palavra de Deus nos convida a meditar: de que forma tenho eu transformado a minha vida, que é Templo do Espírito Santo, num “covil de ladrões” ou num mercado de vaidades?

Oração

Senhor Jesus Cristo, Verbo de Deus e Templo Vivo, inflamado pelo zelo de Tua Casa, entra no templo do meu coração. Expulsa de mim todo o comércio de interesses mesquinhos, toda a ganância e todo o ruído que abafa a Tua voz. Que a minha alma não seja um covil de preocupações e pecados, mas sim uma casa de oração, um santuário de silêncio e adoração, onde Tu possas reinar soberano. Dá-me a graça de Te ouvir e de Te acolher com a mesma admiração do povo simples. Que a minha vida seja sempre um louvor puro a Deus. Ámen.

11 20 Quinta Lc 19, 41-44 «Se conhecesses o que te pode dar a paz!»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, quando Jesus Se aproximou de Jerusalém, ao ver a cidade, chorou sobre ela e disse: «Se ao menos hoje conhecesses o que te pode dar a paz! Mas não. Está escondido a teus olhos. Dias virão para ti, em que os teus inimigos te rodearão de trincheiras e te apertarão de todos os lados. Esmagar-te-ão a ti e aos teus filhos e não deixarão em ti pedra sobre pedra, por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada».
Palavra da salvação.

REFLEXÃO

Era o momento culminante da peregrinação de Jesus. Ele aproximava-Se de Jerusalém, a cidade santa, o coração da aliança entre Deus e o seu povo. A multidão  aclamava O agitando ramos e proclamando a chegada do Reino. No entanto, em vez de triunfo, o rosto d o Mestre estava marcado por uma dor profunda. Ao avistar a cidade, com o seu esplendor e o seu Templo, Jesus não soltou gritos de vitória, mas rompeu em pranto.

Este choro não era de frustração pessoal, mas o pranto do próprio Deus pela teimosia do seu povo. Era o lamento do coração divino perante uma oportunidade que estava a ser tragicamente desperdiçada. A sua voz, carregada de uma emoção dilacerante, ecoou como um último e urgente apelo: «Se ao menos hoje conhecesses o que te pode dar a paz!». A verdadeira paz – a shalom que é plenitude, reconciliação com Deus e harmonia – estava ali, incarnada n’Ele, a oferecer-se gratuitamente. Mas Jerusalém, simbolizando todo o povo, permanecia cega. A sua paz estava escondida aos seus próprios olhos, ofuscada por expectativas políticas, por um rigor religioso sem amor e por uma recusa em reconhecer a humilde manifestação de Deus no seu meio.

Então, o tom da lamentação transforma-se em profecia solene. Jesus, com a clareza de quem vê o futuro inexorável que a rejeitação acarretará, anuncia a consequência terrível dessa cegueira. A paz que recusaram darão lugar à guerra. A cidade que O rejeita será, por sua vez, sitiada e esmagada. A profecia cumprir-se-ia historicamente, décadas mais tarde, no ano 70 d.C., quando as legiões romanas de Tito arrasariam Jerusalém, não deixando “pedra sobre pedra”, tal como Jesus previu. A destruição não é apresentada como um castigo arbitrário de um Deus vingativo, mas como a consequência lógica e trágica de uma escolha: “por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada”.

A “visitação” de Deus em Jesus era o momento da graça, o kairos, o tempo oportuno para o acolhimento e a salvação. Ao rejeitá-Lo, Jerusalém escolheu o caminho que levava à sua própria ruína. Este episódio transcende o contexto histórico para se tornar um aviso perene para todo o coração humano e para toda a comunidade de fé. É um convite urgente à vigilância espiritual, a abrir os olhos para reconhecer a presença de Deus quando Ele nos visita nas encruzilhadas da vida, nos apelos dos pequenos, no silêncio da oração, no rosto do necessitado. Ignorar essa visitação divina é optar por uma falsa paz que conduz, inevitavelmente, à desolação.

**Oração**
Ó Jesus, que chorastes sobre Jerusalém com um coração transbordante de amor e dor, tende piedade de nós quando, na nossa cegueira, recusamos o dom da vossa paz.
Afastai de nós a soberba e a indiferença que escondem de nossos olhos a vossa visitação quotidiana. Abri o nosso coração para reconhecer o tempo da vossa graça e acolher a verdadeira paz que só Vós podeis dar.
Convertei-nos, para que, reconhecendo-Vos como nosso único Salvador, vivamos sempre na luz da vossa misericórdia e sejamos construtores da vossa paz no mundo. Amém.

11 19 Quarta Lc 19, 11-28 «Porque não entregaste ao banco o meu dinheiro?»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, disse Jesus uma parábola, porque estava perto de Jerusalém e eles pensavam que o reino de Deus ia manifestar-se imediatamente. Então Jesus disse: «Um homem nobre foi para uma região distante, a fim de ser coroado rei e depois voltar. Antes, porém, chamou dez dos seus servos e entregou-lhes dez minas, dizendo: ‘Fazei-as render até que eu volte’. Ora os seus concidadãos detestavam-no e mandaram uma delegação atrás dele para dizer: ‘Não queremos que ele reine sobre nós’. Quando voltou, investido do poder real, mandou chamar à sua presença os servos a quem entregara o dinheiro, para saber o que cada um tinha lucrado. Apresentou-se o primeiro e disse: ‘Senhor, a tua mina rendeu dez minas’. Ele respondeu-lhe: ‘Muito bem, servo bom! Porque foste fiel no pouco, receberás o governo de dez cidades’. Veio o segundo e disse-lhe: ‘Senhor, a tua mina rendeu cinco minas’. A este respondeu igualmente: ‘Tu também, ficarás à frente de cinco cidades’. Depois veio o outro e disse-lhe: ‘Senhor, aqui está a tua mina, que eu guardei num lenço, pois tive medo de ti, que és homem severo: levantas o que não depositaste e colhes o que não semeaste’. Disse-lhe o senhor: ‘Servo mau, pela tua boca te julgo. Sabias que sou homem severo, que levanto o que não depositei e colho o que não semeei. Então, porque não entregaste ao banco o meu dinheiro? No meu regresso tê-lo-ia recuperado com juros’. Depois disse aos presentes: ‘Tirai-lhe a mina e dai-a ao que tem dez’. Eles responderam-lhe: ‘Senhor, ele já tem dez minas!’. O rei respondeu: ‘Eu vos digo: A todo aquele que tem se dará mais, mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. Quanto a esses meus inimigos, que não me quiseram como rei, trazei-os aqui e degolai-os na minha presença’». Dito isto, Jesus seguiu, à frente do povo, para Jerusalém.

Palavra da salvação.

REFLEXÃO

A Parábola das Minas, contada por Jesus no caminho para Jerusalém, confronta a expectativa popular de que o Reino de Deus se manifestaria imediatamente e em grande esplendor. Em vez disso, Jesus adverte sobre a necessidade de um período de espera ativa e responsável por parte dos Seus seguidores, enquanto Ele, o “homem nobre”, se ausenta para receber o Seu Reino.

A história é rica em simbolismo e apresenta três focos distintos: a fidelidade na gestão, a rejeição da realeza e a prestação de contas final.

O cerne da parábola é a instrução dada aos dez servos: “Fazei-as render até que eu volte”. As “minas” representam os dons, talentos, oportunidades e, acima de tudo, a missão que Cristo confia a cada crente. A igualdade da distribuição inicial (uma mina para cada um) sublinha que todos, independentemente da sua posição, recebem algo de valor e são chamados a fazê-lo frutificar. A diferença não está no dom inicial, mas na diligência e na coragem em investir esse dom. Os dois primeiros servos demonstram uma gestão ativa e arriscada, transformando um recurso limitado numa riqueza significativa. A recompensa é o governo de cidades, simbolizando a participação no Reino de Cristo e a ampliação da sua responsabilidade. A fórmula “fiel no pouco, receberás o governo de dez cidades” é um convite à confiança na providência e à ação audaciosa.

O contraste surge com o terceiro servo. O seu medo paralisa-o. O dinheiro, em vez de ser um instrumento de crescimento, torna-se um objeto guardado por insegurança e por uma perceção distorcida e severa do seu senhor. Ele teme o risco e falha em reconhecer a bondade inerente ao dom recebido. Ao invés de reconhecer o seu medo como a sua própria falha, projeta essa severidade no Mestre. A perda da mina e o princípio da acumulação (“A todo aquele que tem se dará mais”) não são uma injustiça, mas sim a consequência lógica da sua inação: o talento não utilizado atrofia e é reatribuído a quem provou ser capaz de o multiplicar.

Finalmente, a parábola termina com a condenação dos concidadãos que rejeitaram abertamente o rei. Esta é uma advertência severa contra a rejeição consciente da autoridade e do senhorio de Cristo, mostrando que a Sua volta será um momento de acerto de contas definitivo, tanto para os servos (as responsabilidades) como para os inimigos (a rebelião).

Em suma, a Parábola das Minas é um apelo à vigilância ativa. O tempo de espera entre a Ascensão de Jesus e a Sua segunda vinda é um tempo de trabalho missionário e de frutificação dos talentos recebidos, uma demonstração de amor e lealdade ao Rei.


🙏 Oração

 

Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, Tu confiaste-nos as Tuas “minas”, os dons do Teu Espírito e a missão do Teu Evangelho. Livra-nos do medo que paralisa e da preguiça que esconde o talento. Dai-nos a audácia da fé e a diligência do amor para que possamos fazer render o que nos deste, servindo-Te ativamente no mundo e, no Teu regresso, possamos ouvir a Tua voz: “Muito bem, servo bom e fiel”. Ámen.


11 18 Terça Mt 14, 22-33 «Manda-me ir ter contigo sobre as águas»

EVANGELHO Mt 14, 22-33
«Manda-me ir ter contigo sobre as águas»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Depois de ter saciado a fome à multidão,
Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco
e a esperá-l’O na outra margem,
enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu,
subiu a um monte, para orar a sós.
Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar,
açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite,
Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar,
assustaram-se, pensando que fosse um fantasma.
E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo:
«Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor,
manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!» – disse Jesus.
Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas,
para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se,
gritou: «Salva-me, Senhor!»
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o.
Depois disse-lhe:
«Homem de pouca fé, porque duvidaste?».
Logo que subiram para o barco, o vento amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus
e disseram-Lhe:
«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

Palavra da salvação.

REFLEXÃO

Reflexão: Mt 14, 22-33 – «Manda-me ir ter contigo sobre as águas»

A celebração da Dedicação das Basílicas dos Santos Pedro e Paulo, neste dia 18 de novembro, convida-nos a refletir sobre a fundação e a unidade da Igreja, simbolizada na fraternidade destes dois grandes Apóstolos. É neste contexto de alicerces firmes que o Evangelho da Terça-feira (Mt 14, 22-33) se torna particularmente eloquente, focando-se na figura de Pedro e a sua jornada de fé e de dúvida.

O episódio da caminhada sobre as águas ilustra perfeitamente a condição do discípulo. Depois de Jesus ter despedido a multidão e Se ter retirado para orar, os discípulos encontram-se sozinhos no mar, açoitados por um vento contrário. Esta é a imagem da Igreja em qualquer época, enfrentando as dificuldades e as tempestades do mundo. É na “quarta vigília da noite” – momento de maior escuridão e cansaço – que Jesus Se manifesta, caminhando sobre as águas. A Sua presença, contudo, é inicialmente confundida com um fantasma, gerando medo. A primeira palavra de Jesus é sempre de conforto e autoridade: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
A resposta de Pedro é um ato de fé audaciosa: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». Esta frase não é apenas um teste, mas um desejo profundo de partilhar a mesma natureza, o mesmo poder de domínio sobre o caos que Jesus demonstra. O «Vem!» de Jesus é o convite à participação plena na Sua missão.

Pedro, o futuro alicerce da Igreja (como a Basílica edificada sobre o seu sepulcro), desce do barco, demonstrando que a fé verdadeira exige sair da segurança das estruturas. No entanto, a sua fé é rapidamente confrontada pela realidade sensível: «sentindo a violência do vento». É aqui que reside a fragilidade humana. O foco desvia-se de Jesus para o perigo, e Pedro começa a afundar-se. O seu grito desesperado – «Salva-me, Senhor!» – é a oração mais sincera do cristão em apuros.
A ação de Jesus é imediata: estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. O questionamento que se segue não é de condenação, mas de pedagogia: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». Esta dúvida é o oposto da fé firme que deve caracterizar a Cátedra de Pedro. Contudo, é precisamente na sua fraqueza e no reconhecimento da necessidade de ser salvo que Pedro se torna um modelo.
O milagre não é apenas caminhar sobre as águas, mas sim a calma que se segue à subida de Jesus para o barco. O vento amaina, e a confissão final dos discípulos – «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus» – torna-se a base de toda a fé e o reconhecimento da autoridade divina de Jesus.
Este Evangelho, na festa que celebra a solidez das basílicas de Pedro e Paulo, lembra-nos que a Igreja é sustentada pela presença constante de Cristo, mesmo quando os seus líderes e membros enfrentam momentos de fraqueza e medo. É na confiança absoluta em Jesus, e não na ausência de ventos contrários, que reside a nossa segurança.

Oração

Senhor Jesus Cristo,
Neste dia em que celebramos os alicerces da Vossa Igreja, a fé firme de Pedro e a zelosa missão de Paulo, reconhecemos-Vos como o único que caminha sobre as tempestades do mundo. Somos, muitas vezes, como Pedro, cheios de entusiasmo para Vos seguir, mas facilmente distraídos e assustados pelos ventos contrários da vida. Ensinai-nos a manter o olhar fixo em Vós. Quando a dúvida nos afunda e o medo nos paralisa, estendei-nos a Vossa mão poderosa, segurai-nos e guiai-nos. Fortalecei a nossa fé para que, saindo do barco das nossas seguranças, possamos caminhar convosco em Vossa Palavra, testemunhando que sois verdadeiramente o Filho de Deus. Vós que viveis e reinais para sempre. Amén.

 

11 17 Segunda  Lucas 18,35-43 – “Que queres que eu te faça? Que eu veja, Senhor”

 

O Evangelho de Lucas (18,35-43) apresenta a cura do cego de Jericó (Bartimeu) como um poderoso ensinamento sobre a fé, o encontro e o discipulado. O grito do cego à beira da estrada – “Filho de David, tem piedade de mim!” – é o ponto de partida. Ele não apenas deseja a cura física, mas também o reconhecimento e a integração.

Ao ouvir o clamor, Jesus para. Este simples ato de parar, no meio de uma multidão apressada, é um gesto profundo de atenção à dor e à marginalidade. A pergunta de Jesus: “Que queres que eu te faça?” não é retórica; é um convite à fé e à liberdade. A resposta, “Que eu veja, Senhor”, resume a busca humana por sentido, luz e salvação. A salvação de Bartimeu é imediata: “A tua fé te salvou.” Ele não só recupera a visão física, mas ganha a visão da fé, respondendo com um discipulado ativo ao “seguir Jesus, glorificando a Deus”.

Relação com Santa Isabel da Hungria: O Olhar Ativo da Caridade

A caridade ativa de Santa Isabel da Hungria (1207-1231) surge como um espelho e um complemento prático da fé salvífica do cego de Jericó. O milagre em Bartimeu é a manifestação da graça de Jesus. A vida de Isabel é a manifestação da resposta humana a essa graça.

 

O texto de Lucas destaca a fé que leva ao “ver” e ao discipulado. A vida de Santa Isabel é um paradigma de como essa fé é traduzida em serviço concreto e contínuo.

1. Reflexão: Imitando o Olhar Ativo de Jesus

Se Jesus “viu” a necessidade do cego à beira da estrada e “parou para atendê-lo”, a vida de Santa Isabel é um ato contínuo de “ver” e “atender” às necessidades do próximo. Ela imitou o gesto de Jesus ao se inclinar sobre os pobres e doentes, os marginalizados da sua época, renunciando à sua vida de princesa para servir ativamente. A sua caridade era um ato de “ver” que usava os olhos da fé, procurando ativamente os necessitados e reconhecendo neles o rosto de Cristo sofredor. O seu serviço é o reflexo do olhar de Jesus.

2. Complemento: A Caridade como Equivalente Funcional da Fé

Jesus afirmou que a fé de Bartimeu o salvou, levando-o a seguir o Mestre. Santa Isabel complementa este ensinamento ao demonstrar que a fé viva se traduz numa ação que se traduz em serviço concreto aos mais vulneráveis. A sua caridade incansável é o equivalente funcional da fé salvífica de Bartimeu.

 

O clamor persistente do cego foi a sua oração de fé. A resposta incessante de Santa Isabel às necessidades dos pobres foi, por sua vez, a sua oração de caridade em ação. Ambas as atitudes demonstram uma fé viva que não pode ser silenciada nem inativa. A sua dedicação é a prova visível de que o Reino de Deus se manifesta através do amor e da atenção aos marginalizados.

 

O “ver” de Jesus é o ato de graça que oferece a salvação através da fé. A caridade de Santa Isabel é o ato de resposta humana que perpetua esse “ver” no mundo, glorificando a Deus no próximo.

Oração

Ó Deus, fonte de toda luz e de todo amor,
Vós que Parastes na estrada para ouvir o clamor do cego Bartimeu e lhe devolvestes a visão, ensinai-nos a parar e a escutar.
Pela intercessão de Santa Isabel da Hungria, que traduziu a fé em pão e serviço, concedei-nos a graça de não termos apenas olhos para ver as nossas próprias necessidades, mas olhos de fé para reconhecer o Vosso rosto nos pobres e marginalizados.
Que a nossa fé seja ativa, transformando-se em atos de caridade que glorificam o Vosso Reino na terra.

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10 16 Domingo Lc 21, 5-19 «Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas» Evangelho de Nosso Semhor Jesus Cristo segundo S. Lucas

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S, Lucas

Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».

Palavra da salvação.

Naquele tempo, falando algumas pessoas sobre o templo, que estava adornado com belas pedras e ofertas votivas, disse Jesus:«Dias virão em que, de tudo o que vedes, não ficará pedra sobre pedra que não seja destruída».Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando será isso e qual será o sinal de que estas coisas estão para acontecer?».Jesus respondeu: «Tende cuidado, não vos deixeis enganar.Porque muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’ e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais.Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos assusteis. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas o fim não virá logo».Disse-lhes ainda: «Há de levantar-se povo contra povo e reino contra reino.Haverá grandes terramotos e, em vários lugares, fomes e epidemias.

Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu.Antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão de perseguir-vos.Hão de entregar-vos às sinagogas e às prisões e levar-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome.Assim tereis ocasião de dar testemunho.

Gravai nos vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa.Eu vos darei a palavra e uma sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer.Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos e tirarão a vida a alguns de vós.

Sereis odiados por todos, por causa do meu nome.Mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.

Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».

Reflexão

O Evangelho deste domingo foca-se nos sinais dos tempos e na necessidade de perseverança diante da perseguição e do caos. Jesus adverte os discípulos de que as estruturas terrenas, por mais belas e sólidas que pareçam (como o Templo), são passageiras. A destruição material será um sinal, mas é secundária face ao verdadeiro desafio: manter a fé intacta no meio das tribulações. Guerras, terramotos, fomes e perseguições são descritas não como o fim imediato, mas como o caminho inevitável.

A mensagem central é uma chamada à vigilância e ao testemunho. “Tende cuidado, não vos deixeis enganar” é o primeiro aviso, alertando contra os falsos messias e as falsas promessas de salvação fácil. O verdadeiro discípulo deve estar preparado para a perseguição e a rejeição, até mesmo por parte dos mais próximos. É crucial notar que a perseguição é apresentada não como um obstáculo, mas como uma “ocasião de dar testemunho”. É no momento da provação que o poder de Deus se manifesta mais claramente.

A promessa de Jesus é consoladora: “Eu vos darei a palavra e uma sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir”. Isto significa que, no meio da perseguição, não devemos confiar nas nossas próprias capacidades de defesa, mas sim no Espírito Santo. O foco é a perseverança. A vida cristã é uma maratona de fé, onde o prémio é alcançado não pela velocidade, mas pela resistência. A frase culminante, “Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas”, é a chave para a escatologia de Jesus. A salvação é assegurada por Deus, mas exige a nossa resposta constante de fidelidade e paciência.

Oração

Senhor Jesus Cristo,
Tu nos alertaste para os tempos difíceis que viriam,
mas também nos destes a certeza da Tua presença e ajuda.
Nos momentos de engano e perseguição,
dá-nos a graça da vigilância para não nos deixarmos enganar
e a coragem de dar testemunho do Teu nome.
Enche-nos com o Teu Espírito Santo,
para que não tenhamos de nos preocupar com o que dizer,
mas que a Tua Palavra resplandeça em nós.
Dá-nos a perseverança, Senhor,
pois sabemos que por ela salvaremos as nossas almas. Amén.

11 15, Sábado: Lc 18, 1-8 «Deus fará justiça aos seus eleitos, que clamam por Ele dia e noite»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Lucas 

Naquele tempo, Jesus propôs aos discípulos uma parábola, para lhes mostrar que deviam orar sempre e nunca desfalecer:«Numa cidade morava um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens.

Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele para lhe dizer: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário’.Durante muito tempo ele não quis. Mas depois, disse consigo: ‘É certo que não temo a Deus nem respeito os homens;mas, porque esta viúva me incomoda, vou fazer-lhe justiça, para que não venha a importunar-me até ao fim’».E o Senhor acrescentou: «Escutai o que diz o juiz iníquo.

E Deus, não fará justiça aos seus eleitos, que clamam por Ele dia e noite, e não Se fará esperar por eles?Eu vos digo que lhes fará justiça prontamente. Mas, quando o Filho do homem vier, encontrará fé sobre a terra?».

Reflexão

A parábola do juiz iníquo e da viúva é um hino à oração perseverante e à confiança inabalável na justiça de Deus. O propósito de Jesus é claro: mostrar a necessidade de “orar sempre e nunca desfalecer”. A viúva representa o crente, fraco e desprotegido, que, apesar da aparente resistência e lentidão da resposta, não desiste de clamar pela justiça divina. O juiz iníquo, que acaba por atender ao pedido da viúva apenas por causa da sua persistência, serve como um contraste humano imperfeito para ilustrar a certeza da resposta de Deus.

Se até um juiz injusto acaba por ceder à insistência, quanto mais o Deus justo e amoroso, que Se importa profundamente com os Seus eleitos? A grande promessa de Jesus é que “Deus fará justiça aos seus eleitos, que clamam por Ele dia e noite, e não Se fará esperar por eles”. Isto não significa que a resposta virá no nosso tempo, mas sim que a justiça de Deus é infalível e certa. Somos chamados a persistir na oração, não para mudar a mente de Deus, mas para conformar a nossa vontade à Sua e para demonstrar a profundidade da nossa fé.

A pergunta final de Jesus, “Mas, quando o Filho do homem vier, encontrará fé sobre a terra?”, é o grande desafio desta passagem. A verdadeira justiça de Deus manifestar-se-á plenamente no fim dos tempos, mas o que nos habilita a recebê-la é a fé perseverante que se manifesta na oração incessante. Desfalecer na oração é um sinal de que a fé está a diminuir. A viúva é o exemplo de que a oração constante é a prova de que mantemos viva a chama da fé, mesmo nas longas esperas e nas provações. Somos chamados a clamar “dia e noite”, numa confiança inabalável de que a justiça virá.

Oração

Pai de Justiça e Amor,
Tu nos ensinaste, pela parábola da viúva, o valor da oração que não se cansa.
Dá-nos a persistência e a força para clamar a Ti dia e noite,
confiando que Tu ouvirás o grito dos Teus eleitos.
Quando a espera se torna longa e a fé vacila,
renova em nós a certeza da Tua promessa de justiça.
Que o nosso coração persevere na oração,
para que, quando o Teu Filho regressar,
Ele encontre em nós a fé viva que não desfalece. Amén.

11 14 Sexta-feira: Lc 17, 26-37 «Lembrai-vos da mulher de Lot»​

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Lucas

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como aconteceu nos dias de Noé, assim acontecerá também nos dias do Filho do homem.Comiam, bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca e veio o dilúvio, que fez perecer todos.E o mesmo aconteceu nos dias de Lot: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam;mas no dia em que Lot saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, que fez perecer todos.Assim acontecerá no dia em que o Filho do homem Se manifestar.Quem estiver nesse dia no terraço e tiver os seus bens em casa, não desça para os levar; e quem estiver no campo não volte atrás.Lembrai-vos da mulher de Lot.

 

Quem procurar salvar a vida há de perdê-la; e quem a perder há de conservá-la.Eu vos digo: nessa noite, estarão dois numa cama; um será levado e o outro deixado.Duas mulheres estarão a moer juntas; uma será levada e a outra deixada».Os discípulos perguntaram-Lhe: «Onde será isso, Senhor?».

Jesus respondeu: «Onde estiver o corpo, aí se juntarão os abutres».

Reflexão 

O Evangelho de sexta-feira lança-nos um desafio de vigilância e desapego, utilizando os exemplos de Noé e Lot para ilustrar a repentina e decisiva manifestação do Filho do Homem. O cerne da mensagem não é o juízo em si, mas a prontidão e a atitude do coração no momento da vinda do Senhor. As pessoas nos dias de Noé e Lot estavam absorvidas nas atividades quotidianas (“comiam, bebiam, compravam, vendiam”), mas viviam sem atenção à realidade espiritual iminente. Jesus adverte-nos contra a mesma distração.

O mandamento central é “Lembrai-vos da mulher de Lot”. Ela hesitou, olhou para trás, apegada ao que perdia em Sodoma, e transformou-se numa coluna de sal. O seu olhar para trás simboliza o perigo do apego ao que é passageiro, a incapacidade de se despojar das seguranças e confortos terrenos em face do chamado de Deus. A salvação exige um olhar fixo em frente, um desprendimento radical dos bens e das preocupações que nos prendem ao “velho” modo de vida.

Esta exortação ganha ainda mais força com a afirmação: “Quem procurar salvar a vida há de perdê-la; e quem a perder há de conservá-la”. É uma paradoxo fundamental do Evangelho. O verdadeiro significado da vida (a “salvação” eterna) encontra-se na doação e no desapego. A necessidade de estar pronto é imediata e pessoal, como ilustram os exemplos das pessoas na cama e as mulheres a moer: a separação final será súbita e fará distinção entre aqueles que se tornaram livres em Cristo e aqueles que ficaram presos às cadeias terrenas. Ser levado ou deixado não é um acaso, mas o resultado da nossa fidelidade ou do nosso apego.

Oração

Senhor Jesus Cristo,
Tu nos advertes com a urgência da Tua vinda.
Perdoa-nos pelo nosso apego ao que é passageiro
e pela distração do nosso quotidiano.
Dá-nos a graça de nos lembrarmos da mulher de Lot,
para que nunca olhemos para trás com saudade
do que nos afasta de Ti.
Que a nossa vida seja um constante desprendimento,
para que, perdendo-a por Ti, possamos conservá-la para a eternidade.
Mantém o nosso olhar fixo no Reino que está para vir. Amén.

10 13 Quinta Lc 17, 20-25 «O reino de Deus está no meio de vós»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, os fariseus perguntaram a Jesus quando viria o reino de Deus e Ele respondeu-lhes, dizendo: «O reino de Deus não vem de maneira visível, nem se dirá: ‘Está aqui ou ali’; porque o reino de Deus está no meio de vós». Depois disse aos seus discípulos: «Dias virão em que desejareis ver um dia do Filho do homem e não o vereis. Hão de dizer-vos: ‘Está ali’, ou ‘Está aqui’. Não queirais ir nem os sigais. Pois assim como o relâmpago, que faísca dum lado do horizonte e brilha até ao lado oposto, assim será o Filho do homem no seu dia. Mas primeiro tem de sofrer muito e ser rejeitado por esta geração».
Palavra da salvação.

REFLEXÃO

O Evangelho de hoje apresenta-nos uma mudança radical de perspectiva. Os fariseus procuram um reino de Deus visível, mensurável, um evento espetacular no tempo e no espaço. A sua pergunta “quando?” revela uma expectativa de um fenómeno externo, político e dramático. Jesus, porém, desloca completamente o foco: “O reino de Deus está no meio de vós”.

Esta afirmação é revolucionária. O reino não é um lugar para onde se viaja nem um evento que se espera no calendário. É uma realidade presente, uma presença activa. A palavra grega “entos hymon” pode significar “no meio de vós” ou “dentro de vós”. Ambas as interpretações são válidas e complementares. O reino está presente no meio da comunidade na pessoa do próprio Jesus. Onde Ele está, aí está o Reino. Simultaneamente, esse reino opera no interior do coração daqueles que O acolhem pela fé.

É precisamente a fé, e não um sinal visível, a chave para perceber e entrar neste reino. A ausência de sinais espectaculares é, em si mesma, um sinal: o da humildade de um Deus que não Se impõe com estrondo, mas que Se oferece numa presença discreta, exigindo a resposta livre da fé.

Contudo, Jesus não fica por aqui. Sabendo que os discípulos, face à futura provação da Paixão, ansiarão por uma manifestação triunfante e libertadora d’Ele, adverte-os. Surgirão falsos messias e vozes a apontar para “aqui” ou “ali”. A vinda definitiva do Filho do Homem, no fim dos tempos, será inconfundível como um relâmpago que rasga todo o céu. Mas antes desse dia de glória, é necessário o dia da humilhação. A cruz não é um acidente de percurso; é o caminho obrigatório. A rejeição e o sofrimento são a porta através da qual a glória do Reino, já presente mas ainda não plena, se manifestará ao mundo.

A mensagem é clara: não procuremos o Reino em fenómenos sensacionais ou em promessas fáceis. Ele está presente onde os corações acolhem Jesus na fé, mesmo—e sobretudo—quando o seu rosto é o do Servo Sofredor.

### **Oração**

Senhor Jesus, que nos revelais que o Vosso Reino não vem com aparência exterior, mas que já está no meio de nós, dai-nos a graça de uma fé pura e vigilante.

11 12 Lc 1Quarta-feira7, 11-19 «Levanta-te e vai;​ a tua fé te salvou»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Lucas

No tempo em que Jesus Se dirigia para Jerusalém, passou entre a Samaria e a Galileia.Ao entrar numa povoação, vieram-Lhe ao encontro dez homens leprosos, que ficaram ao longee gritaram: «Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós!»Jesus viu-os e disse-lhes: «Ide apresentar-vos aos sacerdotes».

E, enquanto iam a caminho, ficaram limpos.Um deles, vendo que estava curado, voltou, glorificando a Deus em alta voz.

Prostrou-se aos pés de Jesus com o rosto em terra e agradeceu-Lhe. Era samaritano.Jesus disse então: «Não foram dez os que ficaram limpos? Onde estão os outros nove?Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?»E disse-lhe: «Levanta-te e vai; a tua fé te salvou».

Reflexão

O Evangelho de hoje, sobre os dez leprosos, é uma poderosa lição sobre a gratidão e a fé. Todos os dez foram curados pela misericórdia de Jesus, mas apenas um – um samaritano, um estrangeiro – voltou para Lhe agradecer. A cura física foi concedida a todos, mas a salvação, a dimensão mais profunda da graça, foi reservada àquele que demonstrou o coração agradecido. “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”, diz Jesus ao samaritano, indicando que a sua resposta de fé, manifestada no louvor e na gratidão, o levou para além da simples cura, à salvação.
Este episódio sublinha que a graça de Deus é universal, estendida a todos, mas a resposta de cada um é crucial. A cura foi um dom, mas a gratidão foi um ato de vontade e de fé. Os outros nove leprosos receberam o benefício da cura e, talvez, voltaram às suas vidas normais, focados no seu bem-estar recém-adquirido. O samaritano, pelo contrário, não apenas recebeu a cura, mas reconheceu a Fonte do seu bem, transformando o milagre num encontro pessoal com o Salvador. A gratidão é, portanto, o catalisador que transforma o dom em salvação.

Para a nossa vida espiritual, o samaritano é um modelo. Quantas vezes recebemos inúmeras bênçãos e curas – desde a saúde, ao pão de cada dia, à própria vida de fé – e falhamos em voltar para louvar e agradecer? O louvor a Deus, em voz alta e prostrado, como o samaritano, é um reconhecimento da soberania divina e uma confissão de que tudo o que temos provém d’Ele. A gratidão não é uma formalidade; é a atitude fundamental que sustenta a fé e nos coloca numa relação íntima com Deus. A pergunta de Jesus: “Onde estão os outros nove?” ecoa nos nossos dias, convidando-nos a não sermos ingratos, mas a voltar sempre à Fonte de toda a graça.

Oração

Senhor Jesus, Mestre de Misericórdia,
Abre os nossos olhos para as Tuas incontáveis bênçãos
e o nosso coração para a atitude do samaritano.
Perdoa-nos pelas vezes em que recebemos os Teus dons
e seguimos o nosso caminho sem Te agradecer.
Dá-nos a graça de voltar a Ti,
prostrarmo-nos em louvor e reconhecer que só a Tua fé nos salva.
Que a gratidão seja o hino constante das nossas vidas. Amén.

 

11 de Novembro – Terça. Lc 17, 7-10: «Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer».

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, disse o Senhor: «Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele volta do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’? Não lhe dirá antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu’. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’».
Palavra da salvação.

REFLEXÃO 

A passagem de Lucas 17, 7-10 convida-nos a uma profunda reflexão sobre a humildade no serviço. A parábola do servo que volta do campo e deve continuar a servir o seu senhor, sem esperar agradecimento ou recompensa imediata, culmina na frase: «Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer». Esta afirmação paradoxal é central para a espiritualidade cristã do serviço desinteressado. Não é que o nosso trabalho seja literalmente inútil para Deus, mas sim que a atitude do discípulo deve ser a de quem reconhece que o seu dever é servir e que, ao fazê-lo, está apenas a cumprir a sua vocação, sem mérito adicional a reivindicar. A verdadeira grandeza reside na humildade do cumprimento do dever, afastando qualquer presunção de superioridade ou direito a elogios.

São Martinho de Tours, celebrado precisamente a 11 de Novembro, encarna de forma exemplar este espírito de serviço humilde. A sua vida, inicialmente como soldado romano, é marcada por atos de profunda humildade e serviço que ultrapassam em muito o que era “devido”. O ato mais famoso, o de partilhar a sua capa (manto) com um mendigo à porta da cidade de Amiens, não é apenas um gesto de caridade, mas uma rejeição das honras e do conforto que a sua posição militar lhe conferia. Martinho, ao rasgar a capa, não se limitou a dar o excedente, mas sacrificou algo de essencial, sem esperar nada em troca, apenas agindo por compaixão e reconhecimento da dignidade do outro.

Mais tarde, ao tornar-se monge e depois bispo, Martinho nunca abandonou a sua simplicidade e o seu modo de vida austero. Ele via a si mesmo, tal como a parábola sugere, como um servo. A sua resistência inicial em aceitar o cargo episcopal e o seu desejo de continuar a viver em comunidade monástica, longe das pompas do poder, sublinha o seu entendimento de que o seu papel era servir, pregar e cuidar do povo de Deus, um dever que ele encarava com total despojamento de ego. Em vez de se sentir um “senhor” da Igreja, ele atuava como um “servo”, cumprindo a sua missão com a convicção tranquila de quem apenas faz o que é justo e necessário. Martinho é, portanto, um testemunho vivo de que o verdadeiro serviço cristão é sempre humilde e incondicional.

-Oração

Senhor Jesus Cristo, que nos ensinastes a ser servos humildes e a cumprir o nosso dever sem esperar recompensa. Pelos méritos de São Martinho de Tours, que soube ver e servir-Vos no pobre, dai-nos a graça de reconhecer que tudo o que fazemos é a Vossa obra em nós. Livrai-nos da vaidade e do orgulho, para que possamos viver na alegria simples de quem apenas cumpre o que lhe é pedido. Amém.