**Introdução .
Irmãos e irmãs, hoje a liturgia nos conduz a um mistério de luz e busca. Como os Magos, que deixaram suas terras para seguir uma estrela, também nós somos convidados a sair de nossos caminhos seguros e partir em direção ao Menino Deus.
As leituras de hoje tecem um tapete sagrado onde o sonho, a profecia, a oração e a **revelação plena** se encontram. Isaías sonha com a luz que atrai os povos, o Salmo revela o perfil do Rei justo, Mateus narra o encontro histórico. **E São Paulo, na segunda leitura, nos dá a chave que desvenda o sentido eterno de tudo isso: em Cristo, somos todos herdeiros da mesma promessa.**
**Desenvolvimento .:**
A primeira leitura, de Isaías, é um sonho profético que rompe as trevas: “Levanta-te, Jerusalém! A tua luz chegou!” Isaías enxerga, em meio à desolação do exílio, uma luz que atrai reis e nações. Eles vêm de longe, carregando presentes – ouro e incenso – e proclamando os louvores do Senhor. É uma visão de universalidade, onde os povos distantes convergem para a luz de Deus. Este sonho não é apenas uma esperança distante; é uma promessa que começa a pulsar no coração da história, aguardando o momento de se tornar realidade.
E como responder a esse sonho? O Salmo 71 nos dá a clave: ele apresenta o perfil do Rei que há de vir. Não um rei de poder opressor, mas um rei que “libertará o pobre que suplica e o miserável que não tem amparo.” Seu reinado é de justiça e paz, estendendo-se “de mar a mar”. Os reis de toda a terra se prostrarão diante dele, oferecendo seus dons. Aqui, a profecia de Isaías ganha um rosto concreto: o Rei que atrai os povos é o mesmo que se inclina para os últimos. O sonho de Deus tem um coração que bate pela justiça.
Então, o Evangelho de Mateus narra. Narra a realização! Os Magos – sábios do Oriente, representantes dos povos distantes sonhados por Isaías – veem a estrela e partem. Eles buscam “o rei dos judeus”, mas encontram muito mais: um Menino frágil, nos braços de sua mãe. E ao encontrá-Lo, prostram-se e O adoram. Abrem seus tesouros e oferecem ouro, incenso e mirra – os mesmos presentes profetizados. A cena é a encarnação do Salmo: reis se prostram diante do Rei pobre, reconhecendo nessa criança o Senhor da justiça e da salvação. A estrela os guiou até Jerusalém, mas foram as Escrituras – a Palavra – que os levaram até Belém. A luz da criação (a estrela) e a luz da Revelação (a profecia) convergem para a Luz do mundo.
**E é aqui que São Paulo intervém, com a força de uma revelação divina.** A segunda leitura, da Carta aos Efésios, é o ápice que dá sentido a toda esta trama. Paulo não comenta a cena dos Magos, mas **revela o mistério que ela contém e que “não foi dado a conhecer aos homens noutras gerações”**. Qual é este mistério? Que “os pagãos são co-herdeiros” em Cristo Jesus. Os Magos à beira do presépio não são uma bela ilustração; são a **primeira manifestação pública deste mistério escondido desde sempre em Deus**. O que Isaías sonhou de forma poética e o Salmo cantou como esperança, Mateus testemunhou como fato histórico. **E Paulo proclama como Dogma da nossa fé:** a parede de separação foi derrubada. Em Jesus, o povo da antiga aliança e os povos distantes (representados pelos Magos) são “um só corpo”. A Epifania é, portanto, a festa da **Igreja universal**. A jornada dos Magos é a nossa jornada: somos gentios chamados à herança, estrangeiros admitidos à família de Deus.
**Conclusão:**
Irmãos, a Epifania nos interpela. Como os Magos, somos convidados a levantar os olhos, ver a estrela da fé e pôr-nos a caminho. Mas atenção: o caminho nos leva a Belém, não a um palácio. Nos leva ao Menino-Rei, cujo trono é um cocho e cujo poder é o amor que se doa. **Ele atrai a todos – como São Paulo nos ensina – para uma única família, onde não há estrangeiro, mas todos somos filhos no Filho.** Nossa adoração, hoje, é o nosso ouro (reconhecer-Lhe como Rei), nosso incenso (orar-Lhe como Deus) e nossa mirra (abraçar seu mistério de paixão que nos redime). Que, ao partir desta celebração, sejamos nós a estrela que guia outros para Cristo, testemunhando com nossas vidas que, n’Ele, **o mistério revelado a Paulo se torna realidade viva: somos, juntos, a casa aberta de Deus para todos os povos.**