Leccionário Comentado XXI do tempo comum Ano A

XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano A

PRIMEIRA LEITURA Is 22,19 23
Porei aos seus ombros a chave da casa de David.

Ler a Palavra
Eliacim é nomeado administrador da casa real de Jerusalém, e, portanto, servo da casa de David. Comportar-se-á como um verdadeiro «pai» para com o seu povo (v. 21). A atribuição do cargo é expressa através da entrega simbólica da «chave» do pa-lácio real (v. 22). Deste modo Eliacim torna-se figura de todos os que recebem de Deus uma autoridade sobre os irmãos e, para nós cristãos, o primeiro deles é certamente Pedro.

Compreender a Palavra
Na arte religiosa ocidental é frequente ver a imagem de São Pedro que segura uma ou duas chaves: e uma alusão muito directa ao Evangelho deste domingo, no qual o Apostolo recebe simbolicamente «as chaves do reino dos céus», com o poder de perdoar os pecados (cf. MT 16,19).
Como mostra o texto de Isaías, este símbolo tem uma história muito mais antiga e tivera na origem um significado diferente. Recebendo a «chave da casa de David» (v. 22), o novo governador de Jerusalém era investido da autoridade sobre todo o palácio real e detinha o poder de levar à presença do rei todos os que pediam audiência. Desempenhava assim uma tarefa importante de me¬diador entre o povo e o rei.Segundo a fé cristã, o único que possui esse poder sobre a casa de Deus Pai e Jesus. Por isso, entregando a Pedro as «chaves do reino» e unindo a elas o poder de perdoar os pecados, o Evan¬gelho mostra que a salvação está confiada à Igreja, a qual torna possível, com o seu perdão, o acesso a Deus.

SALMO RESPONSORIAL SL 137,1-3.6.8

O salmista eleva uma oração de acção de graças e de louvor ao Senhor, porque «ouviu» a sua invocação e «aumentou» nele a «força», tornando-o capaz de enfrentar a adversidade (w. 1,3). Deus confirmou assim a Sua preferência pelos «humildes», en¬quanto Se afasta dos «soberbos» e dos orgulhosos (v. 6). Cada criatura, «obra das mãos de Deus» (cf. v. 8b), é convidada a con¬fiar plenamente n’Ele.

SEGUNDA LEITURA RM 11,33-36
D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas.

Ler a Palavra
Com este texto continua a meditação de Paulo sobre o destino de Israel. O Apóstolo tem grande confiança de que um dia o povo eleito encontrará finalmente o seu lugar na Igreja; por isso pode terminar a sua reflexão com um hino a Deus, cheio de gratidão. Acolhe com gratidão o desígnio salvífico do Senhor, diante do qual não pode deixar de inclinar-se, convidando todos os crentes a imitá-lo.
Compreender a Pala\ra
Paulo confessa toda a sua admiração perante a «sabedoria de Deus» (v. 33). Um facto inexplicável, como foi a recusa do Evangelho da parte de Israel, tornou-se claro ao fazer um acto de confiança no poder divino. Este, de facto, não pode permitir que o mal aconteça senão em vista da realização de um bem maior. A luz desta convicção, Paulo compreende que o Senhor concedeu o endurecimento de Israel como advertência para que os cristãos não caiam no mesmo erro. A sobrevivência de Israel é um contra¬peso providencial à nova tentação de privilégio, na qual facilmen¬te as novas comunidades cristãs poderiam cair. Um ecumenis¬mo excessivamente unitário não seria por isso muito desejável. Os grupos religiosos estarão sempre expostos à tentação de se considerarem únicos, e por consequência, a exercer uma verda¬deira ditadura espiritual sobre outras consciências humanas.

EVANGELHO MT 16,13-20
Tu és Pedro e dar te-ei as chaves do reino dos Céus.

Ler a Palavra
Estamos perto das nascentes do Jordão, aos pés do monte Her mon, na fronteira norte de Israel, e portanto a um passo do mun¬do pagão (v. 13). É precisamente aqui que Jesus faz um inquérito sobre aquilo que Lhe diz respeito directamente; hoje chamar- lhe-íamos uma sondagem de opinião. O Mestre não pergunta aos discípulos a sua opinião acerca do «Sermão da Montanha» (cf. MT 5-7) ou sobre algum ponto da Sua actuação, mas quer saber o que é que eles pensam da Sua Pessoa

Compreender a Palavra
A pergunta colocada solenemente, «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (v. 15), mostra como para Jesus este ponto era de importân¬cia decisiva. Todo o significado da actuação de Cristo depende do que Ele é; no centro, de facto, não está tanto o Seu anuncio, mas sim a Sua Pessoa.
Como acontece frequentemente, Jesus utiliza uma pedagogia apurada: o inquérito começa de forma geral, pedindo o parecer das pessoas comuns (cf. v. 13). As respostas são várias- «João Bap tista» ressuscitado e porventura por isso capaz de fazer milagres;
«Elias» que muitos pensavam que teria voltado como profeta des-tinado a anunciar o fim do mundo; e, finalmente, «Jeremias» ou «algum dos profetas», perseguidos no decurso da longa história de infidelidade do povo do Senhor (v. 14). Com tudo isto as pes¬soas demonstram ter uma opinião diferente acerca de Jesus, mas não reconhecem a singular posição d’Ele, a Sua unicidade.
E eis que Jesus insiste: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Cf. v. 15) Só confessando a divindade de Cristo (cf. v. 16) é que o nosso acto de fé tem sentido e plenitude.

DA PALAVRA PARA A VIDA

No centro da Palavra de Deus deste domingo temos a relação muito especial entre Jesus e Pedro (Evangelho). Ela imita a relação típica de cada apóstolo com o seu mestre, uma relação mais estreita e confiante, comparada com a da gente comum. Mas no caso de Pedro o nível da relação e de empatia com Jesus alcança um valor maior. De facto, o modo como os Apóstolos consideravam o Senhor podia corresponder ao das pessoas que os rodeavam. Na sua compreensão limitada do mistério de Cristo também muitos de nós podiam reconhecer-se. «Jeremias», por exemplo, enquanto profeta inocente e sofredor, era certamente uma figura que anunciava um aspecto importante do mistério e da mensagem de Jesus. Também «Elias», com o seu poder de fazer milagres, correspondia à capacidade fascinante de fazer o bem, que o Mestre possuía de forma extraordinária. Ou ainda «João Baptista», pregador corajoso da verdade, mesmo à custa da própria vida, preconizava em Jesus o heroísmo daquele que sabe morrer para testemunhar a verdade (cf. MT 16,14). São todos aspectos verdadeiros, mas parciais, do mistério de Cristo.
A resposta generosa e um pouco inconsciente de Pedro acerta no alvo. Tu és muito mais que profeta, Tu revelas-nos a ver¬dadeira face do Pai! (Cf. 16,16) Jesus confirma a verdade da resposta, e para dar força a esse reconhecimento muda in-clusive o nome de «Simão» para o de «Pedro-Ke/hs» (16,18), ou seja, a «base sólida», o «alicerce» da fé da sua Igreja. Este
fundamento, porém, é sólido como a resposta de Pedro, que é verdadeira não porque a mente de Pedro soube elaborá-la, mas porque a sua humildade e fé souberam recebé la de Deus como uma revelação, um dom gratuito (cf. 16,17). A força de Pedro, a «rocha», será toda ela determinada pela sua funda¬ção na rocha verdadeira: o Pai.
Começa assim para Pedro uma vida nova, como novo é o nome que Jesus inventou. O termo kefas, «pedra», não foi uti¬lizado por nenhum autor antigo como nome de pessoa. Foi criado por Jesus para indicar a missão de Pedro. Jesus explica- -o com três imagens: Pedro será a «rocha», sobre ela será edi¬ficada a comunidade dos crentes; a «Igreja», a direcção e a responsabilidade da comunidade são confiadas àquele que tem as «chaves». (Cf. 16,18-19)
Na Igreja, Pedro agirá oferecendo um ponto de referência certo, para que o edifício cresça de forma «bem articulada e coesa». (Cf. EF 4,16)
No nosso mundo, onde tudo aparece sempre provisório e dis¬cutível, uma caminhada de fé sólida precisa de uma referência clara. Por isso, o serviço de Pedro e dos seus sucessores é pre¬cioso e deve ser acolhido como uma dádiva.

Oração

Pai Santo, fonte de sabedoria,
que no testemunho humilde do Apóstolo Pedro
colocastes o fundamento da nossa fé,
concedei a todos os homens a luz do Vosso Espírito,
para que, reconhecendo em Jesus de Nazaré
o Filho do Deus vivo, se tornem pedras vivas
para a edificação da vossa Igreja.