Quem foi frei Mateus Peres?

Publico • Domingo 26 de Julho de 2020 * 7

  • ESPAÇO PÚBLICO

  Quem foi frei Mateus Peres, O.P.?

 

Frei Bento Domingues O.P.

Figura internacional da Ordem dos Pregadores, foi membro activo de um grupo de grande relevo na renovação do catolicismo português

A crónica projectada para este Domingo – a última antes das férias – inspirava-se numa passagem bíblica do Primeiro Livro dos Reis. É muito bela. Salomão reconhece os seus limites para ser um bom governante. Pede a Deus um coração cheio de entendimento para governar o Seu povo, para discernir 1 entre o bem e o mal. Esta oração agradou ao Senhor, que lhe disse:

“Já que me pediste não uma longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sim o discernimento para governar com rectidão, vou proceder conforme as tuas palavras: dou-te um coração sábio e perspicaz, tão hábil que nunca existiu nem existirá jamais alguém como tu.” [1] Quem dera que não só D. Trump e Bolsonaro, mas muitos outros governantes, renunciando ao espírito de dominação, fossem guiadas por um coração sábio, perspicaz e hábil!

Quando ia começar a crónica deste Domingo, tive de mudar 0 seu rumo. Morreu, na passada segunda-feira, um confrade do Convento de S. Domingos que nos acolhe, o frei Mateus Cardoso Peres (1933-2020). Pelo muito que lhe devo, vou deixar, aqui, algumas palavras de agradecimento.

  1. Nasceu em Lisboa numa família profundamente cristã. Tinha nove irmãos e licenciou-se em Direito, em 1956. Nesse mesmo ano, entrou na Ordem dos Pregadores, no Convento dos Dominicanos de Fátima que já frequentara como estudante. Estudou filosofia e teologia no Centro ‘! Sapientiae de Fátima e teologia em Otava (Canadá). Foi ordenado presbítero em 1962.

Com o seu consentimento, permito-me seguir o esboço do seu itinerário feito por Luiza Sarsfield Cabral (2J.

Foi membro activo de um grupo de grande relevo na renovação do catolicismo português. Figura internacional da Ordem dos Pregadores, é um dos teólogos de contribuição mais original na renovação da teologia moral na Igreja portuguesa no pós-Concílio Vaticano II.

Pertenceu a uma geração de católicos que, marcada por preocupações políticas e sociais, constituiu uma referência obrigatória na década de cinquenta-sessenta em Portugal. João Bénard da Costa retracta-a do seguinte modo:

“Na JUC, entre os ‘contestatários* havia dois ramos distintos: o dos ‘sociólogos’ (mais bem ‘comportados’ e menos ‘intelectuais’) e 0 dos ‘vanguardistas’, quer em posições políticas, quer no interior da Acção Católica, quer numa predominante atenção aos fenómenos estéticos mais inconformistas. Esses eram (éramos) […] o Nu no Peres (frei Mateus Cardoso Peres O.P.), o Nuno Portas, o Nuno Bragança, 0 Luís Sousa Costa, o PedroTamen,o Alberto Vaz da Silva, o M. S. Lourenço, o Cristóvão Pavia, o José Escada, o Manuel de Lucena, o José Domingos Morais, o Duarte Nuno Simões-o Mário Murteira eo Carlos Portas eram a charneira entre os dois grupos.” [3J Com alguns entusiastas desse grupo, frei Mateus Peres participou na criação do CCC (Centro Cultural de Cinema – Cineclube de Universitários para uma Cultura Cinematográfica

Cristã), que teve o seu início em Novembro de 1956.

Foi colaborador em O Tempo eo Modo, Revista de Pensamento eAcção – importante espaço de diálogo e confronto de diferentes sensibilidades culturais, políticas e religiosas

tratando do significado histórico e impacto do Concílio Vaticano II (1963-1965), no aggiornamento interno da Igreja e na sua relação com o mundo contemporâneo. A probiematização teológica, introduzida em Portugal por frei Mateus, nos seus textos de 0 Tempo eo Modo [4], é hoje considerada, pelos analistas dessa época, como um contributo único para a compreensão da novidade doutrinal e pastoral do Vaticano II [5]. O recurso ao pseudónimo Manuel Frade, com que assinou 0 último destes artigos, revela as dificuldades e limitações que existiam na Igreja portuguesa, então muito à margem desse acontecimento mundial.

Fez parte da primeira direcção internacional da famosa revista teológica Concilium, editada em português pela Livraria Morais Editora (1965), devido ao empenhamento de A. Alçada Baptista. Era esta a forma de Portugal e o Brasil terem acesso à grande renovação teológica pós conciliar.

Pertenceu ainda ã equipa que, no âmbito das actividades dessa revista, lançou entre nós os “Colóquios para Assinantes”, destinados sobretudo a equacionar as questões da Igreja portuguesa à luz de um Concílio por ela praticamente ignorado.

Frei Mateus Peres dedicou muito da sua vtda à renovação da teologia moral, na

investigação e no ensino: a partir de 1963, no Studium Sedes Sapientiae dos dominicanos, em Fátima; de 1967 a 1972, na Faculdade de Teologia de Otava (Canadá). Regressado a Portugal, continuou a sua dedicação à teologia, no campo da Moral, no Porto (ISET, ICHT, UCP) e, finalmente, na UCP, em Lisboa.

É autor de alguma colaboração em obras colectivas e de inúmeros estudos na área da teologia moral, em revistas como Ilumanística e Teologia, Communio, Cadernos ISTA e outras. Muito apreciado como professor e conferencista, investigou as razões históricas e teóricas que contribuíram para a “má reputação da moral” (sic).

Ao fazer da ética uma construção do sujeito – em “uma visão teológica que faça justiça ao sujeito” deu um contributo decisivo para a superação de dois persistentes dilemas da teologia e filosofia moral, subjectivismo/ objectivismo e autonomia/teonomia. Esta proposta encontra-se na sua obra fundamental, apresentada como tese de doutoramento em 1987,0Sujeito Moral: Ensaio de Síntese Tomista, 1992.

  1. A nível dos Dominicanos, viveu em várias comunidades em Portugal e no estrangeiro. Assumiu vários cargos institucionais para que foi eleito: provincial em três mandatos, várias vezes prior conventual, mestre de estudantes, sócio do Mestre Geral para a vida intelectual, o que 0 obrigava a viver em Roma e a visitar vários países, de vários continentes.

Acompanhou o Mosteiru das Monjas do Lumiar, onde .se desenvolveram as célebres Conferências do Lumiar. No mundo das congregações religiosas, foi presidente de CNIR.

Tendo desempenhado várias funções de relevo, ao nível da Ordem dos Pregadores, para ele, assumir o poder era o encargo de servir. Não apenas de servir segundo o seu critério individual, mas segundo as instituições democráticas que podem ser adaptadas e nunca postas em causa.

Compreendeu, na prática, a resposta de Deus à oração de Salomão: exerceu o poder com um coração sábio, perspicaz e muito hábil.

UI Cf. lRs 3,1-15

[2] Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Volume VI, pp. 211-213 13] João B. da Costa, “Meus tempos, meus modos” m Diário de Notícias, “Revista de Livros”, 9/11/83,1

[4] A Igreja entre Duas Guerras (TM, 16-17, 1964), Tradição eProgresso (TM, 18,1964), A 4.aSessão-. 0 Concílio ea Igreja (TM, 32,1965). (51 Cfr. tese de licenciatura em Teologia de Nuno E. Ferreira, in LusitankiSacra, 2.a série, 6,1994, pp.129/294

Escreve ao domingo

 

Público * Domingo, 26 de Julho de 2020 • 3

 

Kieliu léenica Director Manuel Carvalho Directora de Arte Sóma Matos Editor Sérgio B Gomes Designers Marco Ferreira e Sandra Silva Emailsgomes@publico.pt

^              

 

 

 

 

 

 

A

 

N

ão há memória, no último século, de uma época tão desgraçada como aquela em que vivemos. A bancarrota de finais do século XIX, a desordem da Kepública, a opressão da ditadura, as duas guerras mundiais, a Guerra Civil de Espanha, a Guerra Colonial, a Revolução de 1974 e a contra-revolução dos anos seguintes tiveram seguramente consequências gravíssimas e provocaram muitos danos. Mas este que vivemos é um período terrível da nossa história. Dez anos, quase vinte, que deixarão marcas na sociedade por muito, muito tempo.

A última década ficará para sempre como a de um ciclo único de dificuldades, uma convergência inédita de dramas!

A crise financeira e económica internacional que se abateu sobre Portugal com particular violência revelou um país frágil a quem os progressos notáveis dos anos 1980 e 1990 deram a ilusão de progresso consolidado. A crise da divida soberana mostrou uma economia débil e políticas de desperdício e de demagogia. Sem quaisquer escrúpulos e com absoluto atrevimento, os Governos Sócrates ficaram para a história como os mais predadores de sempre. Seguiu-se a maior bancarrota que Portugal conheceu pelo menus nus últimos cem anos. O resgate de Portugal e a austeridade, mesmo se necessários, deixaram o país exangue. 0 caso BES foi, nestes anos, uma verdadeira praga bíblica, ficando o nome daquele grupo associado ao maior processo de destruição de riqueza, de instituições e de empresas, de toda a história nacional. Os incêndios de floresta, particularmente devastadores, confirmaram o gravíssimo problema de segurança que os portugueses têm dificuldade em resolver. A acalmia dos últimos anos, em que nada se resolveu e nada se reformou, anunciaram todavia um período de esperança, com menos sacrifício exigido aos trabalhadores e à classe média. Mas não houve tempo para serenar os espíritos, nem sequer olhar para o futuro: a pandemia e a crise económica e social que se seguiram, com especial relevo para a asfixia imposta ao novo volfrâmio, o turismo, confirmaram estarmos a viver um dos piores períodos da nossa vida em comunidade. Ao que se acrescenta o facto de a economia portuguesa praticamente não crescer há vinte anos: com altos e baixos, estamos huje muito próximos de onde estávamos no princípio do século! A convergência com a Europa não se verificou: pelo contrário, fomos ultrapassados por vários países da Europa Central e Oriental. Cum mais desigualdade do que nunca, com mais corrupção dn que sempre, quase sem indústria e sem capital, Portugal tem necessidade de se reinventar, de encontrar uma inédita energia, de organizar o esforço colectivo, de encontrar os meios para fazer o necessário e de atrair quem esteja preparado para fazer o que é preciso.

s tolices du nacionalismo e da direita radical nada resolvem, apenas agravam. A incapacidade da direita e do centro-direita é má conselheira. A insuficiência da esquerda democrática é evidente. As fantasias da esquerda radical nada arranjam. As soluçóes sáo mesmo mais difíceis do que estas simplicidades incapazes. 0 próprio primeiro-ministro, operacional incurável e habilidoso, já se deu conta de que não consegue. Por isso, esta semana, no debate sobre o

Grande angular António Barreto

António Costa não quer tomara iniciativa de procurar outras soluções sem antes poder garantir que pediu esquerda e esquerda não teve, que convidou a esquerda e esta não quis vir

estado da nação, propôs acordo sério, a prazo e aparentemente consistente à esquerda, toda, democrática ou não, centrista ou radical, institucional e revolucionária.

H

á quem imagine um país absolutamente polarizado entre esquerda e direita a dar conta dos graves problemas que tem? Alguém crê que um governo e uma maioria de esquerda, que incluam o Bloco e o PCP, sejam capazes de trazer investimento internacional, interesse das instituições económicas do mundo inteiro, empresas e grupos empenhados em criar novos produtos, novas empresas e novos processos de modo a que não se trate simplesmente de comprar o que está feito, eventualmente para desfazer, vender e fechar? Quem acredita que uma coligação entre o PS e todos os restantes grupos de esquerda seja capaz de fomentar a poupança, estimular o investimento nacional e internacional, atrair as melhores empresas e grupos do mundo, seduzir cientistas e capitalistas de vanguarda capazes de organizar a exploração racional de alguns recursos, como sejam os minerais? Pensa-se possível que um governo duro de esquerda conseguirá chamar instituições e capitalistas a fim de cuidar de um dos nossos maiores problemas que é o da falta de capital? Alguém acredita que os fundos europeus chegam? Que, sem outro tanto de origem interna ou internacional privada, seja possível recuperar, reformar e relançar?

É verdade que há quem julgue que os dinheirfis europeus vãn resolver isso tudo. Mas convém ter em conta que seriam os grandes inimigos da Europa e da União Europeia, isto é, as esquerdas do Bloco e do PCP, associadas ao PS, é certo, que tentariam organizar e gerir à sua maneira os fundos europeus por que agora tanto reclamam. Estas esquerdas que querem que nos dêem dinheiro sem condições e que nos emprestem sem critério, serão elas que vão tentar administrar dez anos de estratégia de recuperação? Será que é com estas esquerdas que tão severamente criticaram sempre a integração europeia, que se poderá agora gerir convenientemente o enorme pacote financeiro?

A

ntónio Costa sabe isto tudo. 0 primeiro-ministro é habilidoso mas não é imbecil. Ele sabe que nada conseguirá de sério e durável com a esquerda toda. Mas ele não quer tomar a iniciativa de prucurar outras soluções sem antes poder garantir que pediu esquerda e esquerda não teve, que convidou a esquerda e esta não quis vir. Acontece que não estamos em maré de jogo. Vivemos tempos difíceis em que a suprema habilidade seria a honestidade e a clareza. Tempos de inquietação e insegurança em que as obras valem todas as fantasias.

Sabe-se agora que a direita sozinha não chega e não é capaz. Esta parece cada vez mais especialista em delapidar o bem comum, em vender ao desbarato, em deixar destruir empresas e grupos e em seleccionar parceiros pela imaginação criativa nas economias paralelas. Sozinha, a direita é responsável por alguns dos actos de maior contaminação de corrupção e promiscuidade. 0 problema é que, sozinha, a esquerda nãn se tem mostrado mais eficiente, nem mais capuz de criar riqueza. Nem sequer mais honesta.

Sociólogo